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Ficção | Fernando Bonassi

Literatura contemporânea

     Ilustrações: André Caliman
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O escritor contemporâneo desperta em meio a um pesadelo em que erra por labirintos de estantes. É típico dele. Parece de propósito, ainda que seja inconsciente. Agora tem que se esforçar para perceber o lado em que se encontra... É ali mesmo, onde também há livros por todos os lados.

Para o escritor os livros tornaram a existência mágica, mas não consta que tal magia tenha contagiado a própria existência. O escritor contemporâneo pensa que foi salvo pela realidade com que sonha, mas tal coisa não existe. O que existe não foi sonhado, ou mesmo pensado por ninguém, mas é tolerado por todos os que se dizem acordados como ele.

Contra o sono que insiste, ele se espreguiça... Queria continuar deitado, cultivando esse ócio criativo, mas é preciso separar-se da esposa que vai para o trabalho, mandar os filhos ao colégio, dar rendimento aos editores, informar-se dos horrores e escrever sua coluna diária.

A mulher do escritor contemporâneo trabalha fora porque se considera emancipada. O escritor contemporâneo também a considera a esse ponto, mas ambos sabem que precisam do dinheiro que ela recebe para manterem-se à tona em meio ao pântano de sua classe social, que é média, nem mais nem menos... Acontece que mesmo em meio a essa mediocridade, escrever, ler e até mesmo trabalhar tornaram-se luxos difíceis de pagar!

O que o escritor contemporâneo gostaria mesmo era vender livros aos milhões (e não às centenas, como faz) apenas para que a mulher ficasse à sua disposição, feita escrava sexual, fornicando quando e como quisesse, ao sabor de suas inspirações mais mesquinhas. Ele não lhe diz isto com estas palavras, porque seria de mau gosto para esse escritor, que considera a si mesmo contemporâneo e, portanto, sem preconceitos com as minorias emancipadas...

Há essa sensação geral de que as minorias são a maioria, mas é algo que não se comenta, para evitar “dores de cabeça”.

A mulher do escritor contemporâneo, igualmente contemporânea, desempenha alguma atividade onde ganha trinta ou quarenta por cento a menos do que qualquer homem contemporâneo para fazer a mesma coisa. Ela lutaria contra o preconceito em tal estado de coisas, não precisasse tanto do velho estado de coisas como precisa para o que julga “sobreviverem”. Desconfia que sua emancipação apenas somou-lhe outra dor de cabeça, sob a forma de uma nova jornada ao final de seus dias, quando chega exausta para as tarefas do lar, mal feitas pelo escritor contemporâneo, que as desconsidera. Ela não diz nada disso ao escritor contemporâneo, já que não seria de bom tom para uma mulher contemporânea e emancipada, que também trata a casa com algum desprezo. O certo, por mais errado que pareça, é que quando ela cai na cama desarrumada, o único gozo que a mulher do escritor contemporâneo deseja usufruir é dormir...

Dormir, já dormiram. Agora é hora de levantar, pois os filhos estão pedindo algo para comer mais uma vez. Comem todos os dias, numa insistência com a vida que só a biologia é capaz de entender! E para se entenderem melhor, os filhos vão à escola...

Problema é que o escritor contemporâneo duvida dos colégios. Duvida do que tenham feito dele, no passado. Duvida que o presente possa ser explicado por qualquer escola. Duvida mesmo serão educados no futuro, já que a falta de educação, tudo indica, é a melhor arma para a competição que se anuncia desde cedo. Já nascem correndo, criam músculos, se destroem em guerras, tiroteios e acidentes automobilísticos... O escritor contemporâneo pensa nesses riscos, então remexe nos armários desses filhos dos quais desconfia contra sua vontade, mas está se acostumando tão bem a fazer as coisas contra sua vontade que quase não tem vergonha do que faz. Teme encontrar algo surpreendente entre as roupas e brinquedos inocentes das crianças, mas ainda assim procura. Não encontra nada que implique os seus machinhos na violência que se alimenta em torno. Nem sabe se isso é bom ou mal, já que a violência tornou-se uma espécie de necessidade, filosofia ou ciência, sabe-se lá...

