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Entrevista | Luiz Schwarcz

“Somos menos provincianos que os editores americanos e ingleses”

O fundador da Companhia das Letras abre a série de entrevistas com editores brasileiros que o Cândido inicia a partir desta edição. No bate-papo com o escritor Bernardo Carvalho, Luiz Schwarcz, entre outros assuntos, fala sobre o início de sua editora e o atual momento do mercado editorial 

      Fotos: Rafael Roncato
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Luiz Schwarcz ironiza o papel do editor iluminista: “É mais um oportunista”, diz. Ainda assim, a Companhia das Letras, que ele fundou com a mulher, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, em 1986, sempre esteve vinculada a um projeto de educação pela leitura, num país onde a educação não costuma ser prioridade. Formado em administração, Schwarcz foi diretor da Brasiliense, antes de se lançar no mercado com a sua própria editora, inicialmente instalada em duas salas nos fundos da gráfica do pai, no Bom Retiro. 

Ele esclarece que Rumo à estação Finlândia, de Edmund Wilson, não é, como costuma ser apontado, o marco-zero da Companhia das Letras — “na verdade saíram quatro [outros livros] no mesmo dia. Esse foi o mais bem-sucedido”. Schwarcz acha difícil construir hoje uma editora só literária. Questiona lugares-comuns, sem esconder que uma editora precisa, de fato, vender livros: “Por que uma lista de best-sellers menos literária significa que o país está mais ignorante? Pode até ser o contrário!”.

Sobre uma possível fórmula para produzir um fenômeno literário, diz que “a graça é que é sempre inesperado”. “No fundo, quem faz é o público, o boca-a-boca”, completa. Ele também se diz arrependido de ter recusado alguns livros de autores brasileiros: “Acho que em muitos casos nós erramos. Também há títulos dos quais me arrependo de ter publicado, mas aí é difícil falar”.

Confira, a seguir, a entrevista completa.

A Companhia surgiu com Rumo à estação Finlândia, do Edmund Wilson...
Criou-se o mito de que esse foi o primeiro livro, mas na verdade saíram quatro no mesmo dia. Esse foi o mais bem-sucedido dos quatro.

O que Rumo à estação Finlândia significava para você?
Eu achava interessante para o ambiente intelectual brasileiro um livro de não-ficção, narrativo, super bem-escrito, anglo-saxão. Esse livro reunia qualidades que faltavam à academia brasileira. Era um ensaio mais literário e mais acessível. Tive a intuição de que poderia ser um bom porta-estandarte para a editora. Mas eu não considerava que a editora estivesse começando com ele.

A editora tinha um sentido iluminista, de suprir lacunas no país?
Seria um pouco pretensioso assumir esse papel. Abrir com livros de não-ficção narrativa, que fossem mais interdisciplinares, me permitia falar com um público maior do que aquele da academia. Tinha um certo raciocínio nisso, mas nenhum editor é iluminista; é mais oportunista do que iluminista.

Que livro você escolheria para abrir uma editora hoje?
Naquela época, o mercado era mais restrito. A Companhia, atingindo um público mais elitizado, com livros bons mas acessíveis, aparecia como uma editora que visava ampliar o mercado literário e intelectual brasileiro. Hoje, se aparecer uma editora como a Companhia, se ela fizer só isso, será considerada uma editora de nicho. Há alguns anos, ao abrir a empresa para outros selos não literários, defendi essa ideia contra muita gente. Acho difícil você construir hoje uma editora só literária. Se não estivéssemos falando com os jovens, com um público feminino que prefere literatura mais comercial, seria muito mais difícil sobreviver. Também não chego a assinar embaixo a frase do Lobato: livro bom é o que é lido. É preciso valorizar a leitura crítica, mas impor menos e falar com leitores diferentes de nós. 

