Entrevista: Ignácio de Loyola Brandão

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Escritor com alma de cineasta


Um dos maiores nomes da literatura contemporânea, Ignácio de Loyola Brandão fala sobre sua extensa obra e declara seu amor ao cinema, um dos temas presentes em seu mais recente livro, Acordei em Woodstock


Luiz Rebinski Junior


Ignácio de Loyola Brandão já escreveu mais de 40 livros, em quase todos os gêneros literários, ganhou diversos prêmios e é autor de Zero, um dos principais romances brasileiros do século XX. O que, pelo menos para o escritor, não foi suficiente para lhe abrandar uma frustração: a de não ter sido cineasta. Mas como pode um escritor tão bem-sucedido reclamar da própria sorte? “A gente deve sempre levar alguma [frustração], para colocar lá na frente como um projeto que nos faça caminhar”, explica Ignácio, que, na sétima arte, foi mais do que um cinéfilo disciplinado (assistiu mais cem vezes 8½, a obra-prima de Federico Fellini). Entre seus feitos no cinema, consta uma participação, como figurante, em O pagador de promessas, filme de Anselmo Duarte que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1962. “Sou um figurante Palma de Ouro”, diz.

Várias das histórias do cinéfilo Ignácio de Loyola Brandão são contadas em Acordei em Woodstock, relato sobre uma viagem feita aos Estados Unidos pelo escritor, sua mulher Márcia e um casal de primos, entre 23 de setembro e 07 de outubro de 2000. “Relato” é apenas um eufemismo pobre para definir um livro que também leva o DNA da crônica, dos livros de memória e, até, de crítica cultural. A viagem é literal, claro, mas na garupa Ignácio embarca seu conhecimento quase enciclopédico sobre livros, escritores, atores e atrizes, obras de arte e, claro, filmes, muitos filmes e diretores. O roteiro de viagem é interessante, leva o leitor a lugares como Cornish, o esconderijo de J. D. Salinger no interior dos Estados Unidos, mas é quando Ignácio sai da trilha que o leitor começa a viajar de verdade.

Entre um café e outro em alguma lanchonete de beira de estrada, o escritor dá uma pausa na narrativa de viagem para falar de grandes escritores como F. S. Fitzgerald e Willian Faulkner, diretores como Billy Wilder e John Ford, e musas como Greta Garbo. Sim, o livro é uma declaração de amor à cultura americana, que desde muito cedo fez parte da formação do escritor. “Cresci depois da Guerra, quando os americanos intensificaram sua 'invasão' no mundo.” Na entrevista que segue, o escritor fala sobre essa paixão, mas também sobre sua vasta e rica obra literária que, apesar da modéstia em demasia do autor, já está marcada a ferro quente em nossa literatura.

Ao longo da narrativa de Acordei em Woodstock, há espaço para comentários a respeito de filmes, livros e personagens da cultura americana, todas feitas com riqueza de detalhes e de uma forma bastante apaixonada. O livro também é uma espécie de declaração de amor à cultura americana?
Cresci depois da [Segunda] Guerra, quando os americanos intensificaram sua “invasão” no mundo. Via filmes americanos, seriados americanos, estudávamos inglês no ginásio e no científico, líamos Hemingway, Faulkner, John dos Passos, líamos os gibis americanos. Na verdade, eles solaparam a cultura francesa que recebemos com o estudo da língua — falo francês até hoje, o francês que aprendi no começo do ginásio. As mulheres gostosas que víamos nas revistas eram as pin-ups americanas. Mas havia algo naquilo tudo que nos incomodava, apesar de gostarmos. Não sabíamos o que era, tanto que, quando chegou a Nouvelle Vague francesa, caímos de amores por ela e pela divina Jean Seberg. Também caímos nos braços do neo-realismo italiano. Então soubemos que o fake americano nos incomodava, ainda que por lá houvesse grandes cineastas, autores, pintores, poetas. Finalmente entre os 20 e os 30 fomos decididamente anti-imperialistas. No fundo, sou produto de um caldo, de um minestrone.

inagcioVocê tece comentários sobre várias obras, de Moby Dick a O apanhador no campo de centeio. Mas fala pouco de seus próprios livros — consigo lembrar apenas de algum comentário a respeito de Zero. Pretende um dia repassar sua obra e sua vida de escritor em um livro de memórias?

