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Biografia | Luiz Manfredini

O assombro da fotografia

O escritor paranaense Luiz Manfredini prepara a biografia romanceada de Wilson Bueno, seu amigo de infância e adolescência, com o qual construiu, no início dos anos 1960, as fundações da trajetória jornalística e literária que ambos cumpririam nas décadas seguintes. O Cândido publica um capítulo do livro

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Imagem feita na rua Augusto Stellfeld, em Curitiba. Da esquerda para a direita: Renato Campos Romchi, Luiz Manfredini e os irmãos Nilson e Wilson Bueno.

Por volta das sete e meia da noite de 31 de maio de 2010 recebi um telefonema anunciando a morte de Wilson Bueno. Sem mesmo me dar conta, logo me vi conduzido à foto afixada num painel do escritório. A foto dos amigos da Rua Augusto Stellfeld: Renato Campos Ronchi, eu e os irmãos Nilson e Wilson Bueno, o Vilso como o chamávamos. 

Ali, aos dez, onze anos de idade, compenetrados na pose para o fotógrafo, meninos magricelas ao lado das suas bicicletas, vestindo camisas dos times e pés descalços, diante da casa de duas moradas em que se alojavam as famílias de Renato, de um lado, e de Wilson e Nilson, de outro. Na de Renato, nos amontoávamos todos os finais de tarde, início de noite, para o encantamento do televisor que nos mostrava filmes de faroeste em preto e branco e imagens salpicadas de chuviscos.

Na foto descorada, os que não são mais meninos e já nem são vivos, pois daquele miúdo grupo apenas eu sobrevivia. Renato, recém-formado engenheiro florestal, foi vítima de um conflito de terras no Amazonas e assassinado com vinte e poucos anos. Nilson, morto faziam sete anos de um câncer devastador. E agora, Wilson. Senti-me perdidamente solidário naquela foto de antigamente, dos velhos amigos, carregando apenas o peso da memória e da saudade.

Tempos atrás, talvez dois anos antes de sua morte, eu havia pensado em propor ao Wilson que nos sentássemos para conversar sobre nossa infância e adolescência, sobre o que havíamos feito na vida depois disso. Mas não propus, fui adiando. E agora não seria mais possível.

Tivéssemos realizado a conversa, eu me lembraria se quando minha família e eu nos mudamos para o bangalô 1284 da Rua Augusto Stellfeld, o Wilson e sua família já estavam na casa do outro lado da rua, a de número 1283, uma casa de duas moradas daquelas típicas da época, a frente em alvenaria e o restante em madeira. 

Também me lembraria de como nos conhecemos e como nos tornamos, um o melhor amigo do outro, naqueles anos de formação, entre o final da infância e o início da adolescência, de 1958 a 1966. Certamente foram os livros, embora não me recorde exatamente de como isso aconteceu. Passamos a trocar livros e a emprestá-los na Biblioteca Pública. E a devorá-los com uma compulsão incompatível para nossa tenra idade. 

Passamos também a escrever, primeiro à mão, em cadernos escolares e canetas tinteiro, logo em máquinas de datilografia que alugávamos numa loja na Praça Tiradentes, aquelas Remingtons pretas, antiquíssimas, enormes e pesadas, que mal cabiam no abraço dos meninos, mirrados ambos. Até hoje não sei como conseguíamos levá-las da loja até em casa, mais de dez quadras, a pé. 

Lá pelos 13, 14 anos, já fumávamos. Passeávamos, fumando, pelas redondezas. Era o velho Continental sem filtro que nos enchia de fumaça, prazer e o irrecusável charme do labor intelectual. 

Encontrávamo-nos quase todos os dias e nossa conversa passou a girar em torno da literatura, do ofício de escritor que desejávamos ser. Era uma pulsão que explodia em nossa adolescência.

Logo passamos a realizar nossos longos encontros na casinha de dois cômodos que havia nos fundos da minha casa, antiga moradia de um relojoeiro. Mas ali — sacrifício — não fumávamos por temor aos pais, sempre vigilantes. Quando, no entanto, a abstinência revelava-se insuportável, saíamos para o quintal que dava para a floresta do vizinho e onde a fumaça facilmente se dispersava. Ali tratávamos do nosso futuro.

Por essa época, início dos anos 1960, eu estudava no Colégio Militar de Curitiba (CMC) e Wilson no Colégio Estadual Rio Branco (CERB). Nunca, porém, conversamos sobre matérias escolares.

Aos dez anos meus, onze dele, produzimos um jornal, O Rui Barbosa, homenagem ao jurista baiano que eu tanto admirava, e conseguimos que a Biblioteca Pública do Paraná o imprimisse em mimeógrafo a tinta e papel jornal. Duas folhas, quatro páginas. Se eu houvesse realizado aquela pretendida gravação com o Wilson, talvez pudesse lembrar ao menos de parte do seu conteúdo. O que me resta na memória não passa de uma visão entorpecida da feição do jornal. O amarelado do papel jornal, o negro algumas vezes falho das letras. Devia conter escritos meus e dele e alguma consideração sobre a juventude, “o futuro do Brasil”, como aprendíamos na escola. Tampouco me recordo de onde e como foi distribuído, ou se foi. Mas durou apenas o primeiro número. Por quê? Não sei. Arrisco-me a afirmar que a sofreguidão com que absorvíamos a vida e tentávamos construir o futuro era incompatível com a permanência numa só atividade. Pulávamos de galho em galho — e sempre adiante — da vida recém iniciada. 