Você teria que incluir o livro de um youtuber no lançamento da editora? 
Não sei se no lançamento, mas já prepararia o caminho para ter um selo paralelo. No mundo inteiro hoje, você vê esse fenômeno de editoras exclusivamente literárias se abrindo para outros públicos, como a Gallimard. Até no mercado europeu, onde você consegue fazer best-sellers de qualidade com muito mais facilidade do que no Brasil. 

No início, a Companhia parecia não ter muito interesse por escritores brasileiros...
Tinha, sim. Mas eu também tinha ética suficiente e dinheiro insuficiente para sair por aí fazendo ofertas e tirando autores de outras editoras. Comecei com Garotos da fuzarca, do Ivan Lessa. Depois, o Scliar me entregou, se não me engano, A orelha de Van Gogh. O Rubem Fonseca veio um pouco depois. Procurei editá-lo desde o início, mas a agente dele, Carmen Balcells, achava que a Companhia era muito pequena. Depois, num jantar, contei para ele sobre os autores que estávamos publicando, Don DeLillo, John Cheever. Ele ficou espantado, achava que ninguém conhecia o Don DeLillo no Brasil. Saiu da Carmen Balcells e veio para a Companhia.

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Você acha que o país é mais ou menos educado hoje?
Não tem dúvida de que é mais educado. Na época em que a Companhia surgiu, era possível um jovem de classe média alta ler logo de cara O nome da rosa, que se tornou um grande best-seller ao lado dos romances de tribunal do Scott Turow. Hoje, um jovem que foi educado em escolas públicas ou que cresceu com os projetos sociais que tiveram início com o Fernando Henrique Cardoso e se desenvolveram ainda mais com o Lula necessariamente vai começar por outra coisa. Naquela época, o mercado não falava com esse público. Você não tinha livros de celebridade para um segmento mais popular. Ou youtubers que criam identificação com meninas de 12, 13 anos. Essas pessoas são filhas do Harry Potter e dos planos educacionais do governo em escolas públicas. Leram livros infantis de boa qualidade ou mediana e vão escolher o primeiro livro por identificação, orientados por mídias sociais. Muitas vezes, olhamos para isso com preconceito, mas não é necessariamente um fenômeno ruim. Por que uma lista de best-sellers menos literária significa que o país está mais ignorante? Pode até ser o contrário. Tem pessoas entrando no mercado mais cedo.

Você acha que esse cara que começa lendo youtubers passa depois para outra coisa?
Não dá para saber. Pode passar. A relação identitária que ele estabelece com o livro é muito forte. O público que frequenta as bienais é de periferia, com poder aquisitivo baixo, mas reage aos ídolos e aos livros com uma emoção que lembra o fenômeno da beatlemania. Será que isso é ruim?

A associação com a Penguin (hoje parte da Random House, maior grupo editorial do mundo) veio no momento em que você entendeu que precisava conquistar esse público?
Foi uma das razões. Eles nos procuraram em 2011. Achavam que o Brasil ia crescer educacionalmente e digitalmente. Eu precisava aprender a trabalhar com outros públicos. A Penguin sempre foi muito mais comercial do que literária. O nosso projeto educacional ruiu quando o Brasil começou a enxugar os investimentos em educação, inicialmente por falência econômica e agora, com os novos governos, por falência de vocação.  

O crítico literário inglês James Wood disse recentemente, em entrevista à Folha de S.Paulo, que há uma padronização da literatura promovida pelas grandes corporações editoriais. O que acha disso?
Não concordo. Acho o James Wood muito talentoso, mas ele gosta de provocações. Por que, ao defender o realismo, ele precisa atacar escritores como o Don DeLillo ou o Paul Auster? Acho interessante discutir o projeto literário pós-moderno, mas você não precisa eleger um projeto literário contra outro.

Você não acha que há uma padronização por um tipo de literatura que possa vender mais?
Não. O próprio James Wood dá o exemplo da negação disso. Os dois escritores que ele cita e defende na entrevista, o [Karl Ove] Knausgaard e a Elena Ferrante, são parte desse mercado. Quando, no passado, a inovação literária foi majoritária? Vivemos numa economia de mercado. É do jogo.

