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Um Escritor na Biblioteca | Paulo Lins

Da redação

A trajetória do escritor carioca Paulo Lins é pautada por uma série de lances imprevistos. Com formação na poesia, seu projeto de maior visibilidade nasceu com a proposta de ser um trabalho sociológico e acabou se tornando um dos romances mais importantes da literatura brasileira contemporânea. Cidade de Deus, o livro em questão, que Lins publicou em 1997, ultrapassou as fronteiras do país e ganhou o mundo após a adaptação cinematográfica feita por Fernando Meirelles e Kátia Lund em 2002.  

O escritor falou sobre sua improvável história literária na edição de novembro de 2017 do projeto Um Escritor na Biblioteca, que contou com a mediação do jornalista Yuri Al’Hanati. “Nunca pensei em escrever um romance. Eu militava na poesia. Aí escrevi cento e poucas páginas do Cidade de Deus e mandei para o Roberto Schwarz, que é um dos grandes críticos literários do Brasil. Ele gostou.” 

Lins estreou em 1986, com a coletânea de poemas Sobre o sol. Nessa época, conheceu o poeta curitibano Paulo Leminski, que ainda hoje segue como uma de suas maiores influências literárias. O romancista ainda lembrou de outros autores fundamentais em sua formação, como os franceses Michel Foucault e Jean Genet.

O autor de Cidade de Deus também comentou sobre o processo de criação de seu best-seller, que envolveu uma série de entrevistas com chefes do tráfico de drogas do Rio de Janeiro. “Comecei a entrevistar bandido, para horror da minha mãe. Quando iniciei a pesquisa, já dava aula na Cidade de Deus, perto da minha casa. Então eles tinham um certo respeito comigo, porque eu era universitário, professor, aí aceitaram falar. Era engraçado porque eles começavam a falar e não paravam mais. Mentiam muito”, diz o autor.

Após o enorme êxito de Cidade de Deus, Lins se tornou roteirista de alguns episódios do seriado Cidade dos Homens, veiculado pela TV Globo. Também recebeu o prêmio de melhor roteiro da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) por seu trabalho em Quase dois irmãos, dirigido por Lúcia Murat. Em 2012, após um longo hiato, lançou seu segundo romance, Desde que o samba é samba. Confira, a seguir, os principais momentos da conversa.  

     Fotos: Higor Oratz
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Formação
A leitura para mim não começou em uma biblioteca. Ela começou em casa. Eu ouvia as pessoas contando histórias — os mais velhos, meus pais, meus avós, minhas tias, os vizinhos. Era uma época em que ainda não havia televisão, colocávamos os banquinhos do lado de fora de casa e ficávamos ali, comendo as coisas que mamãe fazia, que a tia fazia — biscoito, bolo, tomando chá. E nessas rodas tinha muita história de assombração, sobre o Nordeste, pois meus pais são baianos. Era uma coisa muito forte para mim ouvir as histórias dos mais velhos.

Biblioteca
A biblioteca eu só fui frequentar na época do ginásio, mas não na escola, pois a escola pública não tinha biblioteca. Eu pegava um ônibus e ia fazer pesquisa. Eu não era uma pessoa que tinha biblioteca ao lado da minha casa. Era muito difícil, sempre foi muito difícil. A biblioteca entra mesmo na minha vida quando vou para a faculdade. Comecei a frequentar a biblioteca porque não tinha dinheiro para comprar livro. Passava o dia lá. Hoje quase não frequento porque ganho muito livro.

Samba-enredo
Eu tinha uma máquina de escrever e, na escola, era bom em português. Os compositores escreviam e eu ia mexendo nos textos. Tinha sambista que falava assim: “Olha, se você quiser dar uma floreada aí — floreada é muito bom, né? —, pode florear um pouquinho”. Eu trabalhava nos textos e, quando via, já era parceiro de várias pessoas, porque havia mudado algo. E nessa questão, há uma regra: se você botar uma palavra no poema do outro, torna-se parceiro. Até que fiz meu próprio samba-enredo. Comecei a fazer samba, depois fui para festival de música e na faculdade veio a poesia.  

