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Entre o livro e o escritor

O jornalista e cronista Alvaro Costa e Silva narra a trajetória do mercado editorial brasileiro pelo filtro dos profissionais que transformaram o setor nos últimos 40 anos


Haja árvores. Pois o número é impressionante: dois milhões de títulos. O mundo produz um novo livro — milhares de cópias dele — a cada 15 segundos. Com tiragem média de dois mil exemplares, são quatro bilhões de volumes que invadem o planeta anualmente. O Brasil faz parte desse concerto gigantesco: por ano são cerca de 50 mil títulos, entre novos e reedições, o que prova o crescimento, nas últimas quatro décadas, do mercado editorial no país. Para entender as transformações no setor, o Cândido inicia a série de entrevistas “Os Editores”, com 12 profissionais que fizeram e estão fazendo essa história. 

“Como ponto positivo, podemos destacar a profissionalização da atividade editorial. Há 40 anos a totalidade das editoras era de empresas familiares, que empregavam pouquíssima gente além de filhos e amigos”, diz Luciana Villas-Boas, cuja trajetória é um exemplo das mudanças, pois veio de fora e mergulhou dentro do negócio: em 1995 deixou de trabalhar como jornalista — fazia o caderno “Ideias&Livros”, do Jornal do Brasil — para comandar a Record, um dos maiores grupos editoriais do país. Em 2012, nova mudança, mas sem se afastar em definitivo do meio: criou a agência literária Villas-Boas e Moss, com sede no Rio, além de Atlanta e Nova York, nos Estados Unidos.

Um agente literário para representar autores brasileiros no Brasil e no exterior, por exemplo, era algo ainda inconcebível na passagem da década de 1970 para a de 1980, período que marca uma guinada no mercado. O número total de editoras comerciais havia dado um salto para 481 empresas. Um levantamento dos livros mais destacados mostrava títulos da Brasiliense, Nova Fronteira, Civilização Brasileira, Globo, Codecri, Global, L&PM, Paz e Terra, Nórdica, Ática, Vozes, Record.

Depois de quase fechar nos anos 1960, a Brasilense vivia seu auge. A nova administração, tendo à frente o filho do historiador Caio Prado Júnior, Caio Graco Prado, mudou a política e a sorte da editora, que em 1981 lançou 415 títulos, num total de dois milhões de exemplares. O principal ingrediente do sucesso era a coleção “Primeiros Passos”, livrinhos leves e baratos, sem ultrapassar as 110 páginas, destinados à geração de estudantes ávida de conhecimentos gerais. O mais popular deles era O que é ideologia, de Marilena Chauí. O mesmo senso de oportunidade norteava a coleção “Cantadas Literárias”: Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva, se transformou em fenômeno, vendendo 120 mil exemplares nos dez primeiros meses. Um papel decisivo na virada da Brasiliense coube ao jovem editor Luiz Schwarcz (leia entrevista na página 28), que ingressou na firma por sugestão do político Eduardo Suplicy. Ao criar em 1986 sua própria casa, a Companhia das Letras, Schwarcz disse que se inspirara na Brasiliense e na Nova Fronteira.

A Nova Fronteira foi fundada em 1965 por Carlos Lacerda, que havia sido governador da Guanabara. Com sua morte, assumiram a empresa seus filhos Sérgio e Sebastião, em 1977. Naquele ano publicaram 44 títulos; em 1980 a produção subiu para uma média mensal de oito novos títulos; em 1990 chegou a um total de 1426 títulos divididos em 372 autores. Não havia suplemento nem revista especializada que não abrissem suas páginas principais para os lançamentos da Nova Fronteira. O carro-chefe era o Novo dicionário da língua portuguesa, de Aurélio Buarque de Hollanda (mais de dez milhões de exemplares vendidos).

Colaborador recrutado para trabalhar com a família Lacerda, Pedro Paulo de Senna Madureira era o responsável pelo toque de Midas na Nova Fronteira. Conseguiu que o romance Memórias de Adriano, da francesa Marguerite Yourcenar, autora até então desconhecida no Brasil, vendesse 150 mil exemplares em 1980. Além de Yourcenar, o elenco de autores estrangeiros era de primeira linha: Hermann Broch, Thomas Mann, Gunter Grass, William Faulkner, Milan Kundera, Umberto Eco, Italo Svevo, Italo Calvino. Para reforçar o caixa que tornava possível a edição dos medalhões de prestígio, tiragens e mais tiragens das novelas policiais de Agatha Christie e Georges Simenon.