Você vende autores brasileiros fora do Brasil. Houve uma época em que era preciso apostar no exotismo. E hoje?
Na Europa, ainda há nichos ou áreas muito literárias, na França, na Alemanha, desde editoras pequenas até outras, como a Gallimard, que têm uma militância por literatura estrangeira. Não é fácil. Há ondas. Nunca houve uma onda brasileira do ponto de vista comercial, seja de literatura de qualidade, seja de crime, seja de exotismo. O exotismo é uma faca de dois gumes. Não cria interesse com substância.

Se você fosse um editor argentino, provavelmente não teria a mesma dificuldade em vender seus autores. Você acha que há preconceito em relação à literatura brasileira?
É mais fácil para um argentino, porque há leitores de espanhol dentro das editoras. Não acho que haja preconceito. Que eu saiba, nenhum argentino se transformou em grande sucesso literário. O César Aira pode aparecer nas cotações do Nobel, mas ele faz parte de um nicho no exterior. Nas agências literárias, há agentes que falam espanhol. O brasileiro vai sempre depender de um parecer de fora. E os editores anglo-saxões desconfiam dos pareceres feitos fora da equipe da empresa.

Como se faz um fenômeno literário?
A graça é que é sempre inesperado. O próprio Knausgaard é um exemplo. Ou, pensando numa literatura menos sofisticada, mas boa, como o Stieg Larsson. No fundo, quem faz é o público, o boca-a-boca. No caso da Elena Ferrante, ela estava em pequenas editoras no mundo inteiro, até na Itália.

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O escritor Bernardo Carvalho entrevista o editor Luiz Schwarcz na sede da editora Companhia das Letras, em São Paulo.

Você também escreve ficção. A experiência de escritor mudou a sua visão do que é ou deve ser um editor?
De alguma forma, me ajudou a compreender a fragilidade que é entregar um original, a posição de força que um editor tem, o quanto está em jogo emocionalmente na hora de divulgar um livro. Aprendi um pouco mais sobre a vaidade que está implícita no ato de transformar em público uma coisa na qual você trabalhou tão solitariamente.

Você se arrepende de ter recusado (ou publicado) algum livro?
Vários autores brasileiros foram recusados pela Companhia e acho que em muitos casos nós erramos. Também há títulos dos quais me arrependo de ter publicado, mas aí é difícil falar.

A seu ver, para onde vai a literatura brasileira?
Não vejo só um caminho. Na poesia, tem coisas muito boas nessa nova geração. Tem escritores que eu vim a ler depois de publicados, como o José Luiz Passos, que me agrada bastante. Hoje também já há agentes procurando novos autores e oferecendo às editoras.

Qual a vantagem de ser um editor brasileiro em relação aos estrangeiros?
Até há pouco tempo, tínhamos a vantagem de ser um país que estava investindo na educação para um público mais virgem. Isso era uma vantagem nossa que diminuiu muito. Isso permitia a uma editora crescer para 5 mil livros e ser tão ou mais rentável do que uma editora de best-sellers. Diminuiu por causa do fracasso do projeto educacional governamental em todos os níveis. Isso nos desqualifica. Por outro lado, acho que somos menos provincianos que os editores americanos e ingleses, por exemplo. Estamos interessados em literatura de todos os países. Veja o surgimento de novas editoras literárias de qualidade. Somos capazes de identificar um bom livro e nos arriscar a vender dois mil exemplares, o que fora está se tornando cada vez mais raro. Quantas editoras no mundo conseguiriam fazer o Raduan Nassar ou o Dois irmãos vender centenas de milhares de exemplares, como nós conseguimos? Ainda tem muita coisa boa e da qual se orgulhar no Brasil. Ainda vibro com os nossos lançamentos, mas estou assustado e pessimista em relação a quanto tempo isso vai durar e que papel eu posso ter nisso tudo.  
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