Um Escritor na Biblioteca | Fabrício Carpinejar

Da Redação

O poeta e cronista Fabrício Carpinejar falou sobre os principais momentos de sua formação de leitor e do seu percurso artístico durante a terceira edição de 2017 do projeto Um Escritor na Biblioteca. Filho de dois poetas, Carlos Nejar e Maria Carpi, ele teve contato com livros durante a infância. No bate-papo mediado pelo jornalista Marcio Renato dos Santos, Carpinejar lembrou que em sua casa havia livros espalhados, até mesmo em cima da cama. “E a gente riscava, sublinhava, rasgava os livros. Isso fez com que eu não tivesse medo de ler”, comentou. 

Carpinejar mencionou um episódio decisivo: aos 7 anos, tinha dificuldade para ler e escrever. Um neurologista o diagnosticou com retardo mental. Mas a sua mãe, Maria Carpi, desafiou o diagnóstico e durante três meses ensinou o filho a ler e escrever: “Voltei à escola muito melhor do que os meus colegas” . Desde então, diz ter cultivado a sua solidão — o que foi fundamental para o desenvolvimento do poeta que ele já era e que posteriormente iria se tornar conhecido por meio da produção escrita e performances públicas. 

Carpinejar estreou com As solas do sol (1998), coletânea de poemas que conquistou o Prêmio Nacional Fernando Pessoa da União Brasileira de Escritores. Já publicou mais de 40 títulos, como o infantojuvenil Filhote de cruz credo (2006) — vencedor do Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) — , livros de crônicas, entre eles Canalha (2008) — que conquistou o Prêmio Jabuti — e o recém-publicado Amizade é também amor e até Beleza interior (2012), seleção de reportagens a respeito de cidades gaúchas, conteúdo veiculado originalmente no jornal Zero Hora.

Apesar de ser poeta, Carpinejar diz não ter se acomodado com reconhecimento, prêmios e crítica: “Todo mundo espera que tu não mude. Tu vai continuar sendo o mesmo. Na verdade, o que mais gostam de fazer no país é domesticar escritores. Tu tem que ficar num canto e ser encontrado lá. E isso não aconteceu comigo”. 

Jornalista, após atuar em jornal, revista e rádio, também se revelou viável na televisão. Entre 2012 e 2016, apresentou o talk show A máquina, exibido na Rede Gazeta. Atualmente colabora com o programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo. Durante o encontro na BPP, Carpinejar disse que a exposição televisiva não o tornou famoso — esta e outras questões fazem parte da transcrição do bate-papo que segue nas próximas páginas. 

Fabricio Carpinejar

Filho de escritores
Ter sido — e ainda ser — filho de dois escritores me dá muito orgulho. Em casa nunca houve competição ou algum receio do tipo: “Não vou seguir a profissão dos pais porque vou ficar na sombra deles”. O que tu mais quer é ficar na sombra. É ótima a sombra. E meus pais, eles não tinham uma fiscalização solene com o acervo. Os livros eram pra ser folhados como se fossem jornais, revistas. Eles não diziam “Não mexe nesse livro!”, “Ponha na estante!”, etc. Era uma bagunça. Meu pai tinha uns quatro livros na cama. Devo ter sido gerado numa transa em cima de romances. Porque até hoje meu pai tem livros na cama. E não é na cabeceira, é na cama mesmo. É uma colcha de livros. E a gente riscava, sublinhava, rasgava tudo. E os pais deixavam. Isso fez com que eu não tivesse medo de ler. Ler foi como uma paixão natural, pois não tive nenhuma censura, nenhum autoritarismo que me afastasse dos livros em casa. O livro nunca foi para um museu, sempre foi para as mãos, para a festa das mãos, para a festa dos olhos. 

