Memória Literária | Dyonelio Machado

Confronto permanente com a realidade

Há 90 anos, Dyonelio Machado estreava na literatura com Um pobre homem, livro de contos que problematiza angústia, perseguição e outros temas que estariam em seus 19 livros, inclusive no mais conhecido, Os ratos

Marcio Renato dos Santos

Apesar de ter o nome em evidência no meio literário por causa do romance Os ratos (1935), Dyonelio Machado é autor de 19 títulos e estreou na literatura há 90 anos com um livro de contos, Um pobre homem. O doutorando na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Camilo Mattar Raabe afirma que é difícil estabelecer o tema central da primeira obra de Machado, mas não deixa de reconhecer que o embrião de toda a literatura do autor já estava lá, fragmentado entre os contos. “O que confere unidade ao todo um tanto diverso é o sistema sociocultural da cidade em vias de modernização e o modo como condiciona e afeta o ser humano em sua natureza psicológica, especialmente os mais pobres e os mais sensíveis”, analisa Raabe.

Pesquisador e professor da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Fernando Simplício dos Santos estudou os textos do livro de estreia de Machado durante o mestrado, defendido na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em 2008. A partir da leitura dos contos “Um pobre homem”, “Melancolia”, “As chagas”, “O Velho Sanches” e “Noite no acampamento”, Santos diz que o tema central do livro está interligado àquilo que, em seus estudos, definiu como “Uma poética da desilusão”.

“Os personagens dessas narrativas aparecem representados ora em torno de doenças, da morte, de profundas angústias, ora em face de uma situação na qual a animalização, a coisificação ou reificação não só retiram todos seus aspectos de humanidade como também são responsáveis por reger o ‘mundo ficcional’”, comenta o estudioso da UNIR.

Angústia, animalização e perseguição política, temas presentes na obra de estreia que também aparecem em outros livros, dialogam com o imaginário e com os movimentos do autor em vida. Nascido em Quaraí (RS) em 1895, o ficcionista Dyonelio Tubino Machado atuou como médico (precursor da psiquiatria no Brasil), escreveu em jornais e também militou politicamente. Foi preso durante o governo de Vargas, em virtude de sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), inicialmente em Porto Alegre e em seguida no Rio de Janeiro — onde conheceu, entre outros presos políticos, o escritor Graciliano Ramos. Elegeu-se deputado estadual em 1946, mas permaneceu no cargo durante um curto período. Morreu em Porto Alegre em 1985.

Camilo Mattar Raabe define Machado em uma palavra: “humano”. Mas o estudioso acrescenta que o escritor foi um intelectual de grande envergadura, que agiu em integridade com seus ideais nos diversos campos de atuação, os quais estão em harmonioso diálogo: “Erudito, mas com a sensibilidade do homem do pampa, atuou na avant-garde por uma realidade mais humana e igualitária, seja no jornalismo, na política, na medicina ou na literatura, buscando conscientizar os indivíduos de sua condição na sociedade moderna”.
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        Dyonelio Machado recriado por Robson Vilalba

Marco literário
Camilo Mattar Raabe acredita que Os ratos é um marco da literatura brasileira — e mundial. “É uma obra muito complexa e, apesar de leituras importantes, ainda pouco explorada”, pontua o estudioso da PUCRS. Escrita durante 20 noites, a narrativa tem como personagem central o funcionário público Naziazeno Barbosa, que precisa de cinquenta e três mil-réis para pagar a conta do leiteiro — ele tem apenas um dia para resolver o problema.

O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Homero Vizeu Araújo define Os ratos como um livro notável. “Uma característica extraordinária é o narrador em terceira pessoa que adere à perspectiva limitada e desinformada de Naziazeno, isto é, um narrador que pouco explica e pouco expõe, registrando o percurso do personagem principal sem revelar o quadro maior em que se insere o enredo”, comenta.

