Poemas | Paulo Scott

caliman
Bloco de rima

altruísmo desastroso erva luz
par do meu florescer interminável
enxerto na bolsa do teu alicerce

segura pelo meu desastre
neste jogo de semente em algodão
demora na construção da pá

empresa escalando rendições em teu poço
em teu mito do desinteresse
auxiliado pela repetição (elo-azar)

essa mancha patinada — geração
quilha substituindo o céu
nó da surdez e os crimes da natureza

enquanto escapa de mim em fundura
rumo ao que se emenda com desistência
com o uso excessivo de lembranças

adesivo da chegada ao outro
esse arpão que BUM e descasca o excitamento
de centro do mundo e menos a enraizar

sumindo dentro dos crimes da natureza
esse tiro guardado dentro da flor
mudez que empresta aos teus olhos o voar
caliman

Dorme flutuação

no domingo a festa foi arrumação de partida
a mala que nunca terminamos de aprontar
lá dissemos que era só um momento
labirinto da letra mais doída
e (bem depois) aceitaríamos o que resolvessem
esperar de nós — a surpresa da normalidade
o chão e a guinada da normalidade

mas a festa — sem que tivéssemos ideia
asas tremidas a partir de nossas sombras
projetadas contra as paredes pela ribalta
que no pano de boca ocupava todos
os lugares do sol — foi a igreja
que construímos dentro de nosso corpo
dentro de nossa alma

festa ainda gravitacional atroz
festa objetos flutuantes mentira de jamais naufragar
festa onde se esconde o malfeitor que lutava
para não ser expelido do tempo
da areia de nossa arrogância
felicidade que liquidifica as memórias
festa lá nunca dormimos

e lá estamos dizendo: é só um momento
é apenas uma festa longe uma sombra longe
alvejada de um sol inofensivo e de uma dor inofensiva
e hoje sempre esta dúvida este não chegar
hoje que se redecora pela utilidade
trânsito de formigueiro
cada mínimo grão é tua asa — único/peso/hoje/casa

como as sombras batentes que lá esperam por nós
caliman

Poeta que não anda só

lambe like [como des-
língua bike [grudo-te
pelas bolas [de vós
vagina [como faço
cu de botas [para chegar
do poeta [na sombra?


se tua saliva [como des-
é cola atrás [grudo-te
de mais cola [para ver se
e tua solidão [está excitado
é lenha que [ou se morre
nada afeta [na equipe


ginasta [
sem sombra [controuvem
só língua [controuvê
atrás de língua [controuvá
de sola [
de cura [salivantes [sem reta


nem cus e nem poetas

caliman


Voltar a dormir


dormir — brasa atada a brasa
despejado em caminhão de mudança
(semente que todo presente sem fogo é) 


dormir — as medidas da casa que habitamos
sem plástico-bolha
sem feltros sem gota de esperança


enquanto meus ouvidos balançam as lâminas e
meus joelhos pesam o que descabe em seu contento
(e pelo resto desse orelhão aplicado a seco)


me deixando casca
de não saber se vida é caminhão parado
se é caminhão movimento


dormir — ferrugem das mãos naufragadas
tatuadas em meus tornozelos
até retorcer lagunas tatuadas de sangue


por dentro do sangue — essa língua
do sonho esse visitante do corpo
água autorizada a correr


pois te dormir — dormir de te fabricar
e te recolher (em brasil) das ausências alheias
e ser húmus nesse encaixe à marreta-arlequim


ácido do esvaziamento que me toma o lugar
enquanto uma solidez de madeira vem brincar
com o luto brasileiro deste sangue — e passeia


e baba (seus bombeiros) dentro de mim



Paulo Scott nasceu em Porto Alegre (RS), em 1966. É escritor e professor universitário. Publicou dez livros, nos gêneros conto, romance e poesia. Recebeu os prêmios Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional, APCA, Açorianos de Literatura, entre outros. Vive em Garopaba (SC).

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