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Romance | Miguel Sanches Neto

Che no Paraná

 

Ilustração Marluce Reque

che


Tentando me ocupar nesses dias tensos por serem vazios, organizei em um caderno as ocorrências do Che no Paraná. Como sua última aparição pública foi em Cuba, em 14 de março de 1965, quando comunicou a Fidel Castro que outros países precisavam de sua ajuda, Che surgiu em vários lugares até enfim ser descoberto na Bolívia, mais de um ano depois.

O Quartel General de Curitiba informa, em circular interna, a possibilidade iminente de Che estar em Curitiba, dando a descrição dele.

“Trinta e oito anos, cabelos castanhos escuros, com um nítido ‘bico de viúva’, a testa é bem saliente e dividida, olhos castanhos, nariz grosso e reto, com grandes narinas; pele clara e branca; de compleição forte e peito musculoso, não muito cabeludo; mãos um tanto carnudas, com grandes unhas chatas. Bigode repartido abaixo do nariz, crescendo numa curva natural nos cantos da boca, barba morena e escassa nas faces”.

Ri da descrição dos militares. Só uma amante, mesmo a distância, pode guardar detalhes tão minuciosos de alguém. “Peito musculoso e não muito cabeludo” é uma descrição erótica. Não se está erguendo a estampa de um perigoso soldado do comunismo, mas de um galã de cinema. Talvez este poder sedutor tenha sido o grande trunfo do revolucionário. Se fosse um hominho feio e sexualmente desinteressante não teria conquistado tantos adeptos para a causa, principalmente depois de morto. Toda ditadura precisa de um ícone, Cuba se valeu de seu guerrilheiro mais rebelde, transformando-o em um James Dean do drama ideológico em que a revolução se transformara. Homens e mulheres ainda suspiram diante de sua imagem. Era natural que Celina estivesse tão fascinada por ele quase cinco décadas depois de seu fim.

A descrição dos militares continuava tentando alertar para as marcas do corpo do futuro deus da revolução: “Tem uma cicatriz no lado esquerdo do pescoço, logo abaixo do queixo, causada por uma ferida de bala, quase fatal, em 1961. A cicatriz quase sempre está coberta pela barba e não é discernível em fotografias”. Pensei longamente em Celina, que também tem uma cicatriz do lado esquerdo do rosto. Ela saberia desta semelhança? Teria sido alguma mulher que, ao acariciar o rosto do herói, revolvendo amorosamente seus pelos, descobriu este detalhe e o anunciou aos inimigos? Se não foi uma mulher, terá sido com certeza alguém íntimo. Che teria também uma mancha do lado direito da sobrancelha. Quando não sofria de asma, fumava charutos e bebia conhaque com moderação. Depois desse retrato amoroso, vem uma estocada de desdém, de algum brio masculino ferido, uma vingança do autor do relatório. Na última vez em que foi visto, em maio de 1965, “estava muito cansado, gordo e provavelmente doente”. O belo guerrilheiro se viu transformado em alguém desinteressante e fraco.

Em outro informe, ele é tido como um homem de cabelo e barba raspados, com um braço engessado em uma tipoia. Numa informação de 1967, usaria uma carteira de identificação emitida pela Polícia do Paraná e o nome falso de Antônio de Ávila ou Juan de los Santos, vestindo-se como religioso, pois teria vindo de Recife, de ônibus, depois de um encontro com Dom Helder Câmara, o bispo vermelho.

Nessa excursão pelo Brasil, ele estava organizando os movimentos subversivos. O Paraná seria também palco da luta contra o imperialismo. No oeste do Estado, perto da tríplice fronteira, fora desmontado um aparelho de guerrilha. Em Curitiba, outro. Che vagou, nesse período, entre a Argentina e o Paraná.