Pesquisa Antropológica
Não era minha intenção tornar Cidade de Deus um romance. Era para ser um relato sobre a minha vida na comunidade, um trabalho de antropologia que falava sobre criminalidade. Minha intenção era tentar diminuir a violência policial contra os meninos na favela. Foi um trabalho político, social. Fiz por isso. Com rigor científico, pesquisando. Achava que esse livro ia cair apenas nas mãos dos estudantes de História, Antropologia e Sociologia. Minha intenção era diminuir a violência. Achava que o leitor entenderia o livro, pois ali o bandido fala. Nunca entrevistam um bandido, é muito difícil. Mas eu queria mostrar o que ele pensa.

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Entrevistas
Comecei a entrevistar bandido, para horror da minha mãe. Porque em uma favela como a Cidade de Deus, com 300 mil habitantes, a gente não conhece os bandidos. Tem gente que mora na favela e nunca falou com bandido. E quando iniciei a pesquisa, eu já dava aula na Cidade de Deus, perto da minha casa. Então eles tinham um certo respeito comigo, porque eu era universitário, professor, aí aceitaram falar. Era engraçado porque eles começavam a falar e não paravam mais. Mentiam muito. “Ah, eu matei fulano”. Quanto mais perigoso o bandido for, melhor. Isso dá mais status a ele. Também entrevistei gente na cadeia. No sistema penitenciário, falei com muita gente.

Primeiro romance
Nunca pensei em escrever um romance. Eu militava na poesia. Aí escrevi cento e poucas páginas do Cidade de Deus e mandei para o Roberto Schwarz, que é um dos grandes críticos literários do Brasil. Ele gostou. Depois disso comecei a ler desesperadamente. Li os filósofos, escritores franceses. Foucault, Jean Genet, os historiadores. Li sociologia. Li de tudo. Tem que ler tudo. Eu só estudava, passava o dia na biblioteca — lendo e escrevendo. Isso me influenciou.    

Leminski
Curitiba foi a primeira cidade que eu visitei fora do meu Estado. Eu vim para participar de uma palestra do Paulo Leminski em um seminário. Sabe aquele cara chato que vende poesia de bar em bar, de mão em mão, que vai rodando, em eventos literários? Era eu. Eu também vendia camiseta com poemas, vendia cartão com poesia. Aí, nesse dia, o Leminski chamou todo mundo para ir à casa dele. Ficamos uma semana lá, fomos beber vinho numas adegas, enchemos a cara. 

A poesia é a verdade
Todo dia eu elejo um poeta favorito. Esta semana eu estava com Augusto de Campos na cabeça. [Declamando] “Onde a angústia roendo um não de pedra/ Digere sem saber o braço esquerdo,/ Me situo lavrando este deserto/ De areia areia arena céu e areia”. De vez em quando lembro do Drummond: “Que é loucura: ser cavaleiro andante?/ Ou segui-lo como escudeiro?” Isso é lindo, porque fala do Dom Quixote. Você não sabe quem tá falando. O que é loucura? Posso errar, porque às vezes eu esqueço. “O que é loucura: ser cavaleiro andante, ou segui-lo como escudeiro? De nós dois, quem é realmente o maluco? É aquele que mesmo acordado sonha doidamente, ou aquele que mesmo vendado vê o real e segue seus sonhos pelas bruxas embruxado?” Quando você ouve um negócio desse, fica assim: “Nossa, como é que o cara faz um negócio desse?” Eu me lembro muito de Leminski... Uma vez fui ao bar, eu tinha 23 anos, e lá estavam Luiz Melodia e Paulo Leminski, bebendo e falando poesia. Isso foi no Largo da Ordem, aqui em Curitiba. Hoje cheguei cedo e comecei a andar pela cidade, lembrando aquele tempo que eu vinha para cá. Leminski e Melodia já morreram. Aí pensei: “Os dois já estão mortos, daqui a pouco sou eu”. Então me lembrei que Leminski falava que “a poesia é a verdade”. Aquilo que o poeta fala, ninguém pode dizer ao contrário. A poesia é a verdade.