Depende muito. Na segunda edição de Depois do Sol, após 40 anos, fiz algo que adorei fazer: dezenas de páginas de making-of. Quando saiu a edição especial de 35 anos do Zero, acrescentei 100 páginas de making-of, porque este livro acabou sendo emblemático para uma geração. Quando Não verás país nenhum completou 30 anos, acrescentei um caderno com making-of. Prefiro fazer essas coisas a me voltar para meus próprios livros. Isto é função de algum crítico, ensaísta ou teórico, não do próprio autor. Penso eu. Mas, no fundo, gostaria de publicar um livro mostrando as 700 anotações que fiz para Não verás país nenhum. Seria quase uma edição particular.

Em um dos trechos do relato, você fala de sua “quase” passagem por Cornish, a cidade que J. D. Salinger escolheu para se esconder do mundo nos anos 1950. Salinger foi uma referência para você?
Em termos. Gostei apenas de O Apanhador no campo de centeio, lido há décadas. Nunca mais reli, nem tive vontade. Não foi o livro que realmente me deu um soco na barriga. O que me interessava mais era a construção do mito do escritor refugiado e solitário que ele construiu. Fiquei fascinado com o mistério: por que ele fez isso?

No início de sua carreira jornalística, você foi crítico de cinema em sua cidade, Araraquara (estreando aos 16 anos), foi figurante em O pagador de promessas, o clássico de Anselmo Duarte, e teve algumas de suas obras adaptadas ao cinema. Ainda mantém uma relação íntima com a sétima arte?
Ter sido crítico e ver filmes diariamente me levou a criar todos os meus livros, todos, a partir de uma imagem. Me formei com imagens, elas até hoje me conduzem. Gostaria de ter sido diretor de cinema. É uma frustração que carrego, mas a gente deve sempre levar alguma, para colocar lá na frente como um projeto que nos faça caminhar. Vejo cinema até hoje, tenho uma coleção de DVDs. Tem filme que vejo e revejo. Todos sabem que já assisti , de [Federico] Fellini, mais de 100 vezes. Já contei como a estrutura desse filme influenciou a do Zero, com seus vários planos. Quando Fellini morreu, fiquei de luto. Mas claro que a liberdade de câmera e narração de Godard em Acossado também foi essencial. Ter sido figurante foi uma brincadeira de Anselmo Duarte, que foi um de meus grandes amigos. Estava na Bahia fazendo uma reportagem sobre a filmagem — fiquei 30 dias lá — e um dia ele me colocou em cena. Sou um figurante Palma de Ouro e aquela foto saiu na capa do programa de Cannes...

Além de ter trabalhado no Última Hora, o jornal de Samuel Wainer, e na revista Realidade, você dirigiu por mais de uma década a revista Vogue. Mas em Acordei em Woodstock você se diz hoje pouco interessado no jornalismo. Por quê?
Porque 50 anos de redação são suficientes. Vivi diversas épocas, da linotipia e clichê de zinco, passando pelos fotolitos, até os computadores, ipads, ebook, etc. Há uma certa desilusão com a imprensa. Nos anos finais de Vogue, me especializei em entrevistar mulheres interessantes e inteligentes que desvendavam dois mundos: aqueles em que viveram quando jovens e o de hoje. Gente como Marina Colasanti e Ira Etz, Maria Teresa Goulart, a modelo Dalma Callado, e dezenas de outras que restauravam um modo de vida glamoroso que desapareceu. Até gostaria de publicar essas matérias em livro. Mas a relação com a Vogue é complicada, os direitos são deles. Foi um alívio deixar a redação, os prazos de fechamento, as noites passadas em claro, as cobranças de colaboradores, etc. Também, cá entre nós, fui um jornalista apenas mediano a vida inteira. Ainda que tenha gostado, por exemplo, de ter implantado a revista Planeta, nos anos 1970, algo completamente fora da caixinha, que mexeu com as cabeças ao falar do poder da mente, civilizações desaparecidas, universos paralelos, mistério do além, mundos primitivos. Fui dos primeiros a noticiar que Hilda Hilst tentava ouvir as vozes dos mortos.

