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Poema | Ruy Proença

Procuro a morte

quero morrer. procuro um jeito. já tentei roleta russa com arma. já experimentei salada temperada com raticida. realidade ou fantasia? procurei um matador do bairro. pergunto quanto cobraria pra me matar. ele: não, isso não posso fazer. matar a irmã de amigo, não. insisto. sem convencê-lo, resolvo perguntar: quanto custa matar alguém? depende de quem. como começou na profissão? minha família foi morta numa chacina. comecei a matar pra me vingar. o primeiro foi mais difícil, depois acostuma. passou um tempo, fiz um aborto. abortar é uma mistura de homicídio com suicídio. a gente acostuma. hoje trabalho como cuidadora de doentes e idosos. sempre gostei. meu pai morreu. preciso falar sobre isto.

     Ilustração: Caco Galhardo
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Ruy Proença nasceu em São Paulo, em 1957. É poeta e tradutor. Publicou, entre outros, os livros de poesia Como um dia come o outro (1999), Visão do térreo (2007) e Caçambas (2017). Traduziu os livros Boris Vian, poemas e canções (2001), Histórias verídicas, de Paol Keineg (2014) e Dahut, de Paol Keineg (2015). Vive em São Paulo (SP). 
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