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Capa | Torquato Neto

O fora da lei

Toninho Vaz

A o longo de pelo menos dez anos como biógrafo de Torquato Neto, foram muitas as palestras e bate-papos em eventos literários ou salas de aula, em diversas cidades brasileiras. Quase sempre encontros marcados pela apatia geral das pessoas sobre a vida e/ou a obra do poeta. Torquato sempre foi um assunto para iniciados. Pouco se sabe dele. Um dia, porém, tornou-se especial neste contexto: foi durante o Salão do Livro de Picos, no Piauí, cidade onde nasceu e morreu o doutor Heli Nunes, advogado e promotor, pai de Torquato. Eu me dirigia a uma plateia de aproximadamente 60 pessoas, a maioria professoras da rede pública de ensino. Nenhuma participação durante quase uma hora de conversa, um monólogo, apesar dos meus esforços para criar um ambiente de discussão. No final, quando eu já agradecia a presença de todos e começava a me despedir, eis que uma senhora levanta o braço nas últimas filas da plateia e formula a sentença que veio animar o encontro:

“Professor, eu não posso sair daqui e voltar para casa sem saber uma coisa.”

“Pois não!” 

“Me diga: como eu posso recomendar aos meus alunos um poeta maldito?”

Houve um murmúrio geral, com muitas outras professoras assentando a questão colocada.

“Muito bem, o tema é pertinente.” 

Todas concordaram e voltamos a nos sentar. 

Eu então expliquei — em mais meia-hora de conversa — que a palavra “maldito” não devia ser interpretada no sentido bíblico; “maldito” por não ter a graça de Deus. Não. Em literatura, existe a herança dos poetas franceses da geração do absinto, Baudelaire, Rimbaud e Verlaine, os primeiros a serem chamados de “malditos”. Eles idolatravam e seguiam os passos do verdadeiramente maldito da história, o original, o errante François Villon (1431-1474), poeta, ladrão e boêmio. Os poetas “sujos” frequentavam a noite parisiense para esbravejar nas tavernas esfumaçadas: “Mort a Dieu”. Na bravura e no calor dos embates poéticos estava criada a mística do poeta maldito, aquele predestinado a morrer por amor, pela pátria ou pela liberdade. A ideia era levar um estilo de vida que se diferenciasse do resto da sociedade, aqui considerada como algo hipócrita e alienante. A evasiva acontecia pelo uso de drogas ou pelo comportamento extravagante. Ou pelas duas coisas.  

Assim aconteceu com Torquato Neto, o Breve, que viveu em uma época de poucas expectativas, quando se tinha que lutar — diariamente e sem tréguas — pela própria liberdade.


Balada homenageia Torquato

Da redação

   Divulgação
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George Mendes, primo de Torquato Neto, e Marcelino Freire, escritor e criador da “Balada Literária"

Nos dias 20 e 21 de setembro, o poeta Torquato Neto será homenageado em sua cidade natal, Teresina (PI). Estão programados bate-papos, shows e saraus poéticos. Tudo girando em torno da figura e da obra do poeta da terra. A programação inclui a participação dos músicos Carlos Rennó e Jards Macalé, do poeta Omar Salomão, além de artistas locais. “Será uma grande festa, vamos reunir os amigos do Torquato para celebrá-lo”, diz Wellington Soares, editor da revista de cultural piauiense Revestrés.

A festa em Teresina será uma prévia da 12ª Balada Literária, que homenageia o autor de “Pra dizer adeus” e acontece de 8 a 12 de novembro, na Vila Madalena, em São Paulo (SP). Por lá, segundo Marcelino Freire, criador do evento, vão passar amigos e parceiros de Torquato. A mesa de abertura vai reunir o filho do poeta, Thiago Nunes, e o primo do compositor, George Mendes. “Além dos parceiros que Torquato fez no Rio, muitos artistas de Teresina estarão presentes. Vamos estreitar distâncias e mostrar o quanto o poeta influenciou, e influencia, gerações de artistas. Será uma verdadeira geleia geral”, diz Freire. A programação completa da Balada está disponível em www.baladaliteraria.com.br


Torquato inédito 

Da redação

Está em fase de produção um disco com letras inéditas de Torquato Neto. O projeto é conduzido e financiado por George Mendes, primo do poeta piauiense. O álbum vai se chamar Inéditos entre nós e terá 17 faixas. Uma das músicas (“Quero viver”) já foi gravada por cantor e compositor Chico César em seu trabalho mais recente, Estado de poesia (2015). A maior parte das faixas do disco será gravada por artistas locais do Piauí. O objetivo é que até o final de 2017 o CD seja lançado. 

Moura passou a administrar o acervo de Torquato em 2013, após 38 anos sob responsabilidade de Ana Duarte, viúva de Torquato. Desde então, organizou e digitalizou todo o material, que será disponibilizado no site www.torquatoneto.com.br.

Em vida, Torquato havia deixado 33 composições. Após a organização do espólio, esse número chegou a 100 letras. É dessa pesquisa que saiu o material para o disco. “A impressão que tínhamos é que o Torquato era pouco preocupado com a organização de sua produção. Mas quando analisamos o acervo, descobrimos outra realidade. Os textos estavam bem organizados, alguns com data e até a indicação de quem ele gostaria que interpretasse a composição”, diz Moura, que mantém os originais e outros materiais (roteiros, fotografias, diários e fotografias) sobre o legado do poeta em uma sala de sua agência de publicidade em Teresina (PI). 
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