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Reportagem | Manoel Carlos Karam

Roteiro de uma jornada experimental

O legado do escritor Manoel Carlos Karam está, uma década após sua morte, quase totalmente editado e atrai a atenção de leitores, escritores e até dramaturgos, que encenam os textos ousados e inventivos do catarinense que se radicou e escreveu ficção em Curitiba

Marcio Renato dos Santos


Dez anos após a morte de Manoel Carlos Karam (19472007), quase todo seu legado literário, que soma 14 títulos, está — enfim — disponível em formato de livro. Falta apenas a edição de Mesmas coisas, obra inacabada que segue em busca de recursos, por meio de financiamento coletivo (www.catarse.me/karam), e deve ser publicada no primeiro semestre de 2018. O primeiro livro do autor, Sexta-feira da semana passada, de 1972, que Karam renegava, acaba de ser reeditado pela Arte & Letra.

“Karam esteve à frente de toda uma geração e ele — sozinho — foi um movimento literário, um submarino que só agora está emergindo”, diz o escritor Carlos Henrique Schroeder, autor, entre outros livros, da coletânea de contos As certezas e as palavras — Prêmio Clarice Lispector da Fundação Biblioteca Nacional, e do romance As fantasias eletivas (2014).

Em 2013, ele organizou uma programação em homenagem ao escritor na Feira do Livro de Rio do Sul, cidade onde Karam nasceu. Todos os espaços do evento receberam nomes de livros do autor e Schroeder também editou um caderno de leituras, com trechos e exercícios, distribuído gratuitamente nas escolas.

O legado de Karam também desperta atenção de escritores contemporâneos e de profissionais do teatro — o autor também escreveu textos dramáticos. O projeto Mesmas Coisas encena, com direção de Nadja Naira, texto homônimo e fragmentos do outros títulos karanianos por meio da montagem “A serenata”, apresentada em Curitiba no segundo semestre deste ano e durante a primeira edição da Flibi, a Festa Literária da Biblioteca Pública do Paraná, em outubro. 

Essa movimentação, em alguma medida impulsionada pela Kafka Edições, que publicou 7 títulos, entre eles Jornal da guerra contra os taedos (2008) e Godot é uma árvore (2015), conquista leitores e ajuda a desmontar alguns equívocos ditos, e repetidos, a respeito da literatura que o Karam produziu. O escritor e roteirista Marçal Aquino, por exemplo, questiona o rótulo de “experimental”. 

“Karam nunca é hermético ou obscuro. Ao contrário. Sua escrita é de uma clareza abusada. Porém, está o tempo inteiro desafiando a imaginação do leitor com jogos aliciantes. Ou seja, exige um leitor com imaginação”, afirma Aquino, autor, entre outros livros, de Faroestes (2001) e Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios (2005).

Aquino conheceu a literatura de Karam na metade da década de 1980, período em que trabalhava só à noite, no fechamento de um jornal e que, segundo ele mesmo, tinha tempo durante o dia para ler: “Bons tempos! Comecei a gostar do Karam a partir de Fontes murmurantes (1985), um livro que me atraiu por destoar do que se publicava naquele momento — textos colados ao real. É um romance (ou uma sucessão de pequenos contos e aforismos) que flerta o tempo inteiro com o nonsense e com o questionamento da realidade”.

Katia Kertzman
Karam
Manoel Carlos Karam em Paris, em 1997

Sem margens: possibilidades

Carlos Henrique Schroeder analisa que os livros de Karam, seja Cebola (1995), vencedor do Prêmio Cruz e Sousa, ou Encrenca (2002), não têm “margens” e muitos são difíceis de serem atrelados a um gênero específico, “o que é maravilhoso”. “Foi Karam quem me ensinou a palavra ‘possibilidade’. Sim, a possibilidade de convulsionar uma narrativa, a possibilidade de rir do leitor, de si mesmo, de tudo, e também um segredo: a literatura não tem margens, é um campo vasto e uma solidão compartilhada”, diz Schroeder, acrescentando que os livros do autor são engraçados, irônicos, originais mas, sobretudo, vivos.