Atrás das estantes
Tínhamos uma grande biblioteca e eu dormia com dois irmãos no mesmo quarto. A Biblioteca era na sala, e não tínhamos onde guardar nossos pertences. E onde nós guardávamos? Atrás dos livros. Cada um escolhia a obra de um autor. Eu escolhi Machado de Assis. Tudo que eu tinha, escondia atrás da obra completa de Machado de Assis. E a minha mãe pensava: “Nossa, como o Fabrício lê Machado de Assis”. E eu não lia Machado de Assis, apenas escondia as minhas coisas lá. 

Outras bibliotecas 
Eu também frequentava a Biblioteca da escola. Sentia que aquela biblioteca era mais minha do que a biblioteca de casa. Esse local era uma espécie de anjo vingador para mim, porque eu não lia os livros solicitados pelas professoras. Eu tinha uma espécie de critério, meio de psicopata do livro. Procurava os livros em que a ficha catalográfica estava virgem. Ficava revirando com a bibliotecária para achar os exemplares que nunca tinham sido retirados. Com esse método, li cada coisa. Cheguei a ler coisas sobre Medicina, educação sexual, obras que nunca tinham sido retiradas. Lia só porque nunca tinham sido retirados. Isso não deve ter me feito bem, mas eu tirei a virgindade de muitos livros.

Infância difícil
Quando criança, eu era muito mais estranho do que agora. Hoje sou um estranho conhecido. Imagina não sendo conhecido — eu era um ET. Tinha uma cabeça enorme, pernas finas e usava botas ortopédicas que me faziam cair com frequência. E tinha muita dificuldade para ler e escrever. Em toda aula era passado um ditado, e eu errava grande parte das palavras. A professora falava uma palavra, eu não notava e ela já estava na segunda. Aí a professora pediu para minha mãe me levar ao médico. Então fui a um neurologista. Ele concluiu que eu tinha retardo mental — e vocês estão vendo que eu tenho mesmo. A mãe recebeu uma penca de remédios e fui aconselhado a sair da escola. Ela pegou essa penca de remédios — eu lembro até hoje —, abriu todas as embalagens e, ao invés de me dar, despejou tudo na pia da cozinha. Ela me puxou pela mão e foi até a escola. Interrompeu a aula, e disse algo assim: “Me dá três meses, que o Fabrício volta para a escola”. Minha mãe tirou licença e ficou em casa me ensinando a ler e escrever, manhã, tarde e noite. Fui as férias de minha mãe em 1979. Ao invés de ela ir para a praia ou qualquer lugar, tirou férias para ensinar o filho a ler e escrever. Depois de três meses, voltei à escola muito melhor do que os meus colegas.

Fabricio Carpi

Poeta precoce
Aos 7 anos eu já era poeta. Sempre tive uma distração excessiva. Imagine, sou filho de dois poetas, então em casa o idioma era metáfora. A gente falava por metáforas, por figuras de linguagem. Vejo as pessoas falando objetivamente, mas o meu idioma não é esse. Fui criado em outro ambiente. E sempre fui um filho do porão, um filho da árvore. Tem crianças que têm bichos de estimação, eu tinha uma árvore. Uma ameixeira, vivia nela, era minha e nenhum outro irmão podia subir nela. Era onde me escondia para chorar, quando estava com raiva, etc. Isso é uma distração poética. Então sempre fui esquisito. E a esquisitice é um dom poético.

Potes de poesia 
Acho que tive tempo para adubar minha solidão, que não adoeceu por falta de contato, por falta de comunicação. Eu conversava muito comigo mesmo. Lembro que meus pais pediam para que eu gritasse longe de casa. Então ia para o porão e lá havia uma série de vidros e potes da minha vó, onde ela guarda o doce de figo que fazia. Todos os potes tinham um rótulo e uma renda na tampa. E a tampa é uma janela. Aí eu tive a seguinte ideia, de gritar dentro do pote. E fechar. Então não gritava dentro de casa, berrava dentro do pote quando estava bravo e o fechava. Depois eu colocava a data de fabricação e o motivo do grito. Tenho vários potes com os meus gritos da infância, mas tenho medo de abri-los. Isso é uma atitude poética. 

