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Capa | Carlos Drummond de Andrade

A poesia brasileira passa por ele

Após 30 anos da morte do poeta, o legado de Carlos Drummond de Andrade — aclamado em vida — é cada vez mais presente no imaginário nacional e na obra de autores contemporâneos


Marcio Renato dos Santos

  Reprodução
Capa
Drummond fotografado em seu apartamento em Copacabana, no Rio, na década de 1980.

O legado de Carlos Drummond de Andrade ultrapassa o domínio estrito do mundo literário especializado e possui alcance popular. Isso não diz respeito apenas, por exemplo, à estátua do poeta na orla da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro — cidade onde o mineiro nascido em 1902 em Itabira fixou residência ainda na década de 1930. O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), curador literário e poeta Ítalo Moriconi lembra que há fragmentos da produção drummondiana no DNA do povo brasileiro, seja a expressão “pedra no caminho”, do poema “No meio do caminho”, ou a pergunta “E agora, José?", do poema “José”.

Apesar da presença de Drummond no imaginário nacional, Moriconi tem a impressão de que em 2017 — três décadas após a partida do autor, morto no dia 17 de agosto de 1987 —, entre as novas gerações não há grandes conhecedores, leitores contumazes ou de cabeceira da poesia do artista mineiro. “Mas não tenho dúvida de que qualquer leitor contemporâneo que pegar a obra de Drummond vai ver que ali está a poesia essencial, poesia literária da boa”, diz.

O professor da Universidade Brasília (UnB) Alexandre Pilati analisa que o legado de Drummond para a poesia brasileira é inestimável. “Ele está certamente entre os grandes escritores modernos de todo o mundo”, afirma. No entendimento do estudioso, a obra drummondiana representa um grande e complexo universo em que se encontram desde elementos mais íntimos da experiência brasileira quanto forças literárias da tradição universal recolhidas e criticadas sob um ponto de vista que privilegia a estética do impasse.

Professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Wilson Alves-Bezerra acredita que Drummond é um dos grandes poetas da língua portuguesa. “Sua escritura intimista e reflexiva e ironia fazem dele um dos maiores poetas modernos entre nós”, comenta. Aliado a isso, acrescenta Alves-Bezerra, ocorreu com Drummond o fenômeno de ser um poeta lido e reconhecido em vida. “A sua popularidade também tem a ver com sua linguagem cativante, com sua escrita linear, de aparente simplicidade, e a eleição de temas universais, como o amor, a condição humana e o corpo. A atitude do sujeito perante um mundo que o ultrapassa, o exacerba e o interroga é outro dos grandes temas do poeta”, diz, sem deixar de observar que Drummond se tornou um personagem da nossa cultura, conhecido inclusive por não-leitores de poesia, o que, entre nós, é um fenômeno raríssimo.

Longa estrada
O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Antônio Marcos Vieira Sanseverino chama atenção para seis livros do início da trajetória de Drummond: Alguma poesia (1930), Brejo das almas, (1934), Sentimento do mundo (1940), Poesias (1942), Rosa do povo (1942) e Claro enigma (1951). No caso de Alguma poesia, Sanseverino destaca o texto inicial, “Poema de sete faces”, que traz um “eu” retorcido apresentado na primeira estrofe: “Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.” “Esse sentimento esquerdo e essa determinação de quebra do padrão, em oposição à normalidade, transformam-se no humor melancólico de quem se fragmenta em sete faces”, explica.

De fato, o livro de estreia de Drummond reúne poemas que são relevantes na trajetória do poeta e marcos da poesia brasileira, entre os quais o já citado “Poema de sete faces” e “Infância”, “Lagoa”, “Política Literária”, “No meio do caminho”, “Quadrilha”, “Cota zero”, entre outros.

“Em cada um desses seis livros, de Alguma poesia até Claro enigma, o leitor encontra grandes poemas”, ressalta Sanseverino. Já Wilson Alves-Bezerra observa que Drummond impôs uma dicção ao verso brasileiro: ele consolidou o verso livre introduzido pelo nosso modernismo. “Depois de Drummond é mais difícil pensar em rimas e sonetos em nossa poesia. A aparente simplicidade de sua lírica se impôs a uma grande corrente de seguidores: no plano da forma, este é seu grande legado”, argumenta o pesquisador da UFSCar.

Ítalo Moriconi destaca a trajetória do poeta como um todo. “Sempre digo que Drummond foi um grande poeta beneficiado pela longevidade, como também foram Bandeira e Cabral, seus dois grandes companheiros no panteão poético-literário brasileiro. O interessante é que em Drummond essa longevidade vivida é justamente o tema fundamental de sua poesia, seu fio condutor. A poesia dele narra reflexivamente o desenrolar de toda uma vida de um homem, brasileiro, de seu século”, teoriza, acrescentando que a brasilidade de Drummond é universal a priori, jamais provinciana — “embora a província seja um dos seus temas fundamentais, por ser lugar de origem dessa vida que se conta em versos modernistas e, por vezes, clássicos.”