“Um dos segredos do Pedro Paulo era que ele ia encontrar pessoalmente os escritores na Europa. Descobria-os tirando férias numa cidadezinha e, na base da conversa, conseguia comprar o direito de tradução sem intermediários. Uma prática que se tornou impossível depois das grandes feiras internacionais. Além disso, ele mantinha ‘olheiros’ em Nova York, Paris, Londres, que lhe passavam todas as novidades que valiam a pena”, conta José Mario Pereira, que deu seus primeiros passos na profissão como assistente de Pedro Paulo de Sena Madureira e hoje é dono da Topbooks.

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Maria Amélia Mello trabalhou muitos anos na editora José Olympio e hoje está na Autêntica. 

Início da modernização
Dois nomes são incontornáveis pelo que anteciparam no processo de modernização das editoras: Ênio Silveira e Jorge Zahar. À frente de uma reformulada Civilização Brasileira, veterana fundada na década de 1930, Ênio montou uma editora eclética — entre 1961 e 1963, chegou a publicar um livro por dia — com ênfase em autores de esquerda. Não à toa, fez a primeira edição brasileira de O capital e publicou Gramski, Luckás, Sartre e Isaac Deutscher, o biógrafo de Trotsky. Curiosamente, foi um profissional marcado pelo modo americano de trabalhar: formou-se em editoração na Universidade de Columbia e estagiou na mitológica Alfred A. Knopf. Daí que sempre deu importância à propaganda e promoção do livro junto aos leitores.

A editora Maria Amélia Mello — ex-José Olympio e atualmente na Autêntica — conta que iniciou a carreira na Civilização Brasileira, a convite de Ênio Silveira, com a missão de montar o departamento de assessoria de imprensa, em 1976. “Como havia muitos suplementos literários naquele tempo, eu comecei a fazer longas entrevistas. A verba era curtíssima, fazíamos as fotos dos autores da casa num lambe-lambe de praça. Lembro que o Márcio Souza, que estava lançando o romance Mad Maria, teve uma cobertura enorme em jornais do país inteiro. Mas sempre saía o mesmo texto e a mesma foto de lambe-lambe.”

Fundada em 1957, a Zahar Editores — com seu famoso logotipo: um grande Z cortado por um livro aberto — atingiu no início de 1981 o milésimo título. A média mensal era de seis edições novas e seis reimpressões por mês, em sua maioria na coleção “Biblioteca de Ciências Sociais”, referência para a formação de gerações de universitários e intelectuais. Em 1985 Jorge Zahar criou uma nova casa com seu nome, tendo com sócios os filhos Ana Cristina (parte editorial) e Jorginho (comercial e administrativo). Desde então foram mais de três mil títulos publicados, mantendo o interesse nas ciências sociais e fortalecendo as áreas de filosofia e psicanálise, além de voltar-se para música, matemática, gastronomia, biografias e literatura clássica.

Editor da revista de ensaios Serrote, do Instituto Moreira Salles, Paulo Roberto Pires está lançando A marca do Z: A vida e os tempos do editor Jorge Zahar, obra que traça não só o perfil do fundador — sua amizade com Ênio Silveira e Paulo Francis — como também a história da empresa familiar. “Eu fiz a última grande entrevista com o Zahar, dois meses antes da morte dele, em 1998. Ele sempre teve uma ótima relação com jornalistas. Quando eu era repórter de livro, a gente se falava muito. Mas apenas para tratar da editora. Era avesso a falar dele ou a ficar em evidência. Só tirava foto para jornal ao lado de seus livros, quase escondido”, conta Paulo Roberto, para quem a falta de livros de memórias escritos por editores, prática comum nos Estados Unidos e Europa, é uma lacuna do ramo brasileiro.