Famoso
Um dia fui à banca e minha cara estava em todos os jornais. Voltei para casa e comecei a chorar. Fiquei uma semana sem sair de casa, achando que todo mundo ia me reconhecer na rua. Uma semana depois fui para a rua e ninguém me reconheceu. Não aconteceu nada. Mas quando o filme [Cidade de Deus] foi indicado para o Oscar, a coisa bagunçou. 

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O filme
No começo dos anos 1990 tinha saído Carlota Joaquina, princesa do Brazil, que deu início ao boom do cinema brasileiro, a conhecida “retomada”. O brasileiro começou a frequentar novamente o cinema. Vários bons filmes foram lançados: Terra Estrangeira, Central do Brasil, etc. Cidade de Deus veio nessa onda. Depois que o filme foi indicado para o Oscar, minha vida ficou um inferno, mas também passou. Lembro que o Lula veio falar comigo, Fernando Henrique Cardoso veio falar comigo, todo mundo queria falar comigo. O Temer não, graças a Deus. Hoje vivo tranquilo. Mas o que eu queria mesmo é que o meu trabalho tivesse diminuído ao menos o tráfico de armas. Porque droga não faz mal a ninguém. A droga não mata. Falam muito do traficante. Gente, traficante é um pobre coitado. Tem tráfico de drogas em Barcelona, tem tráfico de drogas em Madrid, tem tráfico de drogas em Londres, tem tráfico de drogas em Nova Iorque, e não tem essa matança que tem aqui no Brasil. Ninguém fala sobre o traficante de armas, é muito difícil. A grande questão é a desigualdade social, esse racismo que a gente tem aqui no Brasil.

Roteiro
Quando mandaram o roteiro para mim, não quis ler. Nunca tinha lido um roteiro. Eu não era um animal cinematográfico, não era um cinéfilo. Meu negócio era literatura, tinha mais acesso ao livro. Nem ia muito ao cinema. Quando vi o filme, eu também pensei: “Ah, misturou tudo”. Hoje, que sou roteirista, acho que o Bráulio Mantovani fez um grande trabalho. O filme me ajudou muito, comecei a vender no mundo todo. Esse filme me levou para um monte de lugares.

Hiato
Depois da minha estreia, todo mundo perguntava qual seria o próximo livro que eu escreveria. Mas sou carioca, e não gosto de trabalhar. Não gosto mesmo. Eu estava ganhando dinheiro, viajando o mundo todo, ia ficar sentado lá no quarto escrevendo igual a uma vaca? Não mesmo. Vendia os diretos do livro para os Estados Unidos e, claro, entrava dinheiro na minha conta. Sempre estava entrando dinheiro. Então não ia trabalhar. Quando meu filho nasceu, nos 6 primeiros meses, chovendo ou fazendo sol, ele foi à praia todos os dias. A meta que eu persegui, durante dois anos, e que consegui cumprir, foi ir à praia todos os dias beber cerveja. Só lia e viajava. Até ganhei uma bolsa para ficar nos Estados Unidos e escrever um livro. Desde que o samba é samba, meu segundo romance, ganhou uma bolsa. O pessoal queria me obrigar a escrever. Aí, a editora me adiantou R$ 100 mil. Naquela época era um bom dinheiro. 

Segundo livro
Fui para Alemanha e acabei morando no mesmo prédio que o João Ubaldo Ribeiro. Imagina o que que a gente bebia naquela Alemanha? Eu enchia a cara todo dia. Não escrevi nada! Me pagaram 10 anos antes, e eu entreguei o livro 10 anos depois. Eu bebia e pensava: “Ah, não, não vou escrever”. Mas comecei a ficar sem grana e resolvi fazer o livro. Aí comecei a fazer cinema, fui para a televisão. Se eu pudesse, ficava só de boa. Por que eu vou ficar escrevendo? Você escreve, mas aí tem que reescrever 10, 15 vezes. O Arnaldo Antunes falou uma coisa interessante: que escrever é fácil, difícil é reescrever. Para ficar bom, você tem que reescrever umas três, quatro, cinco, seis, sete, oito, dez vezes. 