Moriconi insiste que, mais do que apenas livros ou poemas, o que considera fascinante na obra de Drummond são as fases ou etapas. “A primeira dos anos 1920, depois a dos anos 1930, a virada classicizante e em seguida meditativo- filosofante dos anos 40-50, e os diversos flertes com as modas dominantes a partir dos anos 60: experimentalismo, memorialismo, erotismo (este de publicação póstuma)”, comenta.

Criança no tempo
A infância, um dos temas da obra de Drummond, está presente na tese de doutorado “Retratos da infância na poesia brasileira”, defendida por Marcia Cristina Silva na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2013 — conteúdo que será publicado em forma de livro pela Editora da Unicamp neste ano.

A estudiosa analisa que na obra do poeta há uma desconstrução da infância idealizada, demonstrando que crescer significa também perder. “A realidade que construímos na infância precisa ser desfeita para ser novamente reconstruída. O poeta é ao mesmo tempo o adulto e o menino, as perguntas e a falta de respostas, o conhecimento e a desconstrução desse saber”, diz.

Marcia afirma que a poesia de Drummond, desde o primeiro livro, Alguma poesia (1930), apresenta uma novidade em relação à imagem da criança. “Atrás de um menino solitário e sonhador do poema ‘Infância’ já se escondia um devorador de mundos”, comenta. A pesquisadora também observa que as crianças da obra drummondiana são movidas por algumas fraquezas humanas, entre as quais o desejo pelo corpo feminino e/ou o instinto de caça à realidade em meio às palavras, a exemplo do que se lê no poema “Febril”, do livro em Boitempo III (1979): “Ai coxas, ai miragem,/ nudez rindo fugindo!/ Relampeia no escuro/ até no dia claro![...]/ Quando crescer (e cresço?)/ tudo estará presente?/ Ou perco para sempre/ isto que não mereço?”.  

Ainda em relação ao poema “Infância”, Marcia não deixa de destacar a presença do personagem Robinson Crusoé, o protagonista do clássico romance publicado em 1719 no Reino Unido por Daniel Defoe. “Robinson Crusoé, a princípio símbolo de solidão, é também o passaporte para o mundo da imaginação. Assim, ao mesmo tempo em que Drummond focaliza uma solidão individual, também consegue enquadrar um sentimento comum a todos”, analisa. A solidão da criança, continua Marcia, é o que grita e nos acorda no poema — e esse sentimento se comunica com adultos de todos os tempos.

Os livros Boitempo I, II e III, no entendimento de Marcia, são peças-chaves para refletir sobre a infância em meio ao legado drummondiano: “Nos dois primeiros, destaca-se a imagem do adulto oprimido pelas lembranças da infância, enquanto no terceiro, em especial no poema ‘Esquecer para lembrar’, há uma superação das barreiras do tempo, o que apresenta ao leitor um diálogo de igual para igual entre a criança e o adulto.”

                                                                                                                                         Reprodução
Drummond
Drummond é incontornável: não é possível escrever poesia sem conhecê-lo

Vitrine no jornal 
Drummond também atuou como cronista, e as opiniões a respeito desta face do autor dividem a opinião dos estudiosos. “O Drummond cronista tem importância devido ao Drummond poeta. A recíproca não seria verdadeira”, afirma o professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro da Academia Brasileira de Letras e escritor Antônio Carlos Secchin. 

Já Ítalo Moriconi define Drummond como um excelente cronista, “da altura de um Machado de Assis”, mas o professor da UERJ salienta que “a poesia dele é mais importante”. De resto, completa, toda a poesia de Drummond é uma crônica reflexiva do cotidiano de um homem do século XX numa metrópole moderna, de um homem com um pezinho num passado provinciano e rural, que ficou lá atrás, “retrato na parede, doendo”, mas que também toma conta avassaladora de sua intimidade adulta.

Em diálogo com o ponto de vista de Moriconi, Antônio Marcos Vieira Sanseverino afirma que o cronista Drummond não está na mesma altura do poeta, mas, pondera, isso não pode levar alguém a negar sua leitura. “Ao contrário, no cronista encontramos o mesmo esforço de articular o cotidiano, a dicção moderna e a literatura”, diz o estudioso da UFRGS.

Somente no Jornal do Brasil Drummond publicou 2.300 crônicas, entre 1969 a 1984 — período em que o impresso carioca contou com um elenco de primeira grandeza, em que brilhavam textos afiados de Elio Gaspari e Zózimo Barrozo do Amaral, entre outras grifes jornalísticas. Alexandre Pilati observa que “um pouco” da popularidade do poeta Drummond também se deve ao fato de ele ter escrito crônicas delicadas, acessíveis e de grande refinamento literário. “São gêneros muito diferentes (a poesia e a crônica), mas a nossa crônica moderna deve muito ao que Drummond conseguiu contribuir para a sua consolidação como gênero jornalístico/literário”, afirma.

Incontornável
Wilson Alves-Bezerra tem convicção de que a obra de Drummond é uma espécie de porto de passagem, uma aduana. “O que ele produziu é incontornável para quem se proponha a viver do texto. Os 30 anos de sua morte e as leituras que se renovam indicam isso. Ele segue vivo. É bom que seja assim”, comenta Alves-Bezerra.