As solas do sol
O meu primeiro livro de poemas é uma consequência de minha alucinação poética. Publiquei com 25 anos, mas podeira ter publicado com 40 ou com 50 anos, ia acontecer de qualquer jeito. A poesia escrita vai ser uma fatalidade da poesia oral. Toda minha família cursou Direito. O Rodrigo é promotor, a Carla é promotora e o Miguel é juiz. Meu pai é procurador aposentado e a minha mãe é defensora pública. Aí, lá em casa todos praticavam bullying comigo: “Ah, tu vai fazer Direito”. E aí eu não fiz Direito. Escolhi Jornalismo. E ainda debochei deles: “Ainda vou receber mais que todos vocês”. 

Passear com a dor
Sempre fui um contador de histórias, mas poesia não é contação de histórias e sim uma overdose do que somos, do que sentimos e do que queremos. Tanto que é muito difícil tu ler um bom livro de poemas de cabo a rabo. Tu fica tonto. O livro de poemas é pra ler um, dois, três textos e sair para organizar e passear com a tua dor. 

Trajetória incomum
Na hora que tu é poeta e tem reconhecimento, prêmios e crítica, todo mundo espera que tu não mude. Tu vai continuar sendo o mesmo. Na verdade, o que mais gostam de fazer no país é domesticar escritores. Tu tem que ficar num canto e ser encontrado lá. E isso não aconteceu comigo. Porque depois da poesia veio a crônica, a exposição pública e a presença nas redes sociais. O papel de escritor é confundir, não é dar certezas. As pessoas têm dificuldade de entender que um escritor é um desobediente civil.

Caixa de sapatos 
Em 2003, organizei uma seleção dos meus quatro primeiros livros de poemas, As solas do sol (1998), Um terno de pássaros ao sul (2000), Terceira sede (2001) e Biografia de uma árvore (2002). Caixa de sapatos não é uma antologia, mas um livro a partir dos meus livros. Como seria fazer uma caixa de sapato dos meus livros? Foi a partir dessa ideia que surgiu Caixa de sapatos

Transe
Poema é transe, obsessão. É como se fossem surtos da minha personalidade. Fico realmente pensando nos poemas. Não anoto. Tento memorizá-los. Memorizo todo o livro antes de escrever os poemas.

Carpinejar

Cronista 
Um dia, pensei no seguinte: “Nossa, posso ser um traficante!”. Posso articular poesia por meio da crônica. Posso traficar lirismo para pessoas que não leem poesia. Posso contrabandear histórias poéticas a quem nunca pensava, um dia, folhear um livro de poesia. Porque a crônica não é arrogante, nem soberba. O poeta se sente melhor que os outros, mais inspirado que os outros. O cronista não. 

Bloco de notas
Escrevo absolutamente tudo no celular. Anoto ideias num arquivo e vou trabalhando as questões que vão se tornar as minhas crônicas. Por exemplo, faço uma anotação: fim de um ciclo não é o final do amor. Afinal, a gente pode achar que terminou um amor, mas na verdade só terminou um ciclo. Outro exemplo: o que é a amizade no WhatsApp? Você pode manter um amigo no WhatsApp só respondendo valeu, legal e show após cada postagem. É possível passar anos só falando isso que o amigo do WhatsApp vai continuar ativo. Mas amigo de verdade é diferente.

Amizade é também amor
Vivemos tempos líquidos, de romances líquidos. É muito fácil começar uma relação, terminar uma relação. Hoje as pessoas se separam antes de discutir, sem falar com a parte interessada. Porque a outra pessoa não se encaixou, como se o amor fosse um encaixe. Amor é trabalho, é superação. Então, a amizade talvez seja a fortaleza. O amigo não vai sofrer da exclusividade e da possessividade do amor. Além disso, posso completar os meus amigos entre si. Posso ter um grande amigo, um mais equilibrado, outro mais louco, etc. Os meus amigos se completam. Mas os amigos de verdade não são os amigos do Facebook. Amigo é aquele que vai telefonar. E esses são poucos, pouquíssimos. São aqueles que tu precisa escutar a voz. Tem algo que aconteceu contigo que tu só pode contar para determinado amigo, porque só ele vai entender. Amizade é também amor é um livro que fala justamente disso, dessas amizades amorosas. 

