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Ensaio | Sátira

Antídoto para a realidade

Gênero praticado por autores clássicos como Laurence Sterne, a sátira transcendeu o campo literário e se tornou um instrumento contra a radicalização dos discursos neste início de século XXI


Christian Schwartz

Há épocas mais interessantes que outras. Guerras, revoluções, convulsão social: boa literatura pode surgir daí — o “breve século XX”, na expressão do historiador britânico Eric Hobsbawm, foi sobretudo um século sangrento. Mas teve seus momentos de modorra: por exemplo, o pós-Segunda Guerra americano, um oásis de prosperidade — tanto material quanto moral — para os vencedores do conflito, praticamente intocados em seu território e líderes incontestes da salvação da Europa e do mundo. No entanto, a monotonia de subúrbios arrumadinhos, famílias exemplares e bens de consumo abundantes e ao alcance de quase todos gerou, entre outras manifestações da chamada contracultura, a literatura beat de autores como Kerouac e Burroughs.

Neste início de século XXI, enquanto deixa definitivamente para trás o marasmo da prosperidade (e a ilusão desvairada do “fim da História”), a mesma América volta a ser o epicentro de manifestações artísticas e intelectuais em reação direta à mudança de ventos na política e na sociedade em geral. Como em outras passagens históricas cuja tônica foi a da radicalização dos discursos, é a oportunidade perfeita para a entrada em cena de um gênero literário bastante peculiar: a sátira. Conforme apontou em texto recente um talentoso adepto desse tipo de romance, o inglês Jonathan Coe: “O momento clama por absurdo, caricatura e avacalhação, pois são essas as únicas formas de capturar a realidade atual — [de encontrar] a tão necessitada clareza moral nessa hora, uma imagem de cartum que sirva de atalho, imediato e sem rodeios, para a verdade”.

SterneSwift
Jonathan Swift (1667-1745) e Laurence Sterne (1713-1768).

Sterne e Swift
De fato, 2017 teria ainda outros bons motivos — afora a histriônica elevação de Donald Trump ao trono de homem mais poderoso do planeta — para ser considerado o ano da sátira. Nas ilhas britânicas, berço moderno do gênero, duas efemérides literárias celebram autores e obras satíricos: primeiro, os 250 anos da data em que se concluiu, em 1767, a publicação em volumes do Tristam Shandy, de Laurence Sterne (clássico disponível no Brasil na tradução não menos clássica de José Paulo Paes para a Companhia das Letras); e, mais para o fim do ano, em 30 de novembro, os 350 anos de nascimento, em Dublin, de Jonathan Swift, outro autor satírico de primeira hora e grandeza — bastaria lembrar suas Viagens de Gulliver (aqui também o leitor brasileiro conta com uma tradução excelente, a de Paulo Henriques Britto para a Penguin Companhia).

Mas certamente também entram nessa lista gerações mais recentes de escritores satíricos, como a de Alan Benett (Uma real leitora, Record) e David Lodge (esparsamente publicado no Brasil, mas vale a pena o esforço de ler no original sua The Campus Trilogy, abordagem hilária de outro tipo de poder: o do estabishment acadêmico), ambos já na casa dos 80 anos; ou a leva de autores hoje com seus 50 e tantos, entre os quais o já citado Jonathan Coe — de O legado da família Winshaw, Record, melhor sátira da guinada à direita anterior à atual, nos anos 1980, e mais recentemente de um romance divertidamente antecipatório do horror que assola esta Era Trump, Number 11, por enquanto sem tradução para o português. Por fim, ainda na Inglaterra, em 2016 o Booker Prize, principal prêmio literário de língua inglesa, foi concedido a um romance que satiriza sem piedade as relações raciais nos Estados Unidos, The sell-out (também aguardando tradução), de Paul Beatty — primeiro americano na história a levar o Booker, muito sintomaticamente.

Discurso político
Sim, nossa época, como outras cuja tônica pode ter sido a da violência em massa ou da modorra transformada em revolução de costumes, quem sabe não fosse a da invasão da realidade pelo surrealismo — uma divertida epopeia do absurdo, da caricatura e da avacalhação, como pede Coe. Seriam tempos, a seu modo, interessantes (para lembrar outra expressão de Hobsbawm, usada para definir como ele, pessoalmente, viveu — e contou na autobiografia de mesmo título — o século passado). Mas alguma coisa parece estar mudando na própria natureza da sátira como discurso público, conforme notou recentemente a ensaísta Emily Nussbaum, da revista New Yorker: “A comédia podia ser um negócio cruel ou idiota, mas, no geral, era uma declaração de rebeldia. Só que em 2016 a roda de repente passou a girar no sentido contrário: agora era o valentão neofascista quem tinha o microfone na mão e um exército de anônimos divulgadores de piadas de mau gosto que o ajudaram a ser eleito”.

Coe
Adepto da sátira, o inglês Jonathan Coe diz que “O momento clama por absurdo, caricatura e avacalhação, pois são essas as únicas formas de capturar a realidade atual”.