Além dessa “pegada” opinativa, Acordei em Woodstock também funciona como relato de viagem e livro deignacio memórias, ou “quase memória”, conforme você escreve na introdução, citando o romance de Carlos Heitor Cony. Foi seu objetivo fazer um livro que pudesse ser lido de diversas formas? Ou seja, essa profusão de gêneros foi premeditada ou simplesmente aconteceu a partir do processo de escrita?
Levo um caderno — ou compro no local. Em Paris uso os Claire Fontaine, que são os dos estudantes franceses... para dar cor local... — e faço anotações. Quase diário, onde anoto inclusive o que gasto, os preços das coisas, certas situações, etc. Recolho ingressos, guardanapos, cardápios, notas de almoços ou jantares, arranco rótulos de vinhos, pego cartões, folhas de árvores de lugares que me marcaram, compro postais, mas não vistas e sim coisas inusitadas. Na volta, escrevo para mim um relato. Woodstock estava pronto e nos dez anos que se passaram entre a viagem e a publicação, fui mexendo, à medida que me vinham lembranças, pessoas, fatos. A certa altura vi que queria mesmo um livro inclassificável, que pudesse ser lido, como você disse, de diversas formas. Há, inclusive, um quase conto infantil dentro. O dos meninos brincando de Moby Dick no quintal de minha casa. O livro estava pronto quando recuperei a história do gerente da Via Veneto, um personagem que me impressionou na época. Há nisso aquela minha vontade secreta de ter sido um personagem semelhante, aventureiro, audacioso, galante (como se dizia), que está em tudo, conhece todos, vive por prazer e também fez alguma coisa pela humanidade. Minha utopia pessoal, que se confronta, dia a dia, com o cotidiano banal de enfrentar a vida para sobreviver. Lembrar que eu era um provinciano, fazia pouco que tinha saído de Araraquara e estava em Roma, um dos centros do mundo. Daí aquele último segmento, depois que tinha acabado o livro. Mas talvez eu não tenha acabado Woodstock. Há nele literatura, memória, jornalismo.

Você é um dos escritores mais prolíficos da literatura brasileira, escrevendo em quase todos os gêneros literários, do conto à literatura infantojuvenil. Como funciona esse processo de escrita? Há compartimentos para cada gênero em seu repertório de escritor? Quando sente que uma ideia é mais apropriada para um conto ou romance, por exemplo?
Leo Gilson Ribeiro, um bom crítico que já morreu, um dia sentou-se ao meu lado, fomos amigos, trabalhamos na Abril juntos, certa época e me disse: “Vou te dar um conselho. Você escreve demais. Tire o pé do acelerador. Os grandes escritores são os que escrevem pouco, são parcimoniosos. Veja o Raduan Nassar.” Raduan sempre foi celebrado por seus escassos livros. O meu “problema” talvez seja a compulsão. Escrevo, tenho de escrever, é o que me dá vida. Talvez eu não seja um grande escritor. Mas sou um escritor. Não estou aqui para disputar corridas de Fórmula 1. Mas dou alguma contribuição no meio de campo, fazendo alguns lançamentos para o pessoal da área. De qualquer forma sinto que tenho dois marcos: Zero e Não verás país nenhum. São aquilo que em golfe se chama longest drive. Acertar o buraco 18 numa tacada só, de longuíssima distância. Não, não jogo golfe, mas sei certas coisas inúteis. Nunca sei se a situação será conto ou romance. Sei quando é crônica. Isso tenho certeza. E quando sei, sento e escrevo e guardo, depois trabalho e retrabalho. Pega ele silêncio seria um romance, que virou conto. Bebel que a cidade comeu seria um conto, que virou romance. Não verás país nenhum começou como um conto, O homem do furo na mão, e se transformou em um romance. Às vezes, sei que é um conto, a situação tem fôlego curto. Aliás, faz muitíssimo tempo que não escrevo um conto.

Recentemente você escreveu sobre a ex-primeira-dama Ruth Cardoso. Aliás, assim como este perfil, você já escreveu vários livros por encomenda. Muitos escritores torcem o nariz para esse tipo de trabalho. Faria algo semelhante com livros de ficção, como costuma fazer Luis Fernando Veríssimo?

Torcem o nariz porque a palavra “encomenda” fere o ideal puro. Aceitei a biografia da Ruth, assim como aceitei a de Olavo Setubal, para buscar saber de que estofo são feitas essas pessoas especiais. Você pode não concordar com a vida de Setubal, mas não pode dizer que ele não foi um empreendedor, um case sobre a empresa privada, os bancos. Os bancos são fascinantes, como são construídos e como agem. De que matéria uma pessoa assim é feita? Como são moldados? Gosto de pessoas determinadas. São personagens. Quanto a Ruth, fiz pela admiração. Fiz porque ela é araraquarense e a mãe dela me deu aulas. Fiz porque foi a primeira e última primeira-dama deste país que criou verdadeiramente o conceito de primeira-dama, a serviço de um povo. Ela respondeu a uma pergunta até então sem resposta: para que ser uma primeira-dama? O que ela fez, Lula e o PT destruíram em seguida. Foi uma mulher que revolucionou o ensino da antropologia. Aceito histórias de empresas quando seus pioneiros e líderes são excepcionais e trouxeram algo de novo e de excitante. Quando um dia escreverem a história da empresa privada no Brasil, vão ter de recorrer aos quase 30 livros que escrevi nesse segmento. Outra coisa, a DBA, editora paulista, ao convidar escritores para escreverem tais livros, mudou o panorama. Antes esses livros eram chapa branca, escritos por um funcionário do marketing da empresa. Hoje são romancistas que dão charme e sabor a esses livros, tirando-lhes o cheiro de coffee table book. Quanto à ficção, não escrevo sob encomenda. Essa me vem do coração.

