Um Escritor na Biblioteca | Paulo Venturelli

Da Redação

A leitura é uma das atividades que ocupam a maior parte da vida de Paulo Venturelli, 67 anos. Ele comprou um segundo imóvel no prédio onde vive, no bairro Bacacheri, em Curitiba, para abrigar os seus — atualmente — mais de 15 mil livros. Venturelli nasceu em Brusque (SC) e cresceu em uma casa em que não havia livros, o que não foi empecilho para a sua longa trajetória ligada à palavra escrita, à leitura e à criação literária.

Durante a sua participação no projeto Um escritor na Biblioteca, com mediação do jornalista José Carlos Fernandes, Venturelli falou de momentos decisivos de sua trajetória. Como o contato com um professor, o Padre Antoninho, que recomendou ao pequeno Venturelli ler um livro por semana para ser “inteligente na vida”. “Aprendi duas coisas importantes: o valor da leitura e que a inteligência não é algo natural do ser humano. A inteligência se cria. E ela se cria, de forma primordial, por meio da leitura.”

Ventura, como ele é carinhosamente chamado pelos amigos, também comentou o início de sua vida em Curitiba, onde está radicado desde 1974. Inicialmente, frequentava e emprestava livros na Biblioteca Pública do Paraná, até começar a montar sua própria biblioteca — definida por ele como uma defesa contra o mundo. “Na minha biblioteca eu me alimento, escrevo, reescrevo. A minha biblioteca passou a ser o meu planeta.”

Professor nos colégios Sion e Medianeira, ele também lecionou no curso de Letras da Universidade Federal do Paraná (UFPR) até se aposentar, em 2014. É autor da tese de doutorado Literatura e homoerotismo em circuito fechado — Adolfo Caminha e Silviano Santiago, defendida em 2001 na Universidade de São Paulo (USP). A partir desse estudo acadêmico, passou a pesquisar as relações entre literatura e homoerotismo. O tema aparece em alguns de seus 23 livros, entre os quais o romance Madrugada de farpas (2015) e Bilhetes para Wallace, prosa poética prevista para ser publicada ainda no primeiro semestre deste ano.

Venturelli conseguiu ressonância com títulos para crianças, especialmente Visita à baleia (2012) — obra que conquistou o segundo lugar no Prêmio Jabuti na categoria Infantil e foi eleita a melhor daquele ano pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Mas ele diz gostar, mais do que tudo, de um livro de contos que escreveu, Fantasmas de caligem (2006). “Criei uma série de contos nebulosos, não-realistas e impressionistas. É o meu livro preferido, no qual estou mais inteiro. O livro traz contos fronteiriços, em que há personagens que se confrontam com a própria loucura e o próprio descentramento.”

Venturelli

Bibliotecas
A minha primeira relação com uma biblioteca se deu quando eu estava em um colégio interno, em Corupá, Santa Catarina. Naquela época ainda não tinha nenhuma noção do que era literatura ou da própria função da leitura. Então fazia escolhas aleatórias. Mas lembro que nesse período acabei descobrindo Arthur Conan Doyle, autor de Sherlock Holmes, e foi uma paixão imediata. Aquele detetive extremamente inteligente, que de um pequeno detalhe conseguia desvendar todo o labirinto seguido por um assassino, me encantou muito. Eu ficava me imaginando na Inglaterra, com aquele detetive nas noites nebulosas de Londres, seguindo a pista de um assassino. Isso trouxe para minha mente uma natureza de escrita que mais tarde, acho eu, vai florescer num livro que escrevi chamado Fantasmas de Caligem, publicado em 2006.

Contato com a palavra
Meu pai era operário numa tecelagem em Brusque, cidade de Santa Catarina, e naquela época ele ganhava da empresa onde trabalhava uma revista mensal. Na nossa ignorância, chamávamos de Zezinho — mais tarde, soube que não era Zezinho, mais sim Sesinho, porque era uma revista distribuída pelo Sesi. Nela havia histórias, desenhos com aqueles pontos para você complementar e formar uma figura. Havia páginas com desenho para colorir, curiosidades interessantes sobre o mundo, histórias em quadrinhos, etc. Mas a primeira página era sempre igual: havia um desenho em bico de pena de um senhor bem velhinho, com a mão no queixo, barbudo, de óculos. Aquela imagem chamava muito minha atenção. Só que naquela época eu não sabia ler ainda. Um dia eu perguntei para uma amiga um pouquinho mais velha se ela sabia ler. Ela disse que sim. Então pedi que lesse o que estava escrito na primeira página da revisa. E ela começou a ler mais ou menos da seguinte maneira: “Eu sou um velho. Tenho a mão no queixo. Uso óculos. Tenho uma barba”. Eu era analfabeto, mas não era besta. Logo percebi que aquela leitura estava muito artificial, que não podia ser aquilo. Aí eu mandei ela parar e perguntei: “Você sabe ler mesmo?”. Ela falou: “Não”. Ela tentou me engambelar com aquela história, mas não conseguiu. Foi assim a primeira ligação que eu tive com a palavra escrita, aquele encanto com o texto impresso.