Refletido num espelho em meio à sua investigação (ou rapina), o escritor contemporâneo sente-se péssimo. É mais um vício melodramático de quem aprecia má literatura. Para. Procura se convencer de que nada desse universo impulsivo e repulsivo pode atingir os seus queridos, mas ele sabe que tenta proteger o impossível de ser contido, uma vez que, cada vez mais, tudo pode acontecer com todos, especialmente a desgraça; essa sim, a única a parecer verdadeiramente universal, e democrática, ao escritor contemporâneo.

O escritor contemporâneo se julga socialista, democrático e libertário, mas como seus antepassados autoritários, gostaria de conservar tudo num tamanho mínimo, para controlar melhor a todos. Paternalista, acredita que todos dependem dele quando ele próprio sente falta de algo que não quer calar, ainda que não saiba o que dizer...
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Na escola o escritor contemporâneo não sabe o que os professores estarão dizendo, ou ordenando, que os alunos façam. O escritor contemporâneo não gosta de “ordens”, mas quer deixar alguma disciplina de herança. Pode ser por egoísmo; por causa do trabalho infernal que lhe dão essas crias (pelo menos enquanto ficam longe estudando, cabulando aula por um cinema ou envolvendo-se com traficantes, ele pode escrever sua coluna diária em paz). Claro que o escritor contemporâneo não escreve isto. Prefere, ao contrário, manifestar suas nobres razões morais e políticas, já que acredita (ou precisa acreditar) que é importante que os seus socializem com outros de mesma espécie...

Ele vê quando os filhos despencam pelos elevadores, berrando e exigindo uma infelicidade diferente daquela em que se encontram; e sente-se só com a mãe deles no apartamento... Essa é apenas uma espécie dentre as tantas contradições com as quais o escritor contemporâneo se depara, deixando-o tonto desde cedo. Depois são as contradições com essa mulher que, às pressas, está saindo para o trabalho escravo, mas, como os senhores, dá ordens e contra-ordens que não serão cumpridas pelo escritor contemporâneo. O escritor contemporâneo, em sua aflição e egoísmo desordenadamente produtivos, não quer saber de fazer nada que não seja seu prazer: sentar, tomar café, fumar e escrever...

Sobre os malefícios do tabaco, Tchekov disse tudo o que era necessário há séculos. Sobre o café, os latifundiários nacionais não se cansam de falar e fazer propaganda enganosa de seus benefícios... O escritor contemporâneo pensa que toda propaganda é enganosa, já que nos impõe vontades que não temos. E enquanto vasculha o jornal em busca de um tema que possa comprar para narrar, sente atrapalhar a digestão do café, do pão e das frutas geneticamente reconstituídas (aquelas que alegram o olhar). Ele come aquelas coisas bonitas de se ver e sem sabor de se engolir. Insiste no desgosto de conhecer as tais manchetes que enriquecem uns poucos conhecidos e matam tantos anônimos com uma constância de arrepiar a própria morte! Ele trabalha com a “expressão” disto... Essa palavra lhe dá um pouco de vergonha... “Expressão”... Então voa atrapalhado para um escritório num quarto de fundos, correndo os dedos trêmulos e apressados pelo teclado, enquanto a vida se esvai nas entrelinhas das notícias que quer analisar, desvendar... “Exprimir”.

Seria necessário parar o tempo para conceber um outro tempo, ou pensar no próprio tempo que vivemos, mas o escritor contemporâneo está sendo vencido pela sucessão espetacular dos desencontros com que ele e o resto da humanidade insistem em se desentender. Os fatos nebulosos e seus dados tétricos são ainda mais rápidos e as novas mais antigas de se lamentar vão chegando por telefone, fax e e-mail, completando o clássico cardápio da tragédia contemporânea! O escritor contemporâneo está farto dessa modernidade. Por mais que tente, seus relatos não passam de comentários espantados, já que a sua imaginação está sempre perdendo para o que os demais autores dessa tal de “Grande História” são capazes de fazer para impor suas ideias... O inferno são sempre esses outros, concorrentes, cuja vitalidade mortal o escritor contemporâneo inveja. Não! O escritor contemporâneo não é humilde. Tem esse projeto grandioso e miserável de se tornar visível e notável por dar algum sentido para a carnificina, mas não é o sentido mais profundo da crítica o que interessa, já que a evidência visionária dos filmes é mais precisa, ou preciosa, do que os próprios acontecimentos. Os cadáveres destroçados e boquiabertos estão ali para nos provar. Não dizem nada, mas sua imagem bem fotografada consome num instante as cem mil palavras decoradas e entaladas na garganta do escritor contemporâneo. 

