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Romance | Thales Guaracy

Ilustração Bianca Franco

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Anita

Aninha do Bentão, assim a chamavam, mas aquela já era Anita, pensou Giuseppe; só que nem ele, nem ela, sabiam ainda. Tampouco sabia sua mãe, Maria do Bentão, na casa em Laguna, onde viviam; dali fora embora Bentão, o marido tropeiro, de uma vez para sempre, assassinado por vingança, o que fez a mãe se esconder atrás do próprio medo; em vez de honrar o marido morto, ou resguardar sua memória, preferiu dizer que tinha sido merecimento, como se todo e qualquer destino fosse um fim merecido; preferiu pensar que ele tinha atraído a morte. Anita não sabia tudo, porque a mãe não lhe contava; sabia que, ao morrer, Bentão, sem querer, deixara para trás a mulher, nove filhos, patos, galinhas e aquele cavalo no qual ela chegou a galope, saltando no meio do alarido dos bichos, espaventados no terreiro. 

A casa era de parede de taipa e chão de terra batida; o sol que entrava pela janela deixava ver brilhando como ouro dos pobres o pó suspenso no ar.

Na cozinha, a fumaça do fogão a lenha enegrecia o telheiro sobre as vigas de madeira pesada; um canto servia de altar para imagens de santos e velas votivas que a mãe acendia com mãos torturadas. Ao redor da mesa de centro, uma peça comprida, de madeira nua, brincavam seus oitos irmãos; à cabeceira sentava- se Maria do Bentão, vestido negro de luto, com o tio Antonio, vindo de Lages, a 200 quilômetros, para o funeral; interrompeu a conversa ao ver chegar a filha a toda brida. 

Onde você andou, Aninha? 

Ela explicou, falou do carreteiro, do susto, de como lhe abrira a cara com a vara de bater no cavalo. Bati na cara, enfatizou ela: se pudesse, matava. 

A mãe se assustou; disse que a filha saía bem ao pai, daquele jeito acabava mal; a culpa disso é tua, Aninha, quem mandou ser assim, com esse teu jeito desabrido, tu atiças os homens. O tio pediu calma a Maria, segurou sua mão; Anita olhou o tio, estranhando, como se visse agora em todo gesto de homem uma segunda intenção; Bento mal era partido, seu lugar pouco esfriado, e vinha alguém para ocupar o espaço. Estranhou ainda mais o conselho que ele deu em seguida, continuação da conversa que vinham tendo antes; Maria, é como eu estou dizendo, vocês não podem mais ficar aqui, disse ele. 

Ela sacudiu a cabeça, bufou, negaceou; o pano negro do vestido destacava o rosto, que ainda levava algo de uma antiga beleza, curtida pelo tempo e a necessidade; cada ruga era marca de um filho no colo, da roupa lavada, dos momentos que com Bento tinham sido enterrados. Aqui é a minha casa, ela disse, e reforçou, onde eu vivi com o teu irmão. A expressão foi dura, de quem via passada a dor, levantava a cabeça e olhava adiante; as crianças saíram porta afora, levando longe o seu alarido, e ela colocou as mãos sobre o rosto, em prece silenciosa, de confessionário; sabia tão bem quanto ele que perdera não somente o marido, como a proteção; porém era cedo para o futuro, precisava de tempo para assimilar as sentenças da vida. Vocês não têm como se sustentar num lugar tão grande, insistiu o tio Antonio, e eu mesmo não sei por quanto tempo poderei ajudar. A guerra está chegando. Lages está se movimentando para se juntar aos republicanos. Laguna também. Bento Gonçalves logo vai ser o nosso presidente, dizem que está juntando armas e homens para entrar em Porto Alegre; eu estarei com eles. 

Maria levantou a cabeça, deixou as mãos caírem sobre o colo; Anita sentou-se, ainda com o relho na mão. Olhou o tio dessa vez com interesse, queria saber da guerra; ali na mesa parecia ainda jazer o morto, no lugar onde tinha sido limpo com toalhas úmidas, perfumado, velado e benzido; a cera das velas ainda desenhava a forma do corpo, e ela sentiu raiva, e sede: sede de seguir com o tio, com quem quer que fosse que lhe desse uma espada, não por vingança, mas para saciar aquela vontade de sair dali, de matar, tirar algo de alguém, como deles se havia tirado. Antonio, disse a mãe, pensa em nós, não tenho mais a quem recorrer. Ele, porém, balançou a cabeça: ninguém mais quer viver desse jeito, escravo de impostos, beijando a mão desse Dom Pedro que só quer manter o Brasil como colônia de Portugal. Vamos acabar com a monarquia, começando aqui pelo sul do Brasil, disse ele, sentencioso e áspero: é a guerra, Maria! Guerra de verdade! Vocês precisam sair daqui, vão para minha casa. Veja Aninha por aí às voltas com esse carreteiro, tens um motivo a mais. Leve-a embora, devo a meu irmão a segurança de todos vocês! Se algo lhes acontecesse, nunca me perdoaria. 

Anita se impacientou; não gostava de ser tratada como criança, nem daquela generosidade do tio, que parecia ir além da simples bondade; não tenho medo de nada, disse ela, quero ser como Felicidade, vou entrar nessa guerra com o senhor! Também quero a liberdade, não é porque sou mulher que passarei a vida pedindo ajuda, minha liberdade vai ser conquistada. 

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A mãe bateu na mesa com a mão espalmada; onde já se viu, tu entrares na guerra, disse, exaltada; tua irmã Felicidade foi para o Rio de Janeiro se casar, não andar sem roupa nem viver no mar, muito menos matar gente. Tu não és livre coisa alguma, és uma perdida; quem manda sair por aí feito homem, andando em cavalo montado a pelo? Provocas todo mundo, com esse teu comportamento desabrido; se não respeitas o meu luto, a minha tristeza, podias respeitar o defunto fresco do teu pai, que Deus o tenha. 

Em outros tempos, Anita talvez se calasse; mas amadurecia para a liberdade; a morte do pai lhe tirara a última rédea, e liberdade naquele momento era tudo, de enfim viver como queria, de fazer o que queria, e da liberdade de seu país, o Brasil livre, livre de Portugal. Eu sou livre, disse ela ao tio; somos todos livres, como o senhor me ensinou, como meu pai ensinou; ele sempre viveu livre, andando pelo mundo, e agora que está morto, está mais livre do que nunca, longe de toda tristeza. 

Bateu a vara de salgueiro na mesa e jogou-a longe; um irmão colocou o queixo na janela, assustado com o barulho e o seu tom de voz; Anita se levantou e saiu como entrou, feito tempestade. 

Ai meu Deus, disse Maria do Bentão; estou perdida. 

Antonio colocou uma mão no ombro da cunhada, como se pudesse assim ampará-la na desolação; repetiu que a guerra chegava, ela precisava de abrigo, para quando a guerra estourasse; e mais, sugeriu que Anita precisava de casamento, como acontecera com a irmã mais velha, já remediada. Até parece que tu não acabaste de ouvir o que ela disse, atalhou Maria do Bentão; essa menina é um burro xucro, teimosa, vai casar com quem? Alguém há de pôr a peia nela, disse Antônio, firme; ela tem catorze anos, já tem idade, e alguém há de se arrumar. 

Quando Giuseppe ouvia Anita falar de como se arranjara para ela marido, divertia-se a valer; imaginava o tio a dizer, que alguém coloque a peia nela, e quando lembrava dessa frase, Anita ria; Giuseppe puxava a guia de cabresto no bivaque e a laçava pelo pescoço; beijava- a, dizendo que agora estava domada, e a tinha só para si; assim são os selvagens, explicava ele, precisam da peia, porque sem isso quem campeia a vida toda não encontra jamais amor.

Thales Guaracy é jornalista com passagem pelas redações de O Estado de S.Paulo e das revistas Exame e Veja. Como diretor editorial da Saraiva, criou o Prêmio Benvirá de Literatura e publicou obras de Patricia Highsmith, John dos Passos, Willian Faulkner e Hermann Broch. Atualmente, está totalmente dedicado ao desenvolvimento de sua obra, com dois livros de não-ficção sobre a história do Brasil em andamento. O romance histórico Anita, que o Cândido antecipa um trecho nesta edição, será publicado pela Planeta em março de 2016. Guaracy nasceu e vive em São Paulo (SP).
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