Karl May
Nesse início como leitor, acabei descobrindo um outro autor, um alemão chamado Karl May. Ele vivia numa pequeníssima cidade do interior da Alemanha, nunca saiu de lá, mas escrevia incríveis livros de aventura que se passavam no oeste americano ou no Oriente. Eram catataus de 600, 700 páginas, e eu devorava esses livros porque ficava encantado com aquelas aventuras que se passavam em países exóticos. 

Um livro por semana
O momento decisivo, que determinou minha caminhada, teve a participação de um professor, o Padre Antoninho. Quando eu cursava a sexta ou sétima série do ginásio, ele soltou a seguinte frase durante uma aula de português: “Quem quiser ser inteligente na vida, tem que ler pelo menos um livro por semana”. Aquilo foi um raio na minha cabeça, porque aprendi duas coisas importantes: o valor da leitura e que a inteligência não é algo natural do ser humano. A inteligência se cria. E ela se cria, de forma primordial, por meio da leitura. Comecei a seguir isso à risca. Mas esse mesmo professor também dizia: “Quando você terminar de ler um livro, não o devolva para a biblioteca, releia a história para ver como a língua funciona, como é construído um pará- grafo, como é construída a frase, que vocabulário o autor usa”. E eu passava finais de semana, feriados, copiando capítulos de livros, trechos bonitos que eu havia encontrado. Isso foi me dando intimidade com o português, então comecei a perceber a língua como uma massa de modelagem. Não era aquela coisa cimentada que a gramática apresentava para mim, era algo que me propiciava uma série de possibilidades. Comecei a ficar cheio de ideias, cheio de fios que eu podia puxar, até que chegou um momento em que precisei colocar aquelas ideias no papel, comecei a escrever, e nunca mais parei.

Defesa contra o mundo
Eu lembro quando vim para Curitiba estudar Letras. Não tinha nenhuma condição financeira para comprar livros, então vinha a esta biblioteca. Sentava em uma sala que tinha uma mesa grande, nessa ilha de silêncio que é a Biblioteca Pública no meio do tumulto urbano, e lia muitos livros. Lembro que tentei ler Ulysses, do James Joyce, aqui na Biblioteca, mas na época eu não tinha nenhum aparato teórico, nenhum aparato de reflexão para entender a complexidade desse romance, e acabei não indo muito longe. Mas li outros livros, e hoje em dia, na minha própria biblioteca pessoal, prolongo essa experiência de estar diariamente cercado de livros por todos os lados, que é o meu mundo, que é a minha defesa contra o mundo, que é a minha reclusão contra tudo o que está aí. Na minha biblioteca eu me alimento, escrevo, reescrevo. A minha biblioteca passou a ser o meu planeta.

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Apartamento para livros
No Brasil causa espécie alguém como eu, que mantém um apartamento quase que exclusivamente para guardar 15 mil livros. Se fosse num país europeu, creio que isso não propiciaria nenhum espanto, porque lá é muito comum que as pessoas tenham os seus livros em casa. Então, esse espanto das pessoas em relação à minha biblioteca é algo sintomático. Não é comum no Brasil ter isso, infelizmente. Em nosso país é realmente um ponto fora da curva alguém ter livros, alguém investir em livros e, principalmente, investir num apartamento para guardar livros.

Método de leitura
Eu normalmente acompanho os lançamentos de livros por jornais, revistas e pelos newsletter das editoras. Não sou muito de ler resenha, porque a resenha já prepara minha cabeça para a história que vou ler. Não leio nem orelha antes. Tenho um caderno chamado “Livros para aquisição”, onde anoto o título do livro, o autor, a editora, o número de páginas, o preço, etc. Sou um rato de livraria. Vivo indo em livrarias, sebos e, volta e meia, encontro maravilhas. Prefiro passar fome, mas não deixar de comprar livros.

