Especial | Mar paraguayo

O magnífico portunhol de Wilson Bueno

O escritor paranaense publicou há 25 anos Mar paraguayo, híbrido literário que mistura português, espanhol e guarani. Texto admirado por estudiosos e escritores, esgotado no Brasil, o livro será publicado neste ano na França e nos Estados Unidos


Marcio Renato dos Santos

BrasilEUA
Capa da primeira de edição de Mar paraguayo, de 1992 e imagem de Vida Simon, ainda provisória, da edição norte-americana do livro de Bueno, prevista para ser publicada ainda em 2017.

No Brasil, Mar paraguayo, de Wilson Bueno [1949-2010], segue esgotado e sem previsão de relançamento, disponível para leitura em bibliotecas. Mas no exterior estão previstas duas edições da obra ainda em 2017, uma tradução viabilizada pela Nightboat Books de Nova York, nos Estados Unidos, e uma reedição fac-similar de apenas 50 exemplares na França.

A primeira edição do livro foi publicada, em 1992, por meio de uma parceria da Iluminuras com a Secretaria de Estado da Cultura do Paraná. Em 2001, o livro saiu no Chile pela Intemperie. Em 2005, o selo argentino Tsé-Tsé publicou outra edição e, no ano seguinte, a obra foi editada no México por iniciativa da Bonobos. A versão que sai nos Estados Unidos é de autoria da poeta canadense Erín Moure, que traduziu o portunhol de Bueno para o “francinglish”, mistura de francês e inglês, enquanto o guarani foi vertido para uma língua falada por esquimós.

A obra traz um relato em primeira pessoa no qual a narradora, a marafona [prostituta ou boneca sem rosto] de Guaratuba, cidade do litoral paranaense, conta a sua própria história e faz reflexões sobre o sentido da vida e a passagem do tempo.

Simples?

Talvez. A protagonista vive com um idoso e também é atormentada pela paixão que sente por um jovem. Há nuances de romance policial, uma vez que durante a narração o idoso pode estar morto e, ao que as linhas e entrelinhas sugerem, a narradora tece o seu discurso como uma espécie de defesa para uma possível acusação de assassinato que possa ser feita contra ela.

Se o enredo parece [e apenas aparenta] ser simplório ou pelo menos não muito surpreendente, a estratégia narrativa é o grande diferencial desta obra. O professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Antonio R. Esteves explica que Mar paraguayo se constrói numa espécie de entre-lugar, numa zona de fronteira cultural e linguística. Afinal, mistura gêneros: romance, novela e poesia. Também funde linguagens: escrita, oralidade, alta cultura e cultura popular. Mais que tudo, mistura línguas: português, espanhol e portunhol.

Tudo isso, acrescenta Esteves, salpicado de palavras em guarani, a língua ancestral americana que teima em sobreviver no interior da América do Sul, mesmo depois de cinco séculos de opressão política e cultural dos colonizadores, espanhóis e portugueses, paraguaios e brasileiros.

Mar paraguayo não está escrito nem em português, nem em espanhol, nem em guarani. O portunhol como língua não existe apesar de ser muito presente”, diz o estudioso da Unesp. De acordo com ele, o livro de Bueno apresenta uma mistura de português com o espanhol falado por qualquer falante de português em ambiente hispânico ou vice e versa. Esteves salienta que tal linguagem não é uma língua fixa, mas flutua como a mistura: “Não tem normas fixas. Elas vão mudando de acordo com a necessidade de comunicação”.

Esteves observa que a mistura do português e do espanhol sempre existiu — seja nas regiões de fronteira entre essas duas línguas, na boca de imigrantes e mesmo nas salas de aulas que ensinam português para falantes de espanhol ou espanhol para falantes de português. “No entanto, como linguagem literária, inventada, eu creio que o Wilson Bueno foi pioneiro”, afirma o especialista da Unesp.

O poeta Douglas Diegues, leitor, divulgador e entusiasta da obra de Bueno, acrescenta que alguns textos dos séculos XI, XII e XIII podem vir a ser lidos como “proto-portunholes”. Diegues aponta a uruguaia Juana de Ibarbourou, autora da novela Chico Carlo (1944), como a primeira voz literária a escrever uma obra com fragmentos em portunhol. Segundo ele, Wilson Bueno seria o primeiro autor a publicar uma novela escrita em portunhol selvagem utilizando as língua da tríplice fronteira, o português, o espanhol e o guarani. Foi Diegues quem inventou o conceito de portunhol selvagem, com a finalidade, segundo ele, de dinamitar a ideia de um único portunhol, abrindo espaço para a existência de incalculáveis “portunholes selvagens”.