Ele estranha que todas as vítimas pareçam iguais, por mais que os algozes insistam em dizer que estão no lugar em questão porque são “diferentes”...
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Cada sofrimento é uma grandeza específica, todos valem a mesma tristeza, ele pensa, por mais que a indiferença épica prevaleça sobre a comédia da esperança... Disso ele tem certeza com um cinismo tão apaixonado como quando era católico, escoteiro, anarquista ou comunista. Também foi estudante, metalúrgico, garçom, operador de telemarketing, corrupto e prostituto. Foi de tudo um pouco, pois acreditava que “a verdade do escritor contemporâneo” era ser um pouco o que todos os outros contemporâneos seus eram... Mentira. Um “ator contemporâneo” tradicionalmente faz tudo isso e ninguém cobra qualquer verdade de alguém cuja especialidade é “ser e não ser”, numa eterna confusão hamletiana.

Apesar de toda a sua experiência, o escritor contemporâneo nem precisou de muito para perceber que, mais uma vez, tudo não passava de boa e velha literatura. Romanceara e embelezara de tal modo a liberdade de lançar-se neste mundo que confundiu este mundo com os sucessivos trabalhos mesquinhos que não lhe ensinavam nada de novo, mas reiteravam que a exploração era muito mais criativa e impessoal do que a estética formal, pois persiste ainda hoje, esmagando homens e mulheres patéticos em toda parte, apesar de todos os livros, ensaios e reportagens bem escritas, cheias de ética, elegantes ou ousadas que a criticam...

Colhido em meio a essas memórias amargas, o escritor contemporâneo é chamado à relativa fartura e doçura de sua mesa do almoço. Alguém cozinhou para ele e no máximo receberá um crédito de agradecimento numa próxima edição. Ele come seu prato de arroz, feijão e carnes magras como quem mastiga uma mensagem gorda de significados, mas como o estômago não pensa, não se comunica e ele come rápido, a gastrite perfurante é o que impera entre os seus sentimentos dolorosos. Mais uma vez o escritor contemporâneo engole tudo de uma vez; outra vez em nome da saúde, mais que do sabor.

Deita-se na sesta para digerir, como um animal predador numa planície africana, mas está mesmo é numa metrópole sul-americana, onde os chefes caçadores locais já dominaram todas as presas, em bom ou mau estado, transformando-as em operários assalariados. Por isso, logo depois e sem pregar os olhos, ponderando e resmungando que a sua coluna diária está atrasada, o escritor contemporâneo se ergue subitamente e volta rápido ao computador... Mas... Não sabe o que escrever! Mas... Não aceita que não tenha nada para transmitir! Para tudo o que é necessário ele tem uma palavra!

Enjoado, ele entende que, como a propaganda enganosa que execra, as suas palavras inventam um desejo que não existia antes. E, repentinamente, ele não deseja mais escrever! Tem a coragem de pensar nisso uma vez ou outra, já que os contextos são sempre muito maiores e intangíveis para os seus textos, tidos como “densos”... Parece até que vai se libertar desses pesos, que vai querer jogar tudo para o ar, mas... E se jogar? Quem vai pagar o aluguel ao proprietário e os tributos aos funcionários do governo? O escritor contemporâneo decidiu viver ao lado dos governos, já que não suportava mais o desconforto de estar à margem deles. E assim, aterrorizado por essa liberdade de se destruir ou se despir de tudo o que é para o nada que poderia vir a ser, prefere voltar a ser o escritor contemporâneo que era, desde sempre. Então, quer queira quer não, ele tem que escrever... No princípio, não fora a necessidade que o levou à literatura, mas quase uma veleidade. Quisesse viver melhor teria se tornado advogado, jurista ou banqueiro, mas não tivera a sorte, jeito ou teve todo o azar de nascer num cômodo acomodado pela miséria e ignorância dos seus pais. Lutou contra os pais, contra sua própria burrice e venceu. Estudou em escolas e universidade públicas, ainda que seus benefícios atuais sejam privados.

O escritor contemporâneo fez da literatura uma “ciência da esperança” de chegar em algum lugar menos pior do que este! Acontece que a melhor literatura do escritor contemporâneo não chega lá, já que lá só uns poucos é que chegam... E sempre os outros... Um inferno.