Para o escritor Joca Reiners Terron, os textos de Karam desprezam a convenção realista e amam a confusão surrealista. Ele acrescenta que a literatura karaniana se voltou contra o status quo da literatura brasileira e sua permanência é indecifrável, “ao menos por enquanto — talvez para sempre”.

Terron diz ter conhecido Karam de três formas, todas ao acaso. Primeiramente, quando tinha 15 anos e leu aforismos dele publicados em um fanzine, no fim da década de 1970, da banda curitibana A Chave — “que chegou pelo correio, sem que eu tivesse solicitado”. Depois, ao ler um conto do autor, “Orelha para um livro de Serafim Barth”, na primeira edição do Nicolau, suplemento editado pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná — “uma amiga me presenteou sem que eu pedisse”. E, enfim, mais tarde, quando Karam telefonou para Terron — “sem que eu tivesse dado meu telefone”.

Os dois se tornaram interlocutores e Terron editou dois livros de Karam, Comendo bolacha maria no dia de São Nunca (1999) e Pescoço ladeado por parafusos (2001), ambos pela editora Ciência do Acidente. Terron observa que há pouco interesse pela obra do amigo. “Mas isso não é mérito dele [Karam]: qualquer obra literária minimamente desafiadora tem poucos leitores no Brasil”, completa. Marçal Aquino acrescenta que escritores da estirpe do Karam sempre vão encontrar um público atento: “Pequeno? Grande? Isso importa?”.

Carlos Henrique Schroeder, que nasceu em Trombudo Central, situada a poucos quilômetros de Rio do Sul, cidade natal Karam, comenta que em Santa Catarina o escritor é conhecido no meio acadêmico e pelos escritores, “mas não é tão lido como deveria”. “Isso é normal, pela proposta de sua escritura. Mas o Brasil vai descobrindo o Karam aos poucos, tenho contato com leitores dele em diversos Estados brasileiros”, comenta.

Thiago Tizzot, editor da Arte & Letra, observa que há público para os quatro livros do Karam que o selo editou, entre os quais o póstumo Algum tempo depois (2014). “De fato, tem pessoas que procuram espontaneamente [os títulos que editamos dele]. Isso é bacana. Mas, de toda forma, é necessário divulgar a obra. É um trabalho de construção”, afirma.

Katia Kertzman 
Karam
Karam esteve em Roma, na Itália, em 1996 e não deixou de visitar o Coliseu.


Quebra-cabeça karaniano

O músico Bruno Karam, hoje com 40 anos, diz que, cada vez mais, compreende o legado literário de seu pai. Ele está lendo obras de autores que o Karam costumava ler, entre eles Georges Perec e Julio Cortázar, e também aprecia filmes que o pai admirava, principalmente longas-metragens de Federico Fellini e Luís Buñuel: “É preciso ter repertório para compreender, plenamente, os livros do Karam. Quem conhece os autores com com quem ele [Karam] dialogou, daí, tende a se encantar a literatura karaniana”.

Marçal Aquino tem a impressão de que Karam pertence à linhagem dos transgressores, de Samuel Beckett a Campos de Carvalho, incluindo outros artistas da chamada “prosa do absurdo”. “[Eles] sempre vão encontrar público antenado o suficiente para cultivá-los com fervor”, diz.

Joca Terron cita Richard Brautigan e Donald Barthelme, além dos já mencionados Perec e Cortázar, como artistas com quem Karam dialogou. Já Carlos Henrique Schroeder acrescenta Kurt Vonnegut e Jorge Luis Borges como autores presentes no imaginário karaniano.

Bruno Karam chama atenção para um fato: na orelha de Comendo bolacha maria no dia de São Nunca (1999), Valêncio Xavier comentou que Karam sempre escreveu um mesmo livro. “Só grandes escritores conseguem isso — o Kafka só escreveu um livro com vários nomes, o Machadinho [Machado de Assis] idem”, teorizou Xavier.

