Artigo | Felipe Botelho Corrêa

Matar pelo ridículo, sem sangue

O professor Felipe Botelho Corrêa explica como Lima Barreto se valeu da sátira para contestar os valores de sua época. O pesquisador da King’s College London reuniu 164 textos do autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha no volume Sátiras & outras subversões, material originalmente publicado em periódicos e até então inédito em livro

Foto: Reprodução
Lima Barreto

Desde o princípio de sua carreira como escritor, Lima Barreto optou por produzir uma literatura subversiva que é, em grande parte, de base satírica. A sátira para ele tinha a potência de ser combativa, revolucionária e mortal no âmbito das ideias e das prática daquele começo de século XX. Em um de seus textos para a revista Careta, ele afirma:

A troça é a maior arma de que nós podemos dispor e sempre que a
pudermos empregar é bom e é útil.
Nada de violências, nem barbaridades. Troça e simplesmente troça,
para que tudo caia pelo ridículo. 
O ridículo mata e mata sem sangue. 
É o que aconselho aos revolucionários de todo o jaez. [...]
Assim é que todos devemos fazer.
Troça, troças, sempre troças.

Já é bastante conhecida a faceta da obra de Lima Barreto que fazia uso de recursos estéticos do realismo, como nos momentos em que expressa simpatia por camadas sociais desfavorecidas que pouco apareciam na literatura que ficou conhecida como “sorriso da sociedade”, na expressão de Afrânio Peixoto — literatura essa que prevalecia na época e que Lima Barreto tentava subverter a todo custo. Sua constante intervenção literária tinha, contudo, uma outra face, aquela da antipatia e do combate que fazia uso da sátira para ridicularizar os seus alvos.
Matar pelo ridículo, sem sangue, somente pela sagacidade, era uma maneira de sensibilizar a sociedade de sua época sobre certos aspectos que, segundo Lima Barreto, os fatos por si sós não podiam comunicar. A sátira, nesse sentido barretiano, é um engajamento com o contexto ao redor através de uma perspectiva ou de um comentário que forneçam uma interpretação para o leitor. É por isso que a caricatura para ele tem mais potência que a evidência fotográfica: para Lima Barreto, a caricatura, como elemento satírico, fornece mais ferramentas de intervenção subversiva tanto através de imagens como através de textos, como era o seu caso.

O sentido de subversão ao qual aqui nos referimos é aquele da tentativa de transformar a ordem social estabelecida e suas estruturas de poder, autoridade e hierarquia, revertendo ou contradizendo os valores correntes. No âmbito da obra de Lima Barreto publicada em revistas populares, o ímpeto subversivo aparece tanto na sátira, que é elemento predominante, como em outras estratégias, como a já mencionada simpatia pelas camadas mais baixas da sociedade, além da crítica política contundente, dos comentários sociais que nadavam contra a corrente e de uma literatura que se fazia e se queria deliberadamente popular e acessível.

Lima Barreto fez de sua obra um constante esforço de atuação pública, uma voz que buscava ser escutada não somente nos círculos acadêmicos e literários de sua época, mas também, e principalmente, fora deles. Seu ideal era o de contagiar seus leitores através de uma voz dissonante em relação aos ideais de uma suposta “belle époque” naquele começo de século. Para ele, a literatura tinha a missão de sensibilizar os diferentes atores sociais em busca de um sentimento de solidariedade mútuo, que se traduziria num projeto de sociedade que levasse em conta o processo histórico do Brasil, sua condição pós-colonial e o contexto das primeiras décadas após a abolição da escravidão e da proclamação da República.

Essa complexa obra, marcada por um profundo comprometimento com a vida pública do país através de sua capital, tornou-se um marco não só para quem estuda o início do período republicano, mas para qualquer um que tenha interesse em entender o Brasil. Trata-se hoje de uma importante referência de pensamento crítico sobre a sociedade do começo do século XX e suas reminiscências. Seus textos são estudos, ainda que muitas vezes em formas breves, que convidam o leitor a pensar sobre as condições históricas da sociedade brasileira.


Felipe Botelho Corrêa é doutor pela Universidade de Oxford, pesquisador e professor no King’s College London. Organizou Sátiras & outras subversões (Penguin Companhia, 2016). Vive em Londres.
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