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Mar paraguayo foi publicado na Argentina (Tsé-Tsé), no México (Bonobos) e no Chile (Intemperie).

O inventa-língua
O poeta, tradutor e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Sérgio Medeiros faz questão de afirmar que o portunhol literário foi inventado por Wilson Bueno. Em Mar paraguayo, ressalta o estudioso, Bueno não usa arbitrariamente as línguas que mistura, mas realiza uma escolha criteriosa que remete à história íntima da protagonista, a marafona, “uma boneca de trapos”.

“A linguagem dela é colorida, é um ‘traje regional’, composta de restos deixados pelo mar da memória num balneário suburbano (um cabaré). A narradora recolhe um vocabulário flutuante (retira-o do mar da memória) e com ele descreve as aventuras de uma boneca enganadora, cujo discurso mostra que esses trapos estão bem amarrados, bem compostos. Isso é o portunhol na sua melhor performance”, analisa.

Para exemplificar o que diz, Medeiros menciona um fragmento de Mar paraguayo: “andirá, oh, ni quiera saber quer tontos, andirá, los oídos incapazes siquiera para escuchar, andirá, el sonido cambiable y modular de los morcegos que se avizinam, mensageiros, morciélagos”.

O especialista explica que a frase que fala de voos e sons, de mensagens que chegam em três línguas. Ele define a frase como bonita e, sobretudo, muito esperta. “A distribuição do termo ‘andirá’, que é morcego e morciélago, recria os voos linguísticos que Wilson queria fazer na noite da memória, ou no cabaré da memória, para captar a alma da boneca (travesti) do balneário paranaense”, teoriza.

Medeiros observa ainda que, em Mar paraguayo, não existe um personagem humano — o que há, ele salienta, é uma marafona, uma boneca do “mar”, uma estrutura envolta em ondas de trapos. “O mar paraguaio é um modo de falar do mar, de qualquer mar. O Bueno escolheu o portunhol literário para falar do mar, das ondas coloridas que compõem as vestes da boneca”, diz o professor da UFSC.

Diálogos & tanto mar
Antonio R Esteves salienta que o tecido narrativo de Mar paraguayo é rico não apenas pelos diálogos culturais que traça ou pelas reflexões filosóficas que apresenta. De um modo indireto, argumenta Esteves, Bueno faz um passeio que envolve a construção da identidade do brasileiro e do latino-americano e também dialoga com obras que discutem a construção dessa identidade, especialmente na literatura brasileira.

O primeiro diálogo de Bueno em Mar paraguayo é, na interpretação de Esteves, com José de Alencar, que traz a cultura tupi para o centro da sua obra, embora com as limitações de seu tempo. “Vários elementos do romance Iracema, de Alencar, foram trazidos por Bueno para seu romance onde são lidos de modo dialógico. Basta que se diga que Alencar é um dos primeiros autores a usar a língua e a cultura tupi nesse romance, que também tem uma mulher indígena como protagonista”, diz, ponderando que as escolhas narrativas de Alencar, de acordo com a estética romântica, são menos ousadas do que as de Bueno.

O professor da Unesp analisa que o segundo momento da literatura brasileira presente nas páginas de Mar paraguayo é o com Macunaíma, de Mário de Andrade. “Da mesma forma que o herói de Mário nasceu lá no fundo da mata virgem, ou seja, num mundo primitivo, a protagonista de Bueno, também nasce ‘al fondo del fondo del fondo de mi país’”.

Em determinado momento de Mar paraguayo, observa Esteves, a marafona, referindo-se ao menino, diz: “lo abra- çaria hecho asi una madre grande y imensa madona macunaí- ma, índia, pajé, tupã…”. Ao identificar-se como uma “madona macunaima”, reitera-se não apenas a ambiguidade genérica da protagonista, “mas principalmente faz-se uma referência explícita à obra máxima de Mário de Andrade”, argumenta.

Esteves ainda aponta para o diálogo que Bueno estabelece com Guimarães Rosa, de várias formas, diretas e indiretas. De acordo com o especialista da Unesp, o mais evidente, embora seja de modo diferente, é a forma de narrar por meio de um imenso monólogo “mar”, que se espraia por todos os lados. Um narrador, em primeira pessoa, pertencendo ao mundo da oralidade, conta uma história a um narrador culto — que será o responsável por registrar o relato de forma escrita.