Culpa católica
Minhas raízes estão em Brusque, onde passei a infância. Meu pai acordava às 4h da manhã, e eu escutava o despertador fazer aquela “bimbaiada” de madrugada. Ele se levantava, começava às 5h e trabalhava até as 13h. Isso é uma lembrança muito importante na minha vida. Muitas vezes, sinto uma culpa his- 8 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná tórica por viver uma vida relativamente burguesa, me dar o luxo de ter um apartamento para livros, discos, obras de arte. Na minha cabeça, por mais que eu racionalize isso, vida era aquilo que o meu pai vivia. Isso que eu estou vivendo, toda a trajetória que eu tenho como professor, escritor, palestrante, parece que tudo isso é meio fora de contexto, que para ser verdadeiramente um trabalhador eu deveria ter seguido os caminhos do meu pai, a trajetória que a maioria esmagadora de meus parentes seguiu. O fato de eu ter ido para um seminário católico também foi determinante — seja no sentido positivo, pois ali eu descobri a literatura e comecei a escrever, ou negativo, já que a religião católica é a religião da culpa, do remorso, do desprezo ao corpo e à sexualidade, uma criação medievalesca de tabus e preconceitos. Tudo isso me marcou muito. Claro que ao longo do tempo, com as terapias que fiz, fui me desvincilhando dessas coisas. E muitas vezes procuro escrever um texto, digamos assim, não-ortodoxo, algo que vai contra esses princípios que me modelaram, como uma espécie de uma doce vingança histórica contra tudo aquilo que me reprimiu.

Madrugada de farpas
Nesse romance, publicado em 2015 pela Arte&Letra, procurei fazer um diálogo com o Bom crioulo, do Adolfo Caminha. O livro conta a história de paixão entre dois estudantes de Letras: o Israel, que é o loirinho bonito, burguesinho de Santa Felicidade [bairro de Curitiba], e o Obadiah, que é nordestino, negro e pobre. Quando me propus a escrever, comecei a me perguntar: como é a realidade desses meninos que vivem esse tipo de experiência? Aí me meti pela noite, fui entrevistar 24 meninos, que é um número ícone, e gravei entrevistas com eles, para saber as experiências e coisa e tal, e em cima disso eu tirei alguns subsídios para a escrita do romance.

Pesquisa
O escritor não pode ficar encerrado numa torre de marfim. Esses dias eu estava caminhando com meu cachorro, o Nino, que é um poodle muito fofo, quando me veio a ideia: que tal escrever o diário de uma prostituta? Aí já comecei a maquinar na minha cabeça, fiz umas anotações. Mas, obviamente, se eu chegar a levar esse projeto à frente, vou ter que ir a campo de novo, entrevistar prostitutas, travestis, falar com esse esse povo da noite que vive uma faceta da cidade que muitos não querem ver.

Literatura homoerótica
Meu interesse pelo assunto começou quando eu era estudante e trabalhava em uma empresa à noite, alimentando computadores. Eu morava na Casa do Estudante, perto do Passeio Público, ia com outros amigos para o trabalho e voltávamos de madrugada. Um dia, um amigo me perguntou: “Venturelli, já que você gosta de teatro, de literatura e coisa e tal, me explica uma coisa. Por que todo artista é viado?”. Aquilo fez um eco na minha cabeça. Pensei comigo, isso é uma pergunta no mínimo preconceituosa. Mas fiquei com isso na minha cabeça e decidi que um dia iria estudar o assunto, ver qual é o índice de homossexualidade no meio artístico.

Na universidade
Em 1990, quando entrei na Universidade Federal do Paraná, precisava fazer imediatamente um mestrado. Por coincidência, estava lendo um livro do João Silvério Trevisan, chamado Em nome do desejo, uma história passada em um seminário, sobre dois garotos que se apaixonam. É um romance meio complicado, porque mistifica muito a homossexualidade, meio que sugere que o único amor possível é o que acontece entre pessoas do mesmo sexo. Em lugar de fazer uma dissertação elogiosa, eu fiz uma dissertação que desconstruía o romance — tempos depois fiquei sabendo que o João Silvério Trevisan estava me odiando, me criticando, falando poucas e boas ao meu respeito, mas tudo bem. Como eu havia feito uma pesquisa muito grande a esse respeito, e não havia encontrado ainda uma resposta para aquilo que eu queria, resolvi continuar o doutorado com essa temática. Aí estudei o livro Bom crioulo, de 1885, do Adolfo Caminha, que é o primeiro romance, entre aspas, gay da nossa literatura. Juntamente, estudei um romance de 1985, Stella Manhattan, do Silviano Santigo. Aí usei muito daquela pesquisa que eu já havia feito, aprofundei a pesquisa, mas não cheguei a uma resposta definitiva.