Beleza interior
Amo o Rio Grande do Sul, inclusive tenho um mapa de Porto Alegre tatuado nas costas. Uma das minhas crises pessoais é que hoje sou casado com uma mineira que está tentando me levar para Belo Horizonte. Mas, no caso do projeto Beleza interior, queria conhecer o Rio Grande do Sul. Então, elaborei uma série de reportagens poéticas que foram inicialmente publicadas todo sábado no jornal Zero Hora. Tentava descobrir cidades pouco conhecidas com personagens ou um enredo fantástico. Assim, eu fui para Lagoa dos Três Cantos, situada a 277 quilômetros de Porto Alegre e que ficou conhecida em 2001 como a cidade mais obesa do Brasil. Cerca de 60% dos moradores estavam acima do peso e fugiam da balança. Toda cidade tentou emagrecer. Os moradores fizeram um regime coletivo, com tabela do que podia comer e o que deveria ser evitado. Fui lá porque os moradores de Lagoa dos Três Cantos emagreceram e, depois, engordaram de novo. Eu tentei descobrir o motivo. Eram as cucas do italiano Ivaldo Fioravante Borghetti. Lá, ninguém resistia às massas caseiras, recheadas de morango, framboesa, uva, tangerina, coco, chocolate e doce de leite. E, a exemplo de Lagoa dos Três Cantos, viajei para outras cidades. Posteriormente, reuni o conteúdo em livro. 

Filhote de cruz-credo
Publicado em 2006, foi um dos primeiros livros a tratar abertamente do bullying no Brasil. Naquele período, o tema não era discutido. A obra conquistou o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) na categoria infantojuvenil, foi adotado pelo governo do Rio Grande do Sul e usado num projeto de combate ao bullying

Novela ou romance?
Não vou escrever novela nem romance. Sou poeta e cronista e já estou satisfeito com isso.

Efeito da TV
O fato de ter apresentado o talk show A máquina, exibido na Rede Gazeta entre 2012 e 2016 e agora colaborar com o programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo, não me tornou famoso. Quando penso que sou conhecido, encontro um sujeito que diz: “E aí, Maurício Carpinejar, tá tudo bem?”. Respondo: “Tá ótimo”. A fama é uma projeção, é provisória, fugaz. Tenho filhos e eles me devolvem pro meu devido lugar. Nunca fico de salto alto, se bem que tenho um sapato que lembra muito um salto. É uma bota argentina. Um dia desses, meu vizinho bateu lá em casa e, constrangedoramente, pediu pra mim: “Bah, tu pode pedir pra tua mulher parar de usar salto? Porque não consigo dormir e ela fica de um lado para o outro andando de salto”. Olhei pra ele e disse: “Não é minha mulher, sou eu. É a minha bota de salto”. Daí, fiquei imaginando que ele deve ter fantasiado algo com minha mulher, mas na verdade quem fazia o barulho era eu.

Solidão 
Diferentemente do meu pai, Carlos Nejar, que diz escrever para vencer a morte, escrevo por outro motivo. Nosso grande tormento é estar sozinho. Todo mundo tem medo da solidão, mais até do que da morte. Muito mais. Imagine envelhecer, depois de ter criado filhos e morrer sozinho? Tem uma maior crueldade que essa? Eu acho que não. E tem mais: só esquecemos de quem não soubemos agradecer. Agradecendo a gente lembra. Agradecer é lembrar. E agradecer é somente pra quem tem coragem. É mais difícil agradecer do que perdoar. Agradecer é puro desejo.
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