Conto | Pedro Carrano

Caso os tigres não me reconheçam

Volto para a floresta de onde não devia ter saído. Agora voltei a pé, assim como deve ser, depois de andar alguns quilômetros pela rodovia. Tirei a camisa no meio do caminho, pra tomar um pouco de sol na minha carcaça branca, quem sabe assim os tigres não fiquem chocados em me ver. A pele deles oscila entre o alaranjado e o amarelo. Acho que meus olhos nunca vão captar o tom exato. A metrópole ficou pra trás e me aproximo de alguns casebres, onde as pessoas olham com desconfiança. Alguns moradores mostram pavor. Estou indo direto pra dentro do mato fechado, na rede de escuridão estendida pelas árvores. Dos tigres, as pessoas desses arredores conhecem apenas o vulto noturno. Apenas o fedor e os gritos de gozo e de fúria. Muitos por ali juram que já viram os tigres. E acompanham programas na TV falando que tudo não passa de uma grande piada. Os tigres. E ainda dizem que eles estão condenados à extinção nalgum lugar longe do Oriente. 

Numa época — hoje já faz certo tempo — vivi uns sete meses, eu acho, ao lado dos tigres. Foi o suficiente para saber da sua inconstância, de quem vive como se não houvesse lugar nenhum para ser e estar. Um desterritório, daria para dizer. Os tigres se esgueiram entre as árvores, tentam resgatar o vento com seus próprios corpos. No fim da tarde, viram de barriga para cima e urram até eliminar todo o pus deixado pelas suas paixões mais violentas. Vez por outra as feras aterrorizam as cores falsas da cidade. Os tigres. Oscilam entre o mito e o estereótipo, entre a fantasia e o clichê — e adoram isso. A única coisa que deixam aos outros é uma aflição igual a quando vemos a liberdade deste quadrúpede perfeito e não sabemos como nos livrar do engulho na garganta. Da opressão no peito. Dos dentes cerrados. Do balanço no corpo que essa liberdade nos produz.

Depois de ter conhecido os tigres, eu havia retornado à cidade. Na época, já não trazia tantas toxinas no corpo. Meus pelos cresciam grandes, dourados, morenos. Dei a desculpa esfarrapada de que a água bateu nas canelas e eu precisava arrumar emprego. Quando vi, estava de novo encaixado numa mesa de escritório. Essa foi a minha justificativa, mas no fundo sei que não foi bem isso. Devo admitir que nasci nos compartimentos da cidade, aprendi com honra e louvor a lição de nunca deixá-los. Até defendê-los, se preciso. Os tigres pressentiam que um dia eu voltaria para a jaula. Agora, passados alguns anos, estou novamente entre as árvores da floresta. Não é preciso ir muito longe, os tigres não se afastam tanto assim. Caminham na fronteira da sociedade, dentro, fora. Estão perto, se afastam. Longe, mas presentes. Eles vão jogando com o espaço que os homens ainda deixam intocado. Mas não dá para esquecer: às vezes, sem que ninguém saiba, podem estar no subterrâneo de um prédio, prontos para surrupiar nacos de carne fresca. Logo no início da caminhada, perdi as referências e a direção do lugar por onde entrei. E esta é a primeira exigência se quiser encontrá-los. As árvores estão cheias de marcas de garras no seu lenho. Os felinos também costumam perder seus dentes cravados na madeira. Neste instante, sei que estão perto de mim. Um rufar imperceptível, ainda não estudado ou captado por instrumentos, ecoa pelo chão. Tenho uma vaga lembrança deste lugar. O excesso de informações de onde vim não me deixa retomar aquela velocidade, aquele sentido que eu adquiri ao lado dos tigres. Não consigo sequer uma descarga de emoções — minha razão cínica não permite — expurgando toda essa ciranda de demônios que me fragmenta. Ao reencontrar os tigres, talvez fique constrangido e não saiba como rir das suas piadas. Não vivi, fui homem-medíocre por toda a vida, como posso fingir que não tenho nome, ou recusar a identidade estampada na ponta dos meus dedos? Pior: e ainda ter vontade de rir verdadeiramente de mim mesmo. Como eles vão acreditar que finalmente deixei de lamber o trabalho e todo o resto que me esmaga o espírito? Outrora, chegava a varar um riacho saltando. Mas perdi o jeito.  

Escurece e os felinos não fazem contato. A essa altura não há mais volta, vou me encostar numa árvore. Talvez os tigres apareçam dançando com seus corpos esguios e me convidem a tomar parte nos seus bacanais. Terei então uma chance e alguns anos de sobra pra viver na brutalidade desses seres, sem qualquer refinamento. Ou talvez eles não me reconheçam — a metrópole alterou meu cheiro —, e prefiram devorar mais um invasor que coloca em risco o seu estar no mundo.


Pedro Carrano nasceu em São Paulo (SP), em 1980, e vive em Curitiba (PR). É jornalista e professor. Publicou os livros de poesia Três vértebras e um primeiro Testamento (2013) e Sanga (2017), além dos relatos jornalísticos Oaxaca e o poder popular (2011) e Cidade das pessoas (2016). Publica contos semanalmente na coluna “Mate, Café e Letras”, do site Terra Sem Males. 
Recomendar esta página via e-mail: