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Ensaio | Conceição Evaristo

Memórias da dor

O professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Eduardo de Assis Duarte analisa o projeto literário de Conceição Evaristo, uma das mais destacadas escritoras brasileiras contemporâneas, que resgata a fala e a memória da mulher negra, da senzala oitocentista à favela contemporânea

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A autora mineira Conceição Evaristo, que começou a publicar ficção na década de 1990.

Uma das autoras mais destacadas da produção literária contemporânea, Conceição Evaristo faz questão de explicitar seu projeto estético como umbilicalmente vinculado ao lugar de fala da mulher negra em nossa sociedade, até hoje marcada pelas heranças da escravidão. A partir mesmo da epígrafe acima, verifica-se o vínculo de seus escritos com o compromisso de resgate da memória negra sufocada pela modernização excludente e pelos mitos que lhe são correlatos: o da nação mestiça, na qual ninguém é branco nem negro; e o do povo alegre e acolhedor, fruto de uma escravização não violenta. De fato, o mito da democracia racial e a crença numa espécie de essência morena — fruto da miscigenação e responsável por forjar uma população avessa a conflitos — conseguiram e ainda conseguem obliterar entre nós evidências históricas como o racismo e a desigualdade socioeconômica entre a base e o topo da pirâmide social.

Tais construções imaginárias não têm mais qualquer credibilidade, nem científica, nem ética. No entanto, ainda perduram nos corações e mentes de muitos brasileiros. Do outro lado, postam-se os críticos dessa mitologia repetida cotidianamente na mídia e em certos produtos da indústria cultural. Entre os afrodescendentes, os questionamentos dos mitos nacionais fundadores têm como alicerce uma consciência de identificação étnica, que se faz presente em diversas formulações discursivas — do Teatro Negro ao Candomblé; da Umbanda ao Rap e ao Slam — e que dialoga com a literatura afro-brasileira, quando dela não provem diretamente.

Projeto Literário
Essa “consciência negra” de si e de sua condição, embasa desde o início o projeto literário de Conceição Evaristo e de muitos de seus pares, revelados como ela nas coletâneas da série Cadernos Negros, editada há 40 anos pelo grupo paulista Quilombhoje. Um dos traços marcantes dessa produção passa por “tomar a palavra” para dar voz à memória subalternizada que não quer se calar. E assim fazendo superar, desde dentro, a própria condição subalterna.

Entre essas “falas do Outro”, surgem as “vozes-mulheres” de Conceição Evaristo. Elas aparecem pela primeira vez em 1990, a partir da publicação do poema homônimo, entre outros cinco de sua autoria, no volume 13 dos Cadernos Negros: “A voz de minha bisavó ecoou/ criança/ nos porões do navio./ Ecoou lamentos/ de uma infância perdida./ A voz de minha avó/ ecoou obediência/ aos brancos-donos de tudo./ A voz de minha mãe/ ecoou baixinho revolta/ no fundo das cozinhas alheias/ debaixo das trouxas/ roupagens sujas dos brancos/ pelo caminho empoeirado/ rumo à favela”. O poema está disponível na internet e pode ser lido — e declamado — a qualquer momento. Na sequência, Conceição menciona a própria voz como composta por “rimas de sangue e fome” e encerra introduzindo a voz de sua filha que “recolhe em si/ a fala e o ato./ O ontem — o hoje — o agora”.

A prova do tempo
Passados 27 anos, este ainda é seguramente um dos textos mais impactantes da autora. Integra o volume Poemas de recordação e outros movimentos, lançado (somente) em 2008(!), bem como a terceira edição ampliada, de 2017. Mais que isto, é para mim, o poema-guia, que sinaliza o lugar de onde parte seu fazer literário. Ser a fala feminina do “Outro”, a inscrever tanto o sangue-mênstruo da vida que resiste, quanto o sangue filho da violência e do feminicídio, figura mais do que leitmotiv, pois não integra nenhuma proposta demagógica de “falar às massas” ou produzir best-sellers.

Bem mais do que isto, sustenta o compromisso realista de fazer da literatura espaço e receptáculo do que define como “escrevivência” enquanto marca definidora de seu trabalho com a palavra. Mas, atenção: tal postura não deve jamais ser confundida com o mero relato ou “reflexo” de ocorrências inerentes ao processo histórico e social. Entre o acontecimento em si e sua narrativa instala-se a escrita que dialoga com a vivência subalternizada. E esta interpreta e confere sentido aos fatos guardados na memória — e na imaginação — das vítimas e testemunhas. Entre o ato e a fala, entre a escuta e o texto, são muitas as mediações.

A autora afirma que não nasceu rodeada de livros, mas de palavras e de histórias: “Creio que a gênese da minha escrita está no acúmulo de tudo o que ouvi desde a infância. [...] Eu fechava os olhos fingindo dormir a acordava todos os meus sentidos. O meu corpo por inteiro recebia palavras, sons, murmúrios, vozes entrecortadas de gozo ou dor dependendo do enredo das histórias. De olhos cerrados, eu construía as faces de minhas personagens reais e falantes. Era um jogo de escrever no escuro. No corpo da noite”. E o palco destas histórias é a favela onde nasceu e que hoje só existe enquanto figuração mnemônica.

