Memória | Ricardo Piglia

Um nome que se cala

Um dos principais autores da literatura argentina contemporânea, Ricardo Piglia, morto em janeiro deste ano, produziu uma obra inclassificável. José Castello reflete sobre como a influência de outro escritor argentino, Roberto Arlt, foi determinante para que Piglia escrevesse romances pautados pela diversidade de gêneros e linguagens
                                                                                                                                             Divulgação
piglia
O escritor Ricardo Piglia, que morreu em janeiro de 2017, aos 75 anos. Ele sofria de esclerose lateral amiotrófica (ELA) desde 2014. 

Ricardo Piglia (1941-2017) foi, antes de tudo, um grande construtor de relatos. Um arquiteto imperturbável das palavras. “Gostaria de escrever uma novela que se lesse como um tratado científico”, ele declarou certa vez. Observada sua obra nessa perspectiva, como uma construção irrepreensível na qual as fantasias e as obsessões se submetem ao controle de uma lógica feroz, talvez não seja um erro dizer que seu livro mais importante é Nome falso, de 1975. Um relato “sem gênero”, às vezes etiquetado como um livro de contos, outras vezes como um ensaio crítico, outras ainda como um romance — do próprio Piglia, ou de Roberto Arlt, a quem o livro homenageia e cuja escrita traz à luz? Piglia apreciava as narrativas cujo gênero, mesmo depois de grande esforço, não se pode decidir. Ficções que escapam aos nossos esforços inúteis de classificação e adestramento. E que, mais ainda, saltam à frente de qualquer classificação, defrontando-nos com sua assustadora singularidade. É desse horror diante do desconhecido, desse horror ao “um”, que quase toda a literatura contemporânea foge. Pois é aí, justamente, que os escritores mais corajosos, e Piglia foi um deles, jogam suas principais cartas.

Para refletir sobre a diversificada obra de Pìglia, é preciso, ainda assim, partir de algum ponto fixo, de alguma plataforma — mesmo que forçada, ou falsa —, ou simplesmente nos afogamos. Por isso, escolho — sempre escolho — Nome falso. Livro em que, para começar, ele homenageia seu mestre, Roberto Arlt (1900-1942). Não só homenageia: funde-se a ele. Note-se que em apenas dois anos, 1941 e 1942, as existências dos dois escritores argentinos se cruzaram. Mas não se trata de um encontro na esfera do tempo cronológico; trata-se, em vez disso, de um encontro espiritual — e aqui, apesar de me esforçar e de não apreciar a solução que ofereço ao meu leitor, não encontro palavra melhor. Para apresentar um texto inédito de Arlt, “Luba” — um relato sobre a solidão e a tristeza —. Piglia decide escrever um livro que publica sob seu próprio nome. Com isso, como mais tarde nos explicou, submete-se à mesma prova de Max Brod, o amigo com quem Franz Kafka deixou seus originais antes de morrer, que poderia, por exemplo, ter publicado o romance O castelo como seu, mas, em vez disso, não traiu Kafka — embora tenha traído seu desejo de que todos os seus originais fossem queimados.

Também Piglia não trai Arlt, ainda que, sem nenhuma hesitação, trate de reconstruir o seu próprio Arlt. Atribuída ao mestre, a epígrafe do livro de Piglia resume o abismo sobre o qual ambos ergueram suas obras. “Só se perde o que realmente não se teve”, ela diz. É nesse sentido que para Piglia, tudo, absolutamente tudo pode se converter em literatura e em ficção. Tudo pode (e deve) ser devorado e transformado em palavras. Transmutar a vida em ficção é um procedimento através do qual a realidade se salva e se perpetua. (E, nesse aspecto, a estratégia de ambos se aproxima de outra, geograficamente distante: a de Arthur Bispo do Rosário). A compulsão à transformação é, por fim, o motor de sua literatura. Piglia admirava o estilo mesclado (mestiço) da escrita de Arlt, um dos motivos pelos quais o adotou como mestre póstumo. Considerava Arlt um escritor político, não porque ele retratasse a realidade social, mas, ao contrário, porque desprezava os elementos conjunturais, preferindo — como um engenheiro, que se interessa mais pelas fórmulas matemáticas do que pelo cimento armado — se ater às leis gerais que movem a sociedade. Politizar não é espelhar o real, mas sim decifrar a forma como ele se constrói, pensava Piglia. Nesse aspecto, a literatura se oferece como um potente instrumento de interrogação.

Nome falso ilustra uma das mais caras teses de Piglia: a de que não interessa saber como a realidade aparece na ficção, mas, ao contrário, o quanto de ficção constitui o que chamamos de realidade. Também Arlt acreditava que a realidade é trabalhada pela ficção, é construída por ela. Não apreciava as ficções fáceis, como o cinema, o folhetim e, sobretudo, o jornalismo, que via como máquinas de criar ilusões sociais. Como Piglia, ele preferia ver a ficção não como um efeito enganador, mas como a alma do real. Escrever ficções é uma forma de se ter aquilo que, de outra forma, não se tem. As ficções que o interessaram, porém, não foram aquelas que contamos às crianças na esperança de que adormeçam; ao contrário, mas aquelas que nos agitam e que lemos não para dormir, mas para despertar. 

Arlt
Roberto Arlt (1900-42), autor de romances e textos para teatro, era uma espécie de farol literário para Ricardo Piglia. 