Em suas conversas com a imprensa, Jorge Zahar costumava dizer: “O mais importante não é o editor ser a fonte. É ser o interlocutor”. A frase revela uma aproximação que se tornaria, com o tempo, contrato profissional, abrindo mais uma etapa da evolução editorial no país: quem antes fazia jornal passou a fazer livros. Uma leva de jornalistas — Vivian Wyler, Maria Amélia Mello, Luciana Villas-Boas, Matinas Susuki, Isa Pessoa, Paulo Roberto Pires, Flávio Moura, Cassiano Elek Machado, Miguel Conde, entre outros — chegou às editoras para ocupar cargos de chefia".

“A imprensa diária e semanal se profissionalizou no Brasil antes da indústria editorial”, comenta Luciana Villas-Boas. “Desde o início da década de 1990, a crise da imprensa, que já vem de longe, despejou no mercado do livro muitas dezenas de profissionais da melhor qualidade. Imagine que, quando entrei no Jornal do Brasil, em 1985, o copidesque era composto por Ivan Junqueira, que veio a integrar a Academia Brasileira de Letras, pelo grande poeta Leonardo Fróes, pelo dicionarista Joaquim Campello, por João Máximo e Marcos de Castro. Como não aprender a escrever e editar com uma turma dessas lhe dando dicas diárias? Juntando a lição digamos mais técnica da edição ao tino do repórter para sentir de onde sopra e para onde vai o vento, bons jornalistas viraram editores de livro”.

Diálogo com autores
Nos últimos 20 anos, com o aparecimento de cursos de graduação em produção editorial, com destaque para os da UFRJ e da USP, surgiu uma mão-de-obra especializada. “Mas o pessoal autodidata, que aprendeu fazendo e que veio do meio jornalístico, continua em atividade. É um fenômeno que não é só brasileiro, é também americano e europeu, o de jornalistas que chegam à profissão para dirigir selos e pautar as linhas editoriais dos grandes grupos”, comenta Paulo Roberto Pires.

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Editor da revista de ensaios Serrote, Paulo Roberto Pires está lançando a A marca do Z: A vida e os tempos do editor Jorge Zahar.

Esse novo editor, em sua condição de meio forasteiro, trabalha bem mais próximo do autor, com liberdade de discussão, sugestão, remontagem de textos — e até de profundos cortes e mudanças. No ramo, conta-se a seguinte piada: um editor e um jornalista estão morrendo no deserto quando avistam um oásis. O jornalista imediatamente bebe água para saciar a sede. Enquanto isso, o editor começa a fazer xixi no lago: “Estou dando uma melhorada na qualidade da água”.

“Esse diálogo sempre existiu”, conta José Mário Pereira. “Basta lembrar que Vida secas, de Graciliano Ramos, iria se chamar O mundo coberto de penas. Quando o livro estava para rodar na gráfica, o título mudou. Não é segredo que o original de A náusea, de Sartre, tinha mais de 500 páginas e foi reduzido. O primeiro livro da Lia Luft foi inteiramente canetado pelo Pedro Paulo de Sena Madureira. Eu vi. É o caso de uma autora que confiava na leitura e nas sugestões do seu editor.”

Ponto de virada
Com o advento da Companhia das Letras na década de 1980, o sarrafo subiu. A empresa de Luiz Schwarcz tinha uma estratégia definida: a coerência da linha editorial tinha de estar acima das oportunidades de mercado. Com suporte financeiro do Unibanco, acertou na mosca logo em um de seus primeiros lançamentos: Rumo à estação Finlândia, de Edmund Wilson, vendeu 110 mil exemplares. Não deixou de ser uma surpresa, pois o livro é um estudo crítico e histórico das teorias revolucionárias europeias que estabeleceram as bases da Revolução Soviética.

Além da qualidade dos textos, a Companhia das Letras (nome derivado da organização de comércio dos tempos coloniais Companhia das Índias) se destacou pelo bom gosto de suas capas, pela sofisticação na apresentação gráfica e artística e pelo esmero nas traduções e revisões — um padrão que as outras editoras seguiram ou tentaram seguir, sob o risco de não conseguirem competir de igual para igual. Foi bom para todo mundo, sobretudo para o leitor, que, em 1996, ainda viu surgir a Cosac Naify. Esta, além da qualidade das publicações, levou ao paroxismo a ideia do livro como objeto de arte. Com problemas financeiros, fechou em 2015.