Quem precisa de comediantes? 
No texto, apropriadamente intitulado “Como piadas ganharam a eleição”, Nussbaum repassa tudo aquilo a que temos assistido atônitos ultimamente — e a conclusão não é nada animadora para quem ainda acredita no potencial subversivo da expressão artística, especialmente a que faz rir dos poderosos: “[Na recente eleição americana] Anúncios ganhavam cara de notícia, assim como peças de propaganda política, assim como números de comédia propriamente ditos, tanto no campo da direita quanto no da esquerda — e qualquer combinação desses quatro elementos [notícias falsas, anúncios, propaganda política e comédia] acabou rotulada como ‘sátira’”.

Esse estado de coisas foi o que levou Coe, novamente, a constatar: “O problema de quem faz sátira hoje, porém — e eu mesmo, como um praticante ocasional do gênero, sinto isso de forma aguda — é, para começo de conversa, ter de competir com a realidade”. Provavelmente sem saber, o romancista inglês entoava um velho bordão conhecido do distinto público (para não falar do eleitorado) brasileiro: com esses nossos políticos, quem precisa de comediantes?; ou, conforme o velho clichê, o Brasil seria o tal país da piada pronta. Coe, aqui expressando uma preocupação artística, embora pudesse perfeitamente estar falando da estupefação do cidadão comum, termina por perguntar: “O que ainda resta ao escritor satírico?”

Escolados que somos nessa confusão entre a dura realidade e o absurdo cômico, talvez tenhamos justamente entre nós, no Brasil, um dos grandes expoentes da sátira em todos os tempos, morto há quase um século: Lima Barreto. Uma amostra saborosa dessa vertente da produção do autor de Triste fim de Policarpo Quaresma aparece numa coletânea lançada no ano passado, Sátiras & outras subversões (Penguin Companhia) — textos até então inéditos, muitos publicados sob pseudônimo em jornais e revistas cariocas do início do século XX. Sobre sua própria militância na sátira, Lima Barreto escreveu, epigramaticamente: “O ridículo mata e mata sem sangue” (leia um dos textos satíricos do autor na página 36).

Organizador do volume de inéditos de Lima, Felipe Botelho Corrêa, pesquisador brasileiro radicado em Londres, é quem explica, em texto para esta edição do Cândido (leia na página 14): “Matar pelo ridículo, sem sangue, somente pela sagacidade, era uma maneira de sensibilizar a sociedade de sua época sobre certos aspectos que, segundo Lima Barreto, os fatos por si sós não podiam comunicar”, comenta o professor sobre o epigrama de Lima. “A sátira, nesse sentido barretiano, é um engajamento com o contexto ao redor através de uma perspectiva ou de um comentário que forneçam uma interpretação para o leitor.”

Lodge
David Lodge é autor de The campus trilogy, abordagem hilária do estabishment acadêmico.

Riso sectário
Pois falando de interpretação, jamais um fenômeno trivial, é que voltamos ao dilema atual da sátira — na verdade, recorrendo ainda a Jonathan Coe, um dilema permanente, apenas potencializado pelo estranho tempo em que vivemos: “Um dos eternos paradoxos da sátira é só proporcionar prazer àqueles que de antemão compartilham dos mesmos pontos de vista”. Quem quer que, imprudentemente, tenha se engajado na prática amadora da sátira em alguma rede social, ainda que apenas para compartilhar aquele tuíte ou post espirituoso, sabe bem o quanto o riso atualmente se tornou, mais do que partidário, sectário — e, no limite, censurado pelo delírio coletivo do politicamente correto.

Para voltar uma última vez ao autor de O legado da família Winshaw e Number 11: “E se isso significar que caminhamos para o fim da era do humor? Difícil pensar em algo mais desastroso”. É do próprio Coe, porém, que se pode angariar alguma esperança. A entrevista que concedeu ao autor deste texto já tem quase uma década, mas algumas frases inspiradas ditas ali, e por um dos grandes da literatura satírica contemporânea, bem podem servir de farol para um tempo que se anuncia sombrio, para não dizer simplesmente sem graça.

“Escrever um romance sério (o que inclui, evidentemente, bons romances cômicos) é um ato político, na medida em que é uma tentativa de criar um lugar temporário onde o sujeito individual pode pensar e imaginar livremente”, refletia Coe, para então concluir, luminoso: “A única responsabilidade de um romancista — e uma responsabilidade muito grande — é a de ampliar a capacidade de imaginação dos leitores. Essa é minha noção do papel político de um escritor, no dias de hoje”.


Christian Schwartz nasceu em Curitiba (PR), em 1975. Estudou língua e literatura francesas na Universidade Paris IV (Sorbonne), na França, e cursou pós-graduação em literatura na University of Central England (UCE), em Birmingham, etapa de sua formação concluída na UFPR com um mestrado em Estudos Literários. Traduziu autores como Jonathan Coe, Nick Hornby, Philip Roth e Nathaniel Hawthorne. Schwartz atualmente vive na Inglaterra.
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