Logo na abertura de Nome falso, Piglia adverte seu leitor: “O que estou escrevendo é um informe, ou melhor, um resumo: está em jogo a autoria de um texto de Roberto Arlt”. Não é só esta autoria que está em jogo, porém. A autoria do próprio texto de Piglia — que inclui o conto “Luba”, apresentado como um relato inédito de Arlt — provoca uma grande instabilidade. A literatura — mesmo aquela construída com mais esmero — não existe para explicar nada. A ficção é fortemente opaca — algo muito diferente dos “textos claros” pedidos, hoje em dia, pelo mercado editorial. Um pensamento de Piglia, que ele me deu de presente em um encontro que tivemos ainda nos anos 1990 e que trago anotado em um antigo caderno, resume esse impasse: “O grande problema do escritor no mundo de hoje é o êxito. No século XIX, o escritor era um homem em eterna aliança com o fracasso. Era o maldito, o incompreendido, era Baudelaire. Hoje é o contrário: o escritor se tornou a imagem por excelência do homem bem-sucedido, que se mexe na mídia com desenvoltura, que sabe agir. O êxito, e não mais a maldição, se tornou o seu grande problema”. Aqui se pode entender parte do fascínio de Piglia por Arlt, um escritor até hoje incompreendido, muitas e muitas vezes criticado por sua “escrita suja”, por seu desleixo, por seu mal acabamento. O fascínio de Piglia pelo desvio, pela turvação e pelas fronteiras longínquas o levou a Arlt.

Arlt interessava a Piglia porque sua escrita imperfeita avançava na direção contrária da homogeneização que domina a literatura de hoje. Enquanto a maioria dos escritores se torna intercambiável — não se sabe mais quem escreve o que —, o leitor pode até não gostar de Arlt, mas sabe exatamente quem ele é. A construção dessa singularidade está na base na luta intelectual de Piglia. Sempre desejou ser, a cada novo livro, um novo escritor. Só assim poderia fugir do gosto médio, caracterizado por uma linguagem limpa e neutra, que define a produção literária contemporânea. Nesse aspecto, Piglia foi um escritor muito solitário — e desse aspecto, ainda que em outro estilo, se aproximava de outro grande escritor que também acaba de nos deixar, o brasileiro João Gilberto Noll. A solidão como fermento. A solidão como o estado ideal para um escritor. A solidão como uma maneira de fazer companhia a si mesmo. “No início, todo escritor tem relações intensas com outros escritores”, me disse Piglia — em uma longa conversa que, depois, transformei em uma entrevista para o “Caderno 2” editado por Evaldo Mocarzel. “Mas só no início. E temos a sensação de que estamos de acordo em muitos pontos, bem mais do que realmente estamos. Mas o trabalho, o avançar da escrita, vem afastar o escritor de seus pares. Afirmam-se, então, as diferenças, e restam as amizades.”

No centro da ficção de Piglia está, quase sempre, a questão da verdade — ou, dizendo melhor, da impossibilidade, da inconstância da verdade. E, portanto, da falsidade também. Da ficção. Ele via em Roberto Arlt uma espécie de “quixotismo negativo”: para ele, a literatura tinha sempre não um efeito esclarecedor e apaziguante, mas um efeito perturbador e criminoso. Apreciava não só o estilo mesclado, mas o espírito excêntrico de Arlt. A verdade se acomoda exatamente nessa ausência de centro — nesse abismo. Lidamos, todo o tempo, com nomes falsos, com os quais tentamos capturar uma pequena parte da verdade. A própria assinatura de um autor — Ricardo Piglia, por exemplo, ou Roberto Arlt — é problemática, e é disso que se trata também em Nome falso. A ficção de Piglia nos ensina a duvidar das verdades acabadas e a observá-las como construções, que podem ser demolidas, que são intercambiáveis, e, sobretudo, que são construídas. Lembrava Piglia, com frequência, que as marcas de nosso tempo são o complô, a conspiração, a maquinação, o mecanismo oculto, a razão secreta. No Brasil de hoje — regido pela ideia da delação — essa verdade se torna ainda mais gritante. Na TV, os comentaristas políticos falam em “paranoia”, ou em “teorias conspiratórias”. Mas a verdade é que a realidade sempre se curva sobre si mesma, sempre se contorce e nos escapa, porque nela algo maquina muito além de nossa percepção. É dessa maquinação distante, mas terrível, que a ficção tira sua força.

No livro O laboratório do escritor, Ricardo Piglia faz uma importante referência a Robert Musil e seu célebre romance, O homem sem qualidades. “A história deste romance se reduz ao fato de que a história que nele devia ser contada não foi contada.” Alguma coisa — talvez a parte principal — sempre sobra fora da escrita. Sempre escapa. Alguma coisa simplesmente não encaixa e não entra. É por isso que os melhores romances, ainda que à sua revelia, sempre trabalham com nomes falsos. Com palavras falsas ou, pelo menos, insuficientes. Também nas assinaturas dos escritores não podemos confiar, na medida em que elas nada garantem a respeito do que se escreve. Também a assinatura de Ricardo Piglia é insatisfatória para abarcar o mundo que sua escrita construiu. A ficção está muito além do nome. Como se os verdadeiros nomes, as verdadeiras palavras, sempre se calassem.

José Castello nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1951. É jornalista e escritor. Nos anos 1980, foi editor do caderno “Ideias”, do Jornal do Brasil. Também foi colunista dos jornais O Globo e O Estado de São Paulo. Escreveu, entre outros livros, João Cabral de Melo Neto: O homem sem alma, Vinicius de Moraes: O poeta da paixão e Ribamar. Seu mais recente livro é o infantojuvenil Dentro de mim ninguém entra. Castello vive em Curitiba (PR) desde 1994. 

Estante | Ricardo Piglia

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