Agora, tem que se obrigar a fazer com “profissionalismo” ridículo (compromissos mixos e salários baixos conformando um estado de nervos em frangalhos com as contas a pagar e as migalhas a receber) o que antes se propunha a fazer com amor... Amor. Amor é uma palavra horrível!

Não! Não que não cultive sua vaidade. Expõe-se bem na sua obra para que a sua obra o exponha melhor do que é. Um homem mente em qualquer atividade, ainda que este escritor contemporâneo considere a sua atividade um tipo de missão, fé ou sacrifício... Em seu “sacrifício”, no entanto, ele sequer suja as mãos (no máximo, talvez, com as tintas negras da sua impressora), e continua tentando apresentar uma solução global quando não passa do diagnóstico de problemas localizados.
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Os leitores, por incríveis que pareçam, sabem que é assim e, ainda assim, pagam pelas palavras vagas desse escritor contemporâneo, as quais ele copiou de alguém quando percebeu que ler diminuía-lhe o peso da estupidez. Palavras que ele repete prosaica e poeticamente desde que descobriu que cultivar a ficção seria mais seguro para um escritor contemporâneo do que a ação no calor da revolução.

Da “revolução”, por covardia ou por clareza, o escritor contemporâneo passou a desdenhar, dizendo que ela se aprisionou em partidos que transformam rebelião em burocracia. De modo que o escritor contemporâneo pôs todas as suas ilusões políticas bem puristas num mesmo lugar sujo e agora não tem com o que preencher tantos espaços ocos, limpos e terrivelmente vazios, fazendo eco em sua mente... 

Também não! A literatura do escritor contemporâneo não é um marco explosivo de sua época ou geração! Nenhuma literatura o é mais!

Mas isto não consola... E como que não se detonará como uma bomba em nome de suas posições, suas frases lhe parecem ainda mais esfoladas, compradas ou vendidas, já que um gesto incendiário desses terroristas parece mais convincente do que suas páginas moralistas e supostamente revolucionárias... Não que sejam reacionárias, mas é esse “bom senso” que as aniquila. E como o “bom senso” é de todos, há sempre essa vivência emprestada, entediada, empestada... A peste, aliás, vem anunciando seu ciclo de “limpeza étnica” e o escritor contemporâneo teme que sua raça seja extinta pela eficiência alheia, ou inutilidade dela própria... Então o escritor contemporâneo escreve contra os seus próprios medos, ou impotência, que diferença faz?! Enche cada vez mais páginas; com muita “força de verdade” (especialmente as inventadas no calor da redação). Chega ao final de sua criação como se sua coluna diária fosse uma cruz carregada de culpas, desculpas e desconfianças para, em seguida, enviá-la ao editor.

Seu artigo será aceito a seu tempo, com a condição de que se retirem alguns trechos comprometedores para os anunciantes e patrocinadores...

O escritor contemporâneo hesita em continuar a obedecer! Vê censura onde seu patrão vê os “interesses do mercado”. Fica indignado, mas... Bem, quer dizer, “passando mal”, ele não escreve isso... E em silêncio, ele refaz seu servicinho...

O dia está ganho. 

Os filhos chegam do colégio e se trancam no quarto. A esposa chega do trabalho e se tranca no banheiro. Vão jantar separadamente a comida requentada do almoço e tentar dormir outra vez, como os seus contemporâneos. 


Fernando Bonassi nasceu em 1962, em São Paulo. É roteirista, dramaturgo e escritor, autor dos romances Subúrbio (1994) e Luxúria (2015), e dos livros de contos Passaporte (2001) e SP Brasil (2002), entre outros. No cinema, destacam-se os roteiros de Estação Carandiru (dirigido por Hector Babenco) e Cazuza — O tempo não para (de Sandra Werneck e Walter Carvalho). No teatro, as montagens de Apocalipse 1,11 (com o Teatro da Vertigem) e Arena conta Danton (direção de Cibele Forjaz). Bonassi foi o vencedor da bolsa de artes do DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio), com a qual viveu e escreveu em Berlin, em 1998. Desenvolveu, em parceria com Marçal Aquino, os seriados Força-tarefa, O caçador, Supermax e Carcereiros, todos para a Rede Globo de Televisão.
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