De acordo com Araújo, a narrativa estabelece uma atmosfera asfixiante, em que o leitor é induzido a sentir-se como Naziazeno, desorientado e aflito. O professor da UFRGS salienta que vale a pena comparar Os ratos, por exemplo, com a perspectiva distanciada e informada, mas às vezes francamente engajada, em que são narrados a maioria dos romances de Erico Verissimo, Jorge Amado e José Lins do Rego — todas com um resultado absolutamente diverso do que acontece no livro de Machado.

Fernando Simplício dos Santos observa que duas características fundamentais chamaram a atenção da crítica na época da publicação de Os ratos. Em primeiro lugar, destacou-se o fato de ser um romance de forte indagação social e que, por conta disso, revelava certas discrepâncias da Porto Alegre dos anos 1930. Em segundo lugar, continua o pesquisador, notou-se que o livro, de maneira peculiar, suscitava inúmeras questões em torno de teorias a respeito da psicanálise, sobretudo ao considerar o trabalho narrativo que tem por finalidade problematizar as “vertigens da mente humana”.

“Crítica social e psicanálise apareciam, peculiarmente, sobrepostas ao métier artístico, o que não deixava de ser inovador para a literatura daquele período”, argumenta Santos, pontuando que Os ratos foi reconhecido com o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras.

Já Fábio Henrique Passoni Martins, com pesquisa em andamento sobre Os ratos no Programa de Pós-graduação em Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP), afirma que a obra traz uma admirável amarração de todos os elementos da narrativa (espaço, tempo, narrador, personagem, ação, conflito e linguagem) e o manejo exemplar de todos esses componentes dentro de uma sofisticada técnica. “Narrativa concentrada, linguagem desbastada, tempos deslizantes em sobreposição não muito distantes entre si e a construção de personagens integrados que conferem a razão de ser mais profunda do enredo”, analisa Martins. 

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Porto Alegre dos anos 1930 está representada de forma especial em Os ratos

Fernando Simplício dos Santos também compara Naziazeno com Fabiano e ainda com Luís da Silva, do romance Angústia, de Graciliano Ramos. O professor da UNIR lembra que é possível cotejar Naziazeno, assim como detecta Davi Arrigucci Jr, com Raskólnikov, do clássico Crime e castigo, de Dostoievski. Santos observa ainda que há relação do nome Naziazeno com o do personagem bíblico Lázaro ou com o nome da cidade de Nazaré — lugar em que nasceu Jesus Cristo: “Assim, por meio de outra interpretação, agora readaptando uma sugestão analítica de Antonio Carlos Hohlfeldt, é possível dizer, do mesmo modo, que a trajetória de Naziazeno representaria alegoricamente ‘as chagas de nossa nação’.”

Já Fábio Henrique Passoni Martins afirma que Naziazeno pode ser comparado com um terceiro personagem de Graciliano Ramos, Paulo Honório, de São Bernardo. O pesquisador tem a impressão de que também vale atualizar as comparações, aproximando Naziazeno dos protagonistas de Bandoleiros, de João Gilberto Noll, e de Estorvo, de Chico Buarque. “São todos personagens de uma mesma ‘família’, existencialmente falando”, completa.

Atemporal e Naziazeno
Fernando Simplício dos Santos já analisou em estudo acadêmico a história de Naziazeno, que — em seu entendimento — mostra o ser humano como um condenado a “sofrer para sobreviver”: “Ele [Naziazeno] está à mercê de um sistema que explora seu corpo e sua mente, refletindo-se nas histórias de outros ‘Naziazenos do Brasil’ — todos à margem dos grandes centros da sociedade capitalista, contundentemente exemplificada em Os ratos pela cidade de Porto Alegre dos anos de 1930 e representada, igualmente, pela nossa sociedade contemporânea. Tal questão mostra a atemporalidade de Os ratos”.

Dialogando com o ponto de vista de Fernando Simplício dos Santos, Camilo Mattar Raabe acrescenta que a atemporalidade de Os ratos está no fato de a obra expor o modo como o sistema capitalista da cidade moderna subjuga e afeta negativamente a vida e a saúde mental das pessoas — como se a urbe fosse uma espécie de cárcere do qual o personagem não consegue se desvencilhar, “algo que permanece nos dias de hoje”.