O pesquisador lembra que em Grande sertão: veredas há Riobaldo, o narrador que conta sua história, plena de reflexões filosóficas e dúvidas ontológicas, a um doutor, homem culto, encarregado de fazer uma espécie de tradução desse discurso-rio ao mundo da escrita. “O mesmo ocorre em Mar paraguayo, onde a marafona tem como interlocutor o Doutor Paiva. Da mesma forma que um dos temas da obra máxima de Rosa é a existência ou não do diabo e do inferno, o mesmo ocorre em Mar paraguayo, que dedica boa parte do relato em discutir o que é o inferno e qual a diferença entre o inferno e o mundo em que se vive”, explica.

Esteves acrescenta que as referências tanto a Guimarães Rosa em si como a sua obra são recorrentes na produção de Bueno. Não apenas em Mar paraguayo, mas também em outras obras, especialmente no romance Meu tio Roseno, a cavalo (2000), que dialoga, desde o título, com várias obras de Guimarães Rosa, incluindo o relato “Meu tio o Iauaretê” (1961), no qual Rosa também se utiliza da mistura de línguas com forte presença do tupi. 

Wilson Bueno
Wilson Bueno em um evento em homenagem à personagem Alice, criada por Lewis Carroll, 
em São Paulo em 2010.

Mestre em disfarces
No final dos anos 1990, Carlos Henrique Schroeder participava de um grupo em que os integrantes trocavam livros e promoviam saraus em bares do Balneário Camboriú (SC). Foi naquele contexto que conheceu Mar paraguayo. “Eu vivia numa confluência de linguagens, pois trabalhava na recepção de um hotel em uma cidade turística, que recebia paraguaios, argentinos, chilenos. Tinha contato diário com o guarani e o espanhol”, conta o autor dos romances As fantasias eletivas (2014) e História da chuva (2015).

O impacto da leitura foi instantâneo e, 20 anos após conhecer o texto, Schroeder segue com a percepção de Mar paraguayo é a obra mais importante de Bueno, inclusive pelo fato de ter provocado uma verdadeira ruptura na literatura brasileira — Sérgio Medeiros também afirma que a narrativa é a obra mais relevante de Bueno.

Em sintonia com o ponto de vista de Schroeder e com a afirmação de Medeiros, Douglas Diegues diz que depois da publicação de Mar paraguayo — sem esquecer a existência do conto Meu tio o Iauaretê (1961), de Guimarães Rosa e o livro experimental Galáxias (1984), de Haroldo de Galáxias — a literatura brasileira pôde, enfim, ser escrita também a partir da mescla de línguas e não apenas unicamente em português.

Levando em consideração o fato de que Fernando Pessoa denominou o padre Antônio Viera de o “imperador da língua portuguesa”, Douglas Diegues teve uma ideia. Durante um evento literário realizado há alguns anos em São Paulo, ele e o pintor cartonero El domador de Jacarés passaram a chamar Wilson Bueno de o “imperador do portunhol selvagem”.

“Fizemos isso para que o portunhol selvagem também tivesse o seu padre Antônio Vieira, um precursor de talento verbal exuberante”, explica.

Antonio R Esteves acompanha a repercussão de Mar paraguayo durante esses 25 anos e avalia que o livro é um monumento esfíngico que se levantou, desafiando a ser entendido e interpretado. “A obra, desde que foi publicada, também teve um papel histórico e político. Além do fato de ser um monumento experimental, era um manifesto político que pretendia discutir, no âmbito da globalização que estendia suas garras sobre a cultura dos países do terceiro mundo, o papel das culturas periféricas e da própria periferia dessas periferias”, acrescenta o professor da Unesp.

Sérgio Medeiros analisa que é difícil apontar quais autores contemporâneos são influenciados por Mar paraguayo, mas tem a impressão de que há muitos escritores, no Brasil e nos países vizinhos mais próximos, que estão seguindo a trilha aberta por Wilson Bueno. “O seu portunhol é o mais elegante de todos”, afirma.

“A boneca de pano tem charme, atrai a atenção: seu charme não é nada discreto. É potente, enfeitiçador”, acrescenta o professor da UFSC. Então, continua Medeiros, “também devem ter surgidos imitadores por aí, mas talvez estejam apenas reproduzindo o portunhol falado, não sei.”

Medeiros compara a marafona de Bueno a uma personagem de Lewis Carrol, a tartaruga falsa. Na Ingla - terra, na época de Carroll, a sopa de tartaruga era feita com cabeça de novilho. Não tinha tartaruga na sopa. “Era falsa, ‘fake’.” Para o especialista, o mesmo acontece na “sopa” do Bueno: “A cabeça da marafona, da boneca, é na verdade a cabeça do boneco... O Wilson era mestre em trabalhar o ‘fake’, o ‘falso’, nas imagens e na linguagem”.
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