Na década de 1990 o ramo editorial praticamente dobrou de tamanho. Os grupos estrangeiros enxergaram o Brasil como um mercado em expansão e começaram a investir pesado, comprando e fundindo editoras. A própria Companhia das Letras entrou na dança: em 2011 foi incorporada pela Penguin, gigante do Reino Unido. “No mundo inteiro as empresas de mídia começaram a trabalhar num modelo de concentração. A formação do conglomerado brasileiro e a chegada do capital estrangeiro se espelham nessa tendência. Eu mesmo entrei no mercado, em 2003, com a chamada Operação Planeta. Passei um mês na Espanha para descobrir que sabia de edição só até um ponto. Na volta, passei para outro ponto”, diz Paulo Roberto Pires.

O modelo internacional sedimentou a presença entre nós do agente literário: “Foi uma tremenda bola dentro. Editor só deve discutir com o autor sobre o livro, e não sobre dinheiro”, acredita Paulo Roberto. Profissional da área, Luciana Villas-Boas mapeia a situação: “Os editores brasileiros aprenderam a se relacionar com os agentes a partir do exterior. Até pouco tempo, não havia agentes no Brasil representando autores brasileiros. A atividade só existia como coagenciamento de catálogos estrangeiros. Ainda assim, os editores que frequentam as feiras internacionais compreendem a atividade com a perfeita noção de que o agente consciencioso só pode trazer vantagens e facilitar o trabalho”.

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Para a agente literária Luciana Villas-Boas, a crise da imprensa escrita 
“despejou no mercado do livro muitas dezenas de profissionais da melhor qualidade”.

Crise
A partir de 2015, atrasos nos pagamentos e em editais de compras de livros, com o agravante da suspensão de programas governamentais, fizeram as editoras entrar em parafuso e amargar uma crise que ainda não terminou nem dá sinais de recuperação. Os principais programas do Ministério da Educação, o PNLD (voltado para o setor didático) e PNBE (literatura para bibliotecas escolares), praticamente deixaram de existir.

Para Luciana Villas-Boas, não é civilizado ser contra a oferta de livros a estudantes e professores. As compras do governo, a partir do fim dos anos 1990, priorizaram a produção nacional, dando uma sobrevida à literatura brasileira. Alguns clássicos, que estavam esquecidos, voltaram à baila nesse processo. “Mas há muito a criticar na maneira como essas aquisições de livros para escolas e bibliotecas eram feitas”, diz Luciana. “Primeiro, pela preguiça do Estado de fazer o difícil: aprimorar o sistema de ensino e capacitar os professores a formar leitores. Segundo: torrou-se dinheiro do contribuinte com livros que eram jogados no lixo ou deixados mofando ou ao relento nas escolas. Outro ponto negativo é que o editor se viciou nas tetas do Estado. A maneira brusca como as compras terminaram, no segundo mandato da presidente Dilma, foi profundamente traumática. A recuperação do setor só agora está começando, com timidez. Mas choque de realidade sempre traz aspectos positivos”.

Hoje, apesar do cenário pelo avesso — “cada vez se faz mais livro para quem não gosta de ler”, diz Paulo Roberto Pires a respeito das listas dos mais vendidos e da presença esmagadora de youtubers nas feiras, festas e bienais —, algumas editoras independentes, surgidas em meio à pior depressão econômica do país desde os anos 1940 e a uma queda de 10% no setor editorial brasileiro, mostram que é possível continuar ousando. E com qualidade.

É o caso da carioca Mórula, que abriu em 2012 sem capital inicial, sem profissionais com experiência no mercado, sem um plano de negócios específicos — e que, contra todas as expectativas, está indo muito bem, obrigado. Publicou livros do historiador Luiz Antônio Simas (Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea), uma antologia de contos inspirados em canções de Noel Rosa (Conversas de botequim) e a coleção “Aldir 70” (cinco volumes com textos do compositor e cronista Aldir Blanc). “Somos herdeiros das transformações do mercado brasileiro nos anos 1990. Nossa preocupação com a qualidade gráfica (de impressão, de papel, de acabamento) e com o projeto gráfico (design, direção de arte) é enorme. Os trabalhos têm a mesma qualidade daquele feito pelas editoras de grande porte. Um bom livro não é só texto, é também agradável de ler, um objeto duradouro e esteticamente valorizado”, diz a editora Marianna Araújo.
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