Além de comentar a atemporalidade de Os ratos, os estudiosos consultados pelo Cândido também comparam Naziazeno com outros personagens, entre os quais Fabiano, do romance Vidas secas, de Graciliano Ramos. “As condições são muito diferentes. Em Vidas secas, é o mundo rural assolado pela violência da propriedade agrária e pela dureza do clima, mas os limites da consciência de Fabiano guardam semelhanças com os trejeitos de pensamento de Naziazeno”, argumenta Homero Vizeu Araújo.

Cati, tetralogia & trilogia
Fábio Henrique Passoni Martins considera O louco do Cati (1942) tão intenso quanto Os ratos, e lembra que alguns críticos e escritores, como Mário de Andrade e Guimarães Rosa, consideravam o romance mais inquietante até do que Os ratos. Para Homero Vizeu Araújo, O louco do Cati é uma narrativa espantosa, que acompanha a trajetória de um personagem passivo e incapaz de se expressar. “Nessa obra já surgem os elementos de perseguição e opressão políticas que pautam os romances concebidos após Os ratos”, diz o professor da UFRGS, pontuando que Machado não é otimista, não prega a rebeldia ou a revolução e — especificamente no caso de O louco do Cati — o narrador em terceira pessoa até demonstra simpatia pela causa que mais ou menos move as personagens, mas ele se recusa a enunciar comentários paternalistas ou conciliatórios.

O professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Benedito Antunes define O louco do Cati — ditado pelo autor e escrito pela esposa, Adalgiza, e pela filha Cecília — como um romance altamente moderno. Antunes chama a atenção para o fato de o personagem do romance, Cati, ser perseguido e fazer um percurso pouco explicado, mas cheio de implicações. “Trata de um problema político relevante e atual sem assumir posições sectárias ou fazer denúncias diretas. Cria, por meio da linguagem, uma atmosfera que atinge mais intensamente o leitor, expondo-o às questões sociais e políticas de forma mais problematizada”, comenta.

Fernando Simplício dos Santos acredita que, em O louco do Cati, arte literária e crítica ideológica caminham juntas e representam, com maestria, o poder simbólico da obra dyoneliana. Ele estudou a questão em sua tese de doutorado, “História, política e alegoria na prosa ficcional de Dyonelio Machado”, defendida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 2013.

No trabalho acadêmico, Santos analisou a relação entre história, política e alegoria na tetralogia romanesca composta por O louco do Cati (1942), Desolação (1944), Passos perdidos (1946) e Nuanças (1981) e, também, na trilogia romanesca constituída por Deuses econômicos (1966), Sol subterrâneo (1981) e Prodígios (1980). “Por meio de um debate com a fortuna crítica do escritor gaúcho, foi possível esquematizar determinada organização e rearticulação da poética dyoneliana através dos tempos”, comenta.

Já Camilo Mattar Raabe fixou o texto do romance Proscritos, de Machado, em sua dissertação de mestrado, defendida na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em 2014 — a obra foi publicada em novembro daquele ano. Proscritos é o segundo volume da trilogia chamada “Os flagelantes”, composta ainda por Endiabrados e Terceira vigília. Machado escreveu Proscritos durante 1964 e revisou o texto no ano seguinte. A obra trata da queda e fuga do ministro Macedo Filho, envolvido nos escândalos de corrupção. “Uma espécie de crime organizado aos moldes do que hoje há no país, no entanto presentes antes mesmo do golpe militar de 1964”, observa Raabe.

O pesquisador teve acesso ao manuscrito no acervo pessoal de Machado, aos cuidados do Espaço de Documentação e Memória Cultural (DELFOS), situado na Biblioteca Central da PUCRS. “Aos poucos fui tomando consciência da importância do resgate da literatura proscrita de Dyonelio, de sua representatividade nos dias de hoje, de sua pertinência e atualidade”, diz.

Atualmente, Raabe cursa o doutorado na PUCRS com a finalidade de estabelecer o texto final do romance Terceira vigília: “Dou segmento, de certo modo, ao estudo do processo criativo de um dos precursores da psicanálise no Brasil.”