Em 1963, carreguei o Wilson para a fundação do Centro Juvenil de Letras de Curitiba. E o apresentei a meu amigo de escola César Ribeiro da Fonseca.

Wilson não teve participação efetiva no Centro — era assim que chamávamos, na intimidade, nossa cara instituição literária. Andava então mais propenso às leituras e à escrita do que alguma espécie de associativismo. Não faziam, portanto, seu gênero, aquelas sessões solenes que volta e meia realizávamos na sede do Centro de Letras do Paraná, e que chamávamos de líteromusicais, quando reuníamos meia dúzia de jovens e uma batelada de velhos escritores provincianos e poetisas medíocres que nos julgavam uma graça — vejam só, tão jovenzinhos! — e nos cumulavam com afetos maternais.

                                               Vilma Slomp
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Cedo eu também percebi que aquela convivência de confetes e mediocridade não nos conduziria a nada senão a uma espécie de várzea literária. Resolvemos mudar de turma.

Era 1965, eu com 15 e Wilson com 16 anos, soubemos do lançamento da coletânea Contos de Repente por uma editora de Curitiba, a Delfos, até então voltada para publicações comerciais. A obra reunia 14 autores locais. Avizinhava-se outra turma, fomos atrás dela. 

Na sede da editora, no centro de Curitiba, encontramos um dos coordenadores da coletânea, Jamil Snege, que logo se tornaria o padrinho literário de Wilson. Com ele, tornamo-nos habituais no Café Avenida.

Por volta de 1963 iniciamos decisiva amizade com Jair Orlando Schwöelk, 15 ou 20 anos mais velho, com quem passamos a compartilhar nossa incursão no campo da literatura. Orientou-nos em textos e livros e nos ajudou a ampliar nossos horizontes para além do rame-rame sem brilho dos literatos do Centro de Letras. Naquelas tardes consumidas em cigarro e conversas, aboletados no quartinho que alugava numa pequena casa de madeira de estilo açoriano próxima de onde morávamos, Jair instigava-nos ao sonho da escrita, mais que isso, ao sonho da vida.

Pouco tempo após nos conhecermos, Jair, vencido pelo álcool, morreu aos 32 anos.

Quase 20 anos depois, em uma das crônicas (“Seus papéis”) reunidas em Bolero’s bar, sua estreia literária, Wilson reverenciaria o amigo: 

“A sua inteligência encheu-me de tal fascínio que logo troquei a vadiagem das ruas por Scott Fitzgerald.”
Herdara papéis e livros de Jair com os quais deparava, assim de imprevisto, “no fim-de-semana dedicado à arrumação das coisas”.  
“E me vejo levado a olhar lá embaixo: tinha 30 anos, médico com formação em Buenos Aires, antiperonista ferrenho, catarinense de nascimento; mais do que padrinho, tutor e guia, preceptor do menino pobre e cheio dessa curiosidade insaciável que às vezes tornam insuportáveis as crianças”. [...] Junto com ele, o veneno que, mal ou bem, me lançou numa cartada sem volta ao jogo soturno, ao jogo tantas vezes lúgubres de escrever”.
“... concluo agora que sou bastante mais velho do que seu último sorriso de convalescente no hospital. Assim, também por culpa do inusitado, agora o menino é você.”

Em 1966 Wilson e família mudaram-se para a vila Tingui, num outro extremo da cidade. Nosso contato, até então quase diário, passou a se restringir a encontros não mais tão frequentes no Café Avenida.

Foi então que decidimos bater à porta da Vidraçaria Trevisan, no centro de Curitiba, em busca do contista que já cumpria fama nacional.

Éramos assim, buscávamos os expoentes que pudessem orientar nosso futuro literário. Dalton nos recebeu no pátio da vidraçaria e ouviu nossa conversa de adolescentes curiosos e esperançosos, ainda que limitados a uma parca vivência de poucos anos. Não me recordo o que o escritor nos disse, a conversa foi breve e encerrou-se quando ele presenteou, a cada um de nós, com um livreto — Nove-las nada exemplares — que editou por conta alguns anos antes num formato pequeno, semelhante a uma caderneta, impresso num papel jornal ordinário amarelado pelo tempo.  

Mais que os presentes, no entanto, valeu-nos um conselho de lei - tura, a nós que almejávamos ser escritores: Cartas a um jovem poeta, a correspondência trocada entre o poe - ta tcheco Rainer Maria Rilke e o aspirante a escritor Franz Kappus. Nos anos seguintes, lemos, relemos e discutimos, Wilson e eu, esse livrinho como uma espécie de guia para nossas pretensões literárias.

Já no início de 1967, enquanto Wilson ruminava sua ideia de se mu - dar para o Rio de Janeiro, eu mergulhava na política de resistência à Ditadura Militar, um caminho sem volta, o da luta democrática e socialista, que eu jamais abandonaria, embora a escrita, no jornalismo e mais tarde na literatura, seguisse mediando minhas relações com o mundo e a vida.

Voltamos a nos encontrar — Wilson e eu — 11 anos depois.

Mas já não éramos mais meninos.


Luiz Manfredini é jornalista e escritor. Nasceu, em 1950, em Curitiba, onde vive. É autor dos romances As moças de Minas e Memória de neblina
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