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Fantasmas de caligem
Caligem é o nome desse nevoeiro presente em Curitiba. A partir disso, criei uma série de contos nebulosos, não -realistas e impressionistas. É o meu livro preferido, no qual estou mais inteiro. O livro traz contos fronteiriços, em que há personagens que se confrontam com a própria loucura e o próprio descentramento. Foi publicado pela Travessa dos Editores, mas infelizmente não foi distribuído. Acho que se esse livro tivesse sido distribuído a contento, ele e eu teríamos tido alguma ressonância em âmbito nacional por causa do estranhamento da obra. A literatura brasileira contemporânea anda muito realista, muito naturalista e quase se confunde com jornalismo. Os escritores brasileiros, em sua maioria, exploram as realidades torpes do cotidiano, tudo o que a gente já conhece da televisão e do jornal. Também falta muita criatividade de linguagem e de temática em grande parte das obras literárias brasileiras. Já em Fantasmas de caligem, procuro quebrar esse círculo vicioso trabalhando com temas que não são corriqueiros, muito menos aprazíveis e em muitos casos absurdos.

Bilhetes para Wallace
Bilhetes para Wallace é um livro de poemas em prosa que a Kotter Editorial, selo aqui de Curitiba, publica ainda neste ano. É uma obra homoerótica. Um personagem perdeu o seu companheiro e, para não ficar sozinho num sá- bado à noite, busca um acompanhante na internet — o acompanhante se chama Wallace. Essa relação é breve, mas intensa. O garoto de programa acaba marcando muito a existência desse personagem, que escreve bilhetes para esse Wallace, que na realidade são os poemas do livro. Trata-se de um registro densamente erótico, mas que extrapola o homoerotismo. Tem a ver com o erotismo humano, independentemente de rótulos. Tem a ver com a perda, com o desejo, com o corpo e com a saudade.

Leitor 24 horas por dia
O autor só é autor se for um exímio leitor. Eu sou um leitor 24 horas por dia, mesmo quando eu não estou lendo, estou lendo. Mesmo quando não estou escrevendo, estou escrevendo. Estou de butuca em tudo. Assisto a um pouco de televisão, gosto muito de filme, de música e de pintura. Uma cena, uma melodia ou uma imagem podem me levar à escrita. Toda manhã, a primeira coisa que faço é ler poemas. Nesses poemas, um verso, uma imagem ou uma palavra pode detonar o processo criador na minha cabeça e, então, eu escrevo. Quando estou lendo um livro muito ruim, me pergunto: “Por que eu estou perdendo meu tempo lendo essa porcaria, quando há tanta coisa boa pra ler?”. Mas vou até o fim. Por outro lado, quando leio um livro excelente, maravilhoso, fantástico, penso: “Por que não fui eu que tive essa ideia?”. Morro de dor de cotovelo, mas me apaixono pelo autor e pelo livro. O maior escritor brasileiro contemporâneo acabou de morrer: é o João Gilberto Noll. Trata-se de um escritor de primeiríssima grandeza que morreu praticamente esquecido em Porto Alegre. Não houve nenhuma homenagem, nem matéria no Jornal Nacional. Mas se o Neymar machucar o dedinho do pé esquerdo durante um treino, daí é destaque no Jornal Nacional. Nada contra o Neymar, adoro aquele bichinho jogando porque também sou apaixonado por futebol. Mas o João Gilberto Noll, um escritor que rompe com tudo, merecia mais destaque, não só na morte, mas ainda em vida. Ele rompe inclusive com o conceito de leitura. Você não pode ler um livro do Noll de uma forma tradicional. Ele quebra com a figuração do personagem, do enredo e das ações. O Noll morreu, já foi enterrado. Tomara que a obra dele fique. Eu estava esperando por um novo livro dele, que não veio. O que chegou foi a morte, o que não é algo muito novo.
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