Reprodução
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Dyonelio Machado afirmou, mais de uma vez, que a literatura brasileira estava morta.

Indiferença é fortaleza
A avaliação sobre o legado de Machado divide a opinião dos pesquisadores. Fernando Simplício dos Santos considera a produção do escritor gaúcho desigual. “Nem todos os romances têm o mesmo grau de elaboração estética: uns são obras-primas; outros, medianos”, diz Santos, citando Os ratos, O louco do Cati, Desolação, Passos perdidos, Deuses econômicos, Sol subterrâneo, além de alguns contos — “Um pobre homem”, “Melancolia”, “O velho Sanches” e “As chagas” — como pontos altos da produção dyoneliana.

Já Camilo Mattar Raabe diz ter dificuldade para afirmar se o legado literário de Machado é desigual. “Tal impressão se dá por sua pluralidade e diversidade, o que é de se esperar de alguém que manteve sua atividade literária por cerca de 60 anos”, argumenta. Raabe observa que muitas obras do escritor gaúcho ainda são desconhecidas do público leitor. Ele cita o romance Endiabrados, publicado 20 anos depois de escrito, que conquistou o Prêmio Jabuti em 1981 e, no entanto, não ganhou espaço no imaginário nem no mercado de livros nacional.

O lugar da ficção de Dyonelio Machado na literatura brasileira, de acordo com Fábio Henrique Passoni Martins, talvez ainda não esteja demarcado tão nitidamente como merece. E o mérito, salienta Martins, decorre da qualidade literária da produção dyoneliana e da possibilidade desse legado ser lido por público de variado espectro: “Os ratos, por exemplo, é um livro de compreensão muito acessível a várias faixas etárias e diferentes níveis culturais, costuma ser muito bem aceito entre o público jovem de ensino médio de diferentes extratos sociais com os quais já trabalhei”.

Em uma entrevista, concedida ao jornal A Hora, de Porto Alegre, em 1956, Machado afirmou: “A vida precisa ser vivida com indiferença.” Camilo Mattar Raabe analisa que a afirmação ajuda a compreender o autor. “É preciso certa indiferença em relação aos triunfos e fracassos na relação do ser com a realidade, para que o mesmo possa manter-se íntegro com os ditames de sua própria consciência”, comenta Raabe. Ele lembra que Machado recebeu a notícia de que Os ratos tinha sido um dos vencedores do Prêmio Machado de Assis, em 1935, enquanto viajava para a prisão no Rio de Janeiro por delito de opinião. Machado também foi premiado na década de 1940, por Desolação, mas não houve nenhum respaldo da crítica. Entre 1946 e 1966, não foi editado, mas produziu literatura, “com certa indiferença em relação a sua aceitação na sociedade e na cultura num sentido momentâneo”, comenta Raabe, “mas de acordo com as exigências de sua própria consciência — bem como por necessidade de sublimar em arte a sua relação conflituosa com a realidade que queria transformar”, completa o especialista. 

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Estante | Dyonelio Machado

Política contemporânea: três aspectos (1923, ensaio)

Um pobre homem (1927, contos)

Uma definição biológica do crime (1933, ensaio — é a tese de doutoramento
do autor, precursora da bibliografia freudiana no Rio Grande do Sul)

Os ratos (1935, romance)

O louco do Cati (1942, romance)

Eletroencefalografia: alguns aspectos (1944, ensaio)

Desolação (1944, romance)

Passos perdidos (1946, romance)

Deuses econômicos (1966, romance)

Prodígios (1980)

Endiabrados (1980, romance)

Nuanças (1981)

Sol subterrâneo (1981, romance)

Fada (1982, romance)

Ele vem do fundão (1982, romance)

Memórias de um pobre homem (1990, memórias)

O estadista (1995, romance escrito em 1926)

Proscritos (2014, romance escrito em 1964)

Terceira vigília (romance escrito entre 1966 e 1980, ainda inédito)
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