Entrou no Brasil em junho de 1966 pela cidade catarinense de Dionísio Cerqueira, que é colada a Bernardo de Irigoyen, na Argentina, e Barracão, no sudoeste do Paraná. Hospedou-se num hotel no lado paranaense e, como era inverno, pediu, em espanhol, conhaque. Alto, sem barba, expansivo, praticou atos muito estranhos para a pequena urbe: deu gorjeta ao garçom e também ao jovem engraxate, que caprichou no brilho dos seus sapatos.

O que chamou a atenção é que Che estava de terno, tendo como companhia um motorista, e não se afastava de sua bolsa de documentos onde se encontravam suas armas e o dinheiro de Cuba para as suas atividades. No hotel, conversou com a mulher de outro hóspede, mostrando-se muito interessado nela. O marido assistiu a tudo com a resignação própria dos apaixonados pacíficos, evitando assim que a revolução fosse deflagrada por conta de um par de pernas, conquanto essas fossem merecedoras de todas as disputas masculinas. O recepcionista do hotel conta que o motorista ficou conversando com o marido corno enquanto Che subiu ao quarto com a esposa adúltera. Foi perguntado se ela não poderia ser uma informante e aquele um encontro organizado por Cuba para entregar dinheiro à guerrilha, hipótese que o funcionário descartou com veemência, lembrando que depois da escapada da esposa, o marido discutiu com ela, chorou muito, abraçando- a, em visível — e deplorável — estado de sofrimento amoroso.

No período em que esteve em Barracão, ninguém ainda tinha ideia de quem era o homem com o nome falso de Abram Jehangotembieski, disfarçado de viajante comercial. Só depois de sua partida é que se percebeu que a cidade entrara na rota do perigoso bandoleiro. O prefeito espalhou a notícia do visitante que evitou o percurso por Foz do Iguaçu, preferindo, para chegar a Maringá, o caminho por Cascavel, o que não era algo comum, por conta da volta que seria preciso dar. Ele escolheu esse roteiro ilógico para evitar áreas vigiadas pelo exército.

Fico imaginando que hoje, décadas depois da ditadura militar, tenha sido erguido um monumento a Che em Barracão, talvez haja até uma estátua — ele jovem, formoso e conquistador — na praça dessa cidade que não conheço.

Che e seu motorista chegaram a Maringá em um Simca verde ou amarelo — o dono do Hotel Canadá, um certo José Rocha, não soube especificar. Ficou apenas uma noite, vagou pela cidade, também distribuindo gorjetas a funcionários, bebeu vinho e riu muito na mesa de jantar. Não houve registro de encontros amorosos, embora com esses comunistas a gente nunca saiba exatamente o que acontece.

No antigo prédio do Hotel Canadá, se é que ainda existe, poderia ser colocada uma placa em bronze: “Aqui dormiu o comandante Che Guevara enquanto preparava a guerrilha no Paraná”.

O comandante não parou quieto. Ia de um lado a outro, tanto com o objetivo de não ser preso quanto para organizar os focos revoltosos. Não permanecia muito tempo em nenhum lugar.

Em duas ocasiões, apareceu em Curitiba. Na primeira, vindo de São Paulo, de ônibus, chegou meio bêbado à velha estação rodoviária, onde funciona hoje o Terminal Guadalupe, na rua João Negrão. Esperava o seu contato, que não apareceu na hora em que o ônibus encostou. Então Che aproveitou para fumar um charuto. Portava terno, trazia a barba bem feita e exibia uma careca, o que o deixava incógnito. Mas foi imediatamente desmascarado por um bêbado, que reconheceu a sua voz quando lhe pediu uma informação qualquer.

— O que Che está fazendo em Curitiba?

Antes que o herói respondesse, ele o arrastou ao bar da rodoviária, exigindo que cantasse “Sabor a mi”, com sua voz que lembrava a de Lucho Gatica: “Pasarán más de mil años, muchos más / Yo no sé si tenga amor la eternidad / Pero allá, tal como aqui / El la boca llevarás /Sabor a mí”. Ele cantava mal, mas todos ficaram entusiasmados porque era em castelhano. E não resistimos aos estrangeiros, um dos nossos complexos de colonizados.