Levando em conta o ponto de vista, Bruno afirma que é possível abrir um livro, qualquer um, do Karam, ler um trecho, pegar outro título e seguir a leitura e, ainda, procurar outra obra de seu pai e continuar lendo — e assim percorrer toda a produ­ção literária do autor. “Há pontos de contato entre todos os livros. A leitura fragmentada começa em uma obra e continua em outra, e assim por diante. Isso funciona”, diz Bruno.

Bruno, no entanto, não deixa de salientar que o seu pai teve, e realizou, um projeto literário meticulosamente planejado. “Cada livro tratou de uma questão e esses livros-temas se complementam”, diz. De acordo com Bruno, Fontes murmurante (1985) apresenta um país, O impostor no baile de máscaras (1992) revela uma cidade e Cebola (1997) é uma narrativa sobre uma casa. Comendo bolacha maria no dia de São Nunca (1999), explica o filho do escritor, é uma obra “fora da curva”, uma vez que reúne textos variados.

Pescoço ladeado por parafusos (2001), no entendimento de Bruno, é um livro sobre um personagem e a obra publicada em seguida, Encrenca (2002), traz as aventuras desse personagem. Já Sujeito oculto (2004), o último livro que Karam publicou em vida, é o título “aparente mais normal, mas a última frase muda tudo”.

A atriz Michelle Pucci chama aten­ção para o acaso, elemento presente em todo o legado karaniano. Em 2016, a Companhia Brasileira de Teatro apresentou, durante o Festival de Curitiba, A cidade sem mar — a partir de um texto homônimo do Karam. A encenação aconteceu em uma rua da capital paranaense e, em determinado momento, surgiu um caminhão de bombeiro. 

“O público queria saber se os bombeiros faziam parte da montagem e nós não dissemos que sim, nem que não. Mas foi por acaso. E o curioso é que há bombeiros em textos do Karam”, comenta Michelle, para quem a leitura da obra do autor catarinense que viveu em Curitiba ajuda a perceber como tudo pode estar conectado, na literatura e na vida.


Estante

Karam
Comendo bolacha maria no dia de São Nunca
Por Carlos Henrique Schroeder

Vou recomendar o livro que considero a melhor entrada para o universo do Karam, para entender seu jogo: Comendo bolacha maria no dia de São Nunca. São breves recortes que não cabem nos rótulos mais conhecidos, como conto, crônica ou mesmo o aforismo e a dramaturgia, divididas em nove partes completamente díspares. Esses estalos hoje encontram ecos em livros de autores como Lydia Davis e Gonçalo M. Tavares, pela incrível precisão e brevidade, mas com o humor peculiar do Karam, que beira a exasperação. É um livro para ler várias vezes, do início ao fim, ou de trás para frente, não importa. Aqui Karam mostra que sabe jogar e nós somos o tabuleiro.


Encrenca
Por Joca Reiners Terron

Encrenca é o mais ambicioso romance do Karam, ambicioso no sentido de que ali ele tentava escrever um romance fugindo aos esquemas que ele próprio inventou no Cebola, que é um romance em camadas, contos dentro de contos dentro de contos etc. Já o Encrenca tem protagonista e até personagem secundário (o automóvel do protagonista). Também tem ambientação, ação e outras situações dramáticas (não sei se a palavra serve ao caso) terminadas em ão. Enfim, é uma narrativa que faz jus ao termo, ao contrário de outros livros mais fragmentários dele que se apegam ao fraseado, à subversão da lógica e à dissolução do enredo. 


Karam


Duas décadas com o Karam

Karam

Bruno Karam, filho de Karam com Roxane Bocchino (1960-2017), apresenta Katia Kertzman da seguinte maneira: “Ela foi o grande amor do Manoel Carlos Karam”. Katia e Karam [na foto, eles estavam em Curitiba em 1990] trabalhavam com jornalismo, não dirigiam, ela torcia para o Atlético Paranaense e ele para o Coritiba, e os seus caminhos se encontraram. Conviveram durante 20 anos, de janeiro de 1988 a dezembro de 2007.
Katia conta que o Karam, nascido no dia 25 de abril de 1947, nunca teve rotina, apesar de ler, escutar música e escrever diariamente: “Ele escrevia e a gente nem notava. O Karam nunca se isolou. Uma pessoa chegava e ele deixava o que estava fazendo para conviver.”