Antônio Marcos Vieira Sanseverino diz que, depois de Drummond, praticamente se impõe a necessidade de os novos poetas dialogarem com a sua poesia. “Era preciso considerá-lo para ainda escrever poesia”, ressalta. Sanseverino explica que João Cabral de Melo Neto, por exemplo, se define pela incorporação da pedra e do cotidiano, “mas numa contenção e rigor formais mais acentuados que Drummond”.

Já Ferreira Gullar, salienta o professor da UFRGS, ecoa Drummond em vários poemas. “Os concretos tiveram de se posicionar contra o verso discursivo de Drummond”, observa. E, dando um salto, a poesia dos anos de 1970 não deixa de dialogar com Drummond: “Cacaso e Francisco Alvim atualizam a lírica irônica drummondiana. Adélia Prado e Ana Cristina César parodiam Drummond.” 

Antonio Carlos Secchin já apontou, em mais de uma ocasião, que Drummond foi um “capítulo novo” na história de nossa poesia — de alto nível, mas inserido num movimento de renovação no qual ele se inseriu como a “pedra” mais preciosa. E, entre os outros autores contemporâneos que dialogam com o legado drummondiano, ele cita Armando Freitas Filho e Eucanaã Ferraz.

Alexandre Pilati observa que seria difícil citar algum bom poeta brasileiro que não foi influenciado por Drummond, mas, de todo modo, destaca dois casos que mostram um pouco da dinâmica de nosso sistema literário: Francisco Alvim (“que tem talvez a obra mais consistente da chamada geração da poesia marginal”), e Chico Buarque (“As letras de suas canções seriam outra coisa se nelas não batesse um forte coração drummondiano”).

Ítalo Moriconi aponta para Alcides Villaça, Ana Cristina César, Capinam e o já citado Armando Freitas Filho como vozes que têm em Drummond uma referência básica. Moriconi observa que, levando em consideração o panorama da perspectiva de hoje, é complicado fazer marcações ou periodizações em termos de antes ou depois de um poeta em particular.

De acordo com o estudioso, houve um momento em que a poesia de Drummond parecia sufocar as possibilidades de expressão das novas gerações — sobretudo entre as surgidas nos anos 1960 e 1970. “Drummond é certamente o grande referencial — além dos modernistas em geral — da geração 70 do século passado, da geração marginal e ainda estará presente como referência maior nos anos 1980”, comenta.

Já os poetas que surgiram partir de 1990 até hoje — analisa Moriconi — parecem não sofrer tanto o impacto desse legado. “A obra dele está aí, para quem quiser retomá-la, nela buscando inspiração, exemplos, métodos. Mas ela já não é aquela coisa obrigatória da figura do ‘Grande Pai’”, pondera. No entendimento do professor da UERJ, os poetas e as poetas de hoje vivenciam mais uma irmandade sem pai do que uma cultura verticalizada a partir de monstros sagrados: “No mínimo, há mais monstros sagrados, monstros sagrados particulares digamos assim, objetos de devoção diversificados.” 

Percurso gauche

Drummond

Dia 31 de outubro de 1902, nasce Carlos Drummond de Andrade, em Itabira (MG). 

Em 1919, é expulso do Colégio Anchieta por insubordinação mental. No ano seguinte a família se muda para Belo Horizonte. 

1925 é o ano em que o poeta se casa com Dolores Dutra de Morais e também a data em que se forma no curso superior de Farmácia, mas não exerce a profissão com a finalidade de “preservar a saúde dos outros”. Em 1928, nasce a filha Maria Julieta e ele publica, na Revista de Antropofagia, de São Paulo, o poema “No meio do caminho”.

Estreia na vida editorial em 1930 com o livro Alguma poesia — os 500 exemplares são bancados pelo autor. Em 1934, publica o segundo livro, Brejo das almas, e muda-se com a família para o Rio de Janeiro para trabalhar como chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação e Saúde Pública.

Em 1942, José Olympio passa a publicar o poeta em sua prestigiada e homônima editora. Durante os anos 1940, Drummond colabora em jornais, entre os quais Correio da Manhã e Folha Carioca. Publica Claro enigma, Contos de aprendiz (o poeta também se aventurou pela ficção breve) e A mesa em 1951.

Em 1964, a Aguilar publica a primeira edição de sua Obra completa.

Deixa o Correio da Manhã, em 1969, e passa a escrever nas páginas do Jornal do Brasil.

Em 1972, jornais cariocas, paulistanos, mineiros e gaúchos publicam suplementos especiais celebrando os 70 anos de Drummond.

Recusa o Troféu Juca Pato em 1983
Sofre um infarto e é internado durante 12 dias em 1986.

Em 1987, é homenageado com o enredo “O reino da palavras” pela Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, que vence o Carnaval do Rio de Janeiro. No dia 5 de agosto, morre a sua filha, Julieta — 12 dias depois, o poeta morre em decorrência de problemas cardíacos. 
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