Seu contato aparece, briga com o herói que se expôs tanto assim e logo o leva a algum lugar do interior do Estado. Um dos documentos dessa visita do Che à cidade é um conto curtinho de Valêncio Xavier.
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Mas ele havia estado aqui antes, na sua peregrinação sem parada. Chegou como canadense, sob o nome de Alec Alexander, acompanhado de uma enfermeira inglesa. Quem descobriu tudo foi um grupo de senhoras que se valeu de uma estratégia inusitada para confirmar a identidade do suspeito. Sabendo de um senhor alto, forte e elegante, que só falava com os curitibanos em espanhol, apresentando-se sempre ao lado de uma bela moça, as vigilantes damas marcaram um chá na casa de uma delas, convidando o casal. Queriam testar o sangue frio do Che, pois o endereço ficava a poucos metros do Quartel General. Ele chegou com pontualidade, citando os últimos versos do poema de Federico García Lorca:

A las cinco de la tarde.
¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!

Além de seduzir pelas palavras (que mulher sensível não gosta de ouvir poemas com tantas exclamações?), ele também conquistava pelo visual. Bem vestido, cabelo muito arrumado, gestos de mesura, beijou a mão de todas, dissertou sobre pintura, contou histórias de suas andanças.

— De onde o senhor vem agora?, perguntou a anfitriã.

— Do México, onde moramos algum tempo.

E falou maravilhas do povo mexicano, afirmando-se também deslumbrado com Curitiba, com a recepção que tivera, e prova disso era o presente chá, tão refinado, o que negava a fama de cidade fechada, avessa a adventícios.

Depois de mais de uma hora naquelas agradáveis companhias, Che, sempre sorridente, foi embora, despertando suspiros nas terríveis delatoras. Em breve deixaria Curitiba para continuar suas andanças. Ao ouvir isso, as senhoras sentiram faltar o chão — estavam ali, cara a cara, com o famoso, e formoso, bandido.

Só no outro dia tiveram forças para comunicar à polícia a verdadeira identidade de Alexander. Ele passou a ser caçado; ardiloso como era, escapou nos braços de uma bela fêmea, não se sabe sob qual disfarce.

Apareceu ainda, em períodos diferentes, no Rio Grande do Sul, na cidade de São Borja, em reverência aos herdeiros políticos de Getúlio Vargas, em São Paulo e Minas. Manifestava-se em tantos e tão variados lugares que criou um pequeno pânico nas famílias. Muitos acreditavam que ele poderia estar no prédio ao lado. E bastava um desconhecido aparecer falando espanhol, com ou sem barba, esbelto ou gordo, que surgia uma denúncia.

Neste espaço de tempo entre a sua última aparição em Cuba e a guerrilha na Bolívia, Che cresceu no imaginário das pessoas. Era todos os estrangeiros e ao mesmo tempo nenhum deles. Tinha parte com o demo. Estava no Paraná na forma de pessoas bem diferentes. Enquanto alguns afirmavam que fora morto em uma discussão com Fidel, outros juravam que fora visto na casa de um vizinho de quem sempre suspeitavam.

A sociedade curitibana, desconfiada por natureza, se empenhou na caçada ao Che, que se valia do Paraná como região de manobra, para ir da sua cidade natal na Argentina, Rosário, até o seu esconderijo em algum lugar não muito longe de nosso estado. Seríamos incorporados à nova pátria campesina que eles queriam fundar, a mesma que pouco tempo antes havia sido cogitada como território nazista.

Miguel Sanches Neto nasceu em 1965 em Bela Vista do Paraíso, cidade da região Norte do Paraná. Em 1969, mudou-se para Peabiru, onde passou a infância. Professor na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), é autor de mais de 30 livros, entre os quais os romances Chove sobre minha infância (2000) e A segunda pátria (2015). O trecho veiculado nesta edição do Cândido é um capítulo de A bíblia do Che, romance previsto para ser publicado em março de 2016 pela Companhia das Letras.
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