O veio ficcional da autora, exercido desde a década anterior, somente iria vir a público em 1991, no número 14 de Cadernos Negros. E nesse momento pode-se perceber a força poderosa de dois “contos-tragédia”, nomeados por seus protagonistas: “Maria” e “Di Lixão”. A primeira, empregada doméstica linchada pelos pacatos cidadãos da metrópole contemporânea, assaltados no ônibus em que ela, mãe de três filhos, viajava rumo ao subúrbio. E isto unicamente por ter sido poupada pelos ladrões, já que ex-companheira de um deles. O outro, criança sem pai, mãe, eira ou beira, morto na praça pública da indigência justamente por um de seus iguais... São enredos chocantes, inscritos sempre a partir de um ponto de vista interno, próximo do que mais tarde iria surgir nas páginas de Cidade de Deus, de Paulo Lins. E, também, narrativas exemplares do modo como a autora trabalha a linguagem, marcada pelo esmero construtivo que faz a ficção a todo instante visitar a palavra poética. Tais contos, além de “Ana Davenga”, “Duzu-Querença”, “Quantos filhos Natalina teve?”, “Lumbiá” e “Beijo na face”, entre outros publicados nos Cadernos, compõem o volume Olhos d’água (2014), finalista do Jabuti e já com diversas reimpressões.

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Trajetória incomum
Ao longo da década de 1990, mesmo com dois romances concluídos há tempos, Conceição Evaristo encontra abrigo para seus escritos unicamente nas páginas da série Cadernos Negros. E nelas vai mesclando contos e poemas só mais tarde reunidos em publicações individuais. Autora hoje premiada e traduzida em inglês, francês, espanhol e italiano, somente em 2003 consegue dar vida a Ponciá Vicêncio, protagonista do romance homônimo, assim mesmo em modesta edição publicada em Belo Horizonte. Apesar disso, o romance angariou simpatias no mundo acadêmico, sendo adotado em inúmeros vestibulares e objeto de teses e dissertações. Nele, somos jogados de chofre na brutalidade do processo histórico ao acompanhar a memória familiar da personagem, cujo avô mata a própria esposa e tenta o suicídio ao ver seus filhos vendidos mesmo depois da Lei do Ventre Livre.

Ponciá Vicêncio inaugura um procedimento que o leitor irá encontrar mais tarde em outros escritos de Evaristo, qual seja, o do bildungsroman feminino e negro. Fruto de uma apropriação paródica do modelo europeu oriundo de Goethe e tantos outros, em Ponciá, o que se tem é uma trajetória de perdas e abandonos, em que a mulher desterritorializada num espaço com o qual não se identifica percorre o caminho inverso aos dos vitoriosos heróis europeus. Assim, a “formação” existente na narrativa é de alguém despojado até do nome, pois o Vicêncio que lhe confere identidade provém dos antigos donos da terra em que nasceu, além de donos dos corpos e destinos de seus ancestrais.

Da infância à maturidade, a personagem padece na penosa construção de si como ser humano, nisto constrangida até pelo companheiro que a agride. Da senzala oitocentista à favela contemporânea, o romance brilha ao condensar todo um drama coletivo no destino da personagem. E em vez da linearidade ascensional própria ao romance de formação burguês, o que se tem é um percurso de perdas materiais, familiares e culturais, numa narrativa complexa e entrecortada pelos vazios de racionalidade da protagonista, a mesclar de forma tensa passado e presente, recordação e devaneio.

Memórias & becos
Becos da memória, só publicado em 2006, embora também escrito na década de 1980, faz a narrativa de Evaristo revisitar a favela, desta vez em processo de remoção. Ao contrário do Canindé, de Carolina Maria de Jesus, ou da Cidade de Deus, de Paulo Lins, a favela não tem nome, nem referências geográficas precisas, fato que amplia seu simbolismo. Seus moradores sentem a todo instante as rédeas curtas da precária liberdade que a vida lhes deu: dinheiro, comida, água, tudo míngua por entre becos e pessoas condenadas a desaparecer. Eles ocupam um espaço urbano para o qual, inexplicavelmente, não há Lei do Usucapião... E estão sendo despejados pelos advogados e tratores dos pretensos donos.

Com uma linguagem que desliza fácil do prosaico para o poético, e com uma sensibilidade que constrói o sublime por entre as vielas de um cotidiano opressivo, a autora enfrenta o desafio de fazer seu romance dialogar com o testemunho e a crônica da apartação social. O resultado é pungente: figuras como Tio Totó, três vezes viúvo e órfão dos próprios filhos, apontam para o abandono vivido no 14 de maio — penoso day after a marcar os de pele escura e seus descendentes; no contraponto, encontra-se Negro Alírio, grevista perseguido e refugiado na comunidade, empenhado numa resistência fadada ao fracasso, mas exemplar enquanto conduta ética. Romance coletivo e plural, Becos da memória apresenta uma narrativa descontínua, em que se destacam não os feitos de um sujeito, mas as vozes e gestos de muitos.