Apesar de escrever textos dramáticos, Karam parou de frequentar teatros. O cinéfilo também abandonou as salas de cinema, de acordo com Katia, por causa do cheiro de pipoca. A casa no bairro curitibano Bom Retiro se tornou o cenário predileto do casal, ambiente frequentado por amigos e amigas e também por escritores, entre os quais Joca Reiners Terron e Marçal Aquino. Em 1995, Karam conquistou, com o livro Cebola, o Prêmio Cruz e Sousa e ganhou US$ 10 mil (dez mil dólares). “Viajamos para Paris”, diz Katia, acrescentando que duas vezes por ano eles saíam de Curitiba para conhecer outras cidades, como Nova York, Londres, Paris, Roma, Barcelona e São Francisco. “Ele me levou 13 vezes para Paris. Viajamos muito.” Karam trabalhou por anos em televisão, rádio e jornal. Depois, migrou para assessoria de imprensa, movimento profissional também realizado por Katia. A partir disso, o casal conseguia descansar do Natal até o Ano Novo em uma casa na praia em Gaivotas, no litoral paranaense: “Ele tomava banho de mar no fim da tarde”. 

De acordo com Katia, Machado de Assis era o autor brasileiro favorito do Karam. “Ele relia muito, por causa do humor”. Heineken era a sua cerveja predileta e ele apreciava a comida que Katia preparava: arroz, feijão, bife, massa, salada. Karam morreu no dia 1.º de dezembro de 2007 e foi cremado com um All Star preto de couro — ele caminhava pelas ruas de Curitiba com All Stars, tinha vários modelos de cores diversas. Quase todos os seus três mil livros foram doados para uma biblioteca situada no Parque Barigui, em Curitiba. A partir de 2 de dezembro de 2008, o espaço passou a se chamar Casa de Leitura Manoel Carlos Karam. Katia guardou alguns títulos, entre os quais O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar: “Era uma leitura frequente do Karam. O exemplar está ao lado da minha cama”.


O escritor na BPP

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Manoel Carlos Karam foi o homenageado da primeira edição da Festa Literária da Biblioteca, Flibi, que aconteceu entre 23 e 28 de outubro. Durante o evento, a Cia de Teatro do Urubu realizou leituras em diferentes espaços da BPP [veja na foto acima]. Os integrantes da trupe, Anderson Caetano, Carolina Meinerz, Gustavo Gusmão, Igor Kierke, Michelle Pucci e Muhammad Chab, solicitavam ao público um número, que seria a página de um dos livros do Karam que eles iriam ler. Depois, outro número, dito por alguém que estava na BPP, indicaria a página de outro livro do autor a ser lido por outro integrante da Cia de Teatro do Urubu — e assim eles realizaram 10 sessões de leituras na Flibi.

No dia 27 de outubro, Michelle Pucci e Marc Olaf apresentaram o happening “A serenata” [veja imagem abaixo], a partir de textos de Mesmas coisas, última e inacabada obra de Karam, além de outros textos do autor, recriados em forma de canção e dramaturgia. “A day in a life”, canção dos Beatles, uma das favoritas do Karam, também foi interpretada pela dupla Michelle-Olaf. A performance teve início no Hall Térreo, percorreu as escadas que dão acesso ao segundo andar e continuou no Auditório, com projeção de imagens no telão, verbalização de textos do Karam e interpretações de Michelle e Olaf.

O curso, James Joyce e David Foster Wallace: um diálogo, ministrado por Caetano Galindo, de 23 a 25 de outubro, fez referência ao autor de Ulysses [ Joyce], uma das vozes literárias prediletas do homenageado da Flibi.
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