Um de seus livros mais célebres, Não verás país nenhum, fez 30 anos em 2011. Em se tratando de uma distopia, qual a sua percepção hoje do romance? Muitos problemas detectados ali se acentuaram nas últimas décadas, como a questão ambiental, não?
Apanhe Não verás país nenhum e veja como tudo aconteceu. Violência, congestionamentos, meio ambiente destruído, demagogia sobre sustentabilidade. Quantos dizem hoje que o grande problema do futuro será a água e não o combustível? Não verás... já disse. Havia uma dedicatória que eu sempre escrevia: “Tomara que tal futuro nunca aconteça.” Já aconteceu. Governo e meio ambiente? Serve-se aos interesses de corporações, com esses políticos podres, que vendem seus favores como portas de rua. Por outro lado, sinto em certas empresas uma preocupação e uma tentativa séria de tentar dar um freio à loucura.

Apesar de Não verás país nenhum se ater mais à questão ambiental, o romance é comumente associado a 1984, de George Orwell. O clássico de Orwell lhe influenciou de alguma maneira?
Li o livro do Orwell. Mas o dele fala de uma super civilização, o meu de uma sub civilização, do lúmpen. Li também Admirável mundo novo, de Huxley. Há inspirações que despontam ao longo do tempo e afetam certas cabeças.

Zero, após várias décadas, continua sendo seu livro mais comentado e discutido. Além de ser um dos maiores romances da literatura brasileira no século XX, o livro tem uma trajetória interessante: surgiu a partir de um conto, foi publicado primeiramente na Itália, foi censurado no Brasil e, finalmente, ganhou vários prêmios. Onde reside a força do livro, em sua opinião?
Não sou teórico, não sou aquele que pode olhar esse livro de fora. Quem sabe tenha sido a raiva com que escrevi e que era a raiva, o desespero e o medo que havia dentro de todos nós? Quem sabe foi a coragem de fazer um romance não convencional, com uma estrutura que ninguém tinha tentado até então, e que nunca foi imitada, copiada, nunca fez escola. Zero é um livro solitário

Quase tudo em Zero foge do convencional — a história, a diagramação, a narrativa fragmentada, o uso de onomatopeias, etc. Acha que depois das vanguardas e de tantas experimentações, ficou mais difícil ser inovador na literatura?
Sempre me pergunto: será que é preciso inovar sempre, sempre? Não se pode escrever um livro, pintar um quadro, fazer um filme? Simplesmente. Muitas vezes estamos inovando sem saber, fazendo uma coisa que é necessária e vem do fundo. E há tanta inovação falsa, para chocar, chamar a atenção.

Em Acordei em Woodstock você escreve sobre uma viagem feita com outros escritores veteranos, como Verissimo e Rubem Fonseca, e jovens, como Daniel Galera e André Sant'Anna. Você acompanha a cena literária brasileira? Lê os jovens que estão iniciando?
Gosto de Cristovão Tezza, Luiz Ruffato, Ivana Arruda Leite, Marcelo Ferroni, Michel Laub, Eliane Brum, Tatyana Salem e a Adriana Lisboa. Outro escritor que admiro e tem feito carreira segura é o João Almino. Não é tão novo, mas é bom.

Em um trecho de Acordei em Woodstock você escreve que “todos nós, escritores, gostaríamos de ter uma obra que sobrevivesse, objeto de análises, questionamentos, pesquisas, enfim, permanecesse.” No final das contas, todo escritor quer se tornar imortal por meio de sua obra?

Os livros seriam uma (tênue) possibilidade de não morrermos. Mas podemos desaparecer e voltar, sofrermos um revival. Há tantos casos. Scott Fitzgerald, quando morreu, já era dado como morto aos 44 anos. Esquecido. Hoje ele é lido, vendido e tido como um dos maiores de todos os tempos na América. Este ofício é complicado, mas temos de exercê-lo com sinceridade, fogo e lança na mão.
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