Evaristo não constrói subjetividades poderosas, mas perfis rarefeitos que, reunidos em coletividade, ganham em amplitude e apontam para as condições históricas de sua rarefeita existência material. E em meio ao mundo que desmorona como os barrancos e barracos atacados pelos tratores, emerge Maria-Nova, adolescente amadurecida na busca da compreensão e do verdadeiro sentido de tudo aquilo.

Já o volume de contos Insubmissas lágrimas de mulheres (2011) inova a partir mesmo do projeto de fazer a ficção não apenas simular o testemunho, mas também fazer com que as tramas individuais dialoguem e confluam para enredos maiores, que têm como ponto de encontro a condição feminina e negra numa terra marcada pelo mandonismo patriarcal oriundo do passado escravista. O livro reúne 13 narrativas, intituladas, sem exceção, com os nomes de suas protagonistas. O lugar social de cada uma já se explicita em nomes como “Rose Dusreis”, “Adelha Santana Limoeiro” ou “Saura Benevides Amarantino”, entre outras. Em todas essas histórias-mulheres vigora a violência, seja física, seja simbólica. E em todas perpassa uma voz narrativa feminina que, a modo de pesquisa ou reportagem investigativa, vai puxando pela memória das “depoentes” e colhendo os fios da vida pregressa de cada uma, para com eles tecer um painel da condição subalterna que entrelaça suas vidas.

Se, nas narrativas de Rubem Fonseca e epígonos, inclusive femininos, o ponto de vista da narrativa está centrado no agressor, via de regra psicopata, em Conceição Evaristo emerge o lugar de fala das vítimas. E ele surge banhado pela memória da dor, memória no entanto insubmissa, que clama por justiça e que, por vezes, a coloca em prática com as próprias mãos. Ao final, emerge o painel construído por tais individualidades, que ganham sentido histórico de resiliência e servem de alerta a um presente que cada vez mais aproxima feminismo de feminicídio.

Por fim, Histórias de leves enganos e parecenças, lançado em 2016 e já em segunda edição, inova ao inserir elementos do fantástico e do maravilhoso — ou “realismo anímico”, como defende a prefaciadora Assunção Sousa — no afã de ressaltar novamente a encruzilhada que aproxima a escrita da “vivência”: “Do que ouvi, colhi essas histórias”, afirma a voz narrativa, à moda de uma griotte contemporânea a inscrever dramas muitas vezes silenciados. E que buscam na inscrição ficcional formas de expressão do vivido que resiste ao esquecimento.


Eduardo de Assis Duarte é professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), autor de Jorge Amado: romance em tempo de utopia (1996) e Literatura, política, identidades (2005). Organizou, entre outros títulos, Machado de Assis afrodescendente: escritos de caramujo (2007), Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica (2011, 4 vol.), Literatura afro-brasileira: 100 autores do século XVIII ao XXI (2014) e Literatura afro-brasileira: abordagens na sala de aula (2014). Coordena o Portal Literafro, disponível no endereço: www.letras.ufmg.br/literafro. Vive em Belo Horizonte (MG).


TRECHOS


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Becos da memória, Pallas, 2013
Ameaçados, ou melhor, confrontados diante do desfavelamento, um desânimo amolecia a vontade de todos. Emoções confusas tomavam conta de Maria-Nova e a menina procurava se equilibrar em meio de tantos acontecimentos. [...] Percebia a estreita relação de sentido entre a favela e a senzala, mas mais entristecia ao perceber que nos últimos tempos ali se vivia de pouco amor e muito ódio. Um ódio que passara a existir entre pessoas que até então se gostavam tanto e que um sentimento fora dirigido à pessoa errada. (p. 191)

Ponciá Vicêncio, Pallas, 2003
O inspirado coração de Ponciá ditava futuros sucessos para a vida da moça. A crença era o único bem que ela havia trazido para enfrentar uma viagem que durou três dias e três noites. Apesar do desconforto, da fome, da broa de fubá que acabara ainda no primeiro dia, do café ralo guardado na garrafinha, dos pedaços de rapadura que apenas lambia, sem ao menos chupar, para que eles durassem até ao final do trajeto, ela trazia a esperança como bilhete de passagem. Haveria, sim, de traçar o seu destino. (p. 35)

Olhos D’água, Pallas, 2014
Di Lixão abriu os olhos sob a madrugada clara que já se tornava dia. Apalpou um lado do rosto, sentindo a diferença, mesmo sem tocar o rosto. O dente latejou espalhando a dor por todo o céu da boca. Passou lentamente a língua no canto da gengiva. Sentiu que a bola de pus estava inteira. 
O companheiro de quarto-marquise levantou um pouco o corpo e entre o sono olhou espantado, meio adormecido, para ele. Di Lixão encheu rápido a boca de saliva e deu uma cusparada no rosto do menino. (p. 77, trecho do conto “Di Lixão”)
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