Editorial - Cândido 67

A relação dos escritores curitibanos com a cidade tem sido um tema constante na literatura paranaense. Um caso complexo, bastante passional, que certamente renderia boas teses acadêmicas. No caso desta edi- ção do Cândido, rendeu um instigante ensaio do tradutor e jornalista Christian Schwartz, que recupera alguns dos principais livros — e nuances — sobre esse embate entre criador (a cidade) e criatura (o autor).
No texto, Schwartz parte do clássico Ilusões perdidas, do francês Honoré de Balzac, para falar sobre a “jornada do herói provinciano”. E em Curitiba, não faltam heróis nem provincianos. “Curitiba tem sido cenário constante dessa saga — protagonizada ora pelos literatos ficcionais de romances passados na cidade, ora por seus próprios escritores de carne e osso”, diz.

De Cristovão Tezza a Jamil Snege (foto), de Miguel Sanches Neto a Dalton Trevisan, foram muitos os escritores cuja literatura foi impactada pelas características peculiares da capital paranaense.

“Há uma segunda versão clássica da jornada do herói provinciano; nela, ele jamais consegue alçar voo, irremediavelmente acorrentado à pequeneza de suas origens. Curitiba produziu, e continua a produzir, alguns personagens assim — só que na vida real”, escreve Schwartz em um trecho do ensaio.

Outro destaque do Cândido de fevereiro é a entrevista com a professora da Universidade de São Paulo (USP) Leyla Perrone-Moisés. A conversa se baseia no mais recente livro dela, Mutações da literatura no século XXI, em que apresenta suas ideias acerca de diversos temas ligados à narrativa de fic- ção contemporânea, como a falta de relevância da literatura na sociedade atual. “O que está não apenas desgastado, mas quase abandonado, é o hábito da leitura. Numa sociedade de consumidores, a oferta de informação e entretenimento é enorme, e passa por outros meios que não o livro. A falta de relevância da literatura nos dias de hoje é correlata à falta de reflexão, de crí- tica e de projeto que caracteriza a sociedade contemporânea.”

Já o músico e escritor Cadão Volpato analisa os 30 anos do cultuado álbum Três lugares diferentes, de sua banda, Fellini, além de comentar os livros que escreveu recentemente, em especial Os discos do crepúsculo, previsto para ser publicado no primeiro semestre de 2017.

Entre os inéditos, contos de B. Kucinski e Flávio Jacobsen, poemas de Alvaro Posselt, Gerson Maciel e Samantha Bedushi Santana.

Boa leitura.
        Foto: Daniel Snege
Jamil - Daniel Snege
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