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Arte salva
Em O arco e a lira, o escritor Octavio Paz fala que as coisas mais importantes que a gente tem são os deuses e a arte. Porque as nossas necessidades fisiológicas — beber, comer, dormir e se reproduzir — também são as necessidades dos outros animais. O que a gente faz de diferente é a cultura. É a História. Ele fala que tudo é substituível: a casa substituiu a caverna, o carro substituiu a carroça, a metralhadora substituiu o arco e flecha, etc. Tudo foi substituindo. Mas o Guimarães Rosa não substituiu o Machado de Assis. A Ilíada não substituiu a Odisseia. E muito menos São Jorge substituiu Ogum. Assim como Jesus Cristo não substituiu Oxalá.

Negro
O negro poderia entrar para a história do Brasil pelo trabalho. E não entrou. O negro é quem deveria ser rico. Na escravidão, quem produziu foi o negro. Mas ele se insere através da cultura. O Mario de Andrade sai de São Paulo, junto com o Heitor Villa-Lobos, e vai para o Rio de Janeiro encontrar Ismael Silva, encontrar Pixinguinha, encontrar Senhor, encontrar Manuel Bandeira. O negro só vai entrar no sistema da formação do país através da cultura.

Trabalho de roteirista
Quem começou com isso foi a Kátia Lund e o Cacá Diegues. O Cacá me chamou para fazer diálogos do roteiro de Orfeu da Conceição. Depois me chamaram para fazer cinema e fui fazendo porque pagavam bem.  

Samba
O Lira Neto fez uma pesquisa interessantíssima para escrever Uma história do samba. Ele é um grande pesquisador e jornalista. Mas lógico que há grandes diferenças entre o livro dele, que é um trabalho de pesquisador, e o meu, que é um romance [Desde que o samba é samba], onde eu tinha que botar trama, personagens, sexo, amor, morte.

Autores contemporâneos
Li Luxúria, do Fernando Bonassi, e adorei. Marcelino Freire também adoro. Sem açúcar, da Flávia Helena, que li agora, é maravilhoso. Recentemente li M 8 — Quando a morte socorre a vida, do Salomão Polak. Gostei tanto que estou fazendo uma adaptação para o cinema. É um livro sobre um cotista negro que entra em uma faculdade de Medicina. Ele é o único negro. Aí vem os mortos para serem examinados e são todos negros.

Cultura negra
Para eu estar aqui, muita gente morreu. A gente não pode esquecer disso. Zumbi morreu. Muitas pessoas foram presas. Para eu poder estudar, para eu fazer uma faculdade... Então tenho que resgatar a cultura negra, trabalhar com isso, para a gente evoluir. O Saramago, quando ganhou o Nobel, lembrou que o homem evoluiu tanto tecnologicamente, mas continua matando. Só que a gente não mata mais de tacape, não mata mais de catapulta. Matamos de metralhadora. O cara não vai gostar de mim porque eu sou negro. Por quê? Eu não queria mais falar sobre isso. Queria escrever um livro sobre sexo, sobre amor. “Ah, eu te amo, te adoro”. Aí ele vai atrás da mulher, a mulher vai atrás dele, aí separa, aí termina com aquele beijo e foram todos felizes para sempre. Queria escrever um livro assim. 

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Edição
Quando escrevi Cidade de Deus, coloquei o nome dos bandidos, como eles eram conhecidos porque queria que o pessoal da favela lesse o livro. Era uma forma de aproximar a literatura do povo que deu origem ao livro. Mas aí começou um monte de processo e tal, e mudei os nomes [em edições posteriores].  

Comunidade
Quando comecei a escrever Cidade de Deus, já não morava mais na comunidade. Já tinha saído de lá, aí voltei só para fazer entrevistas. Depois que lancei o livro e saiu o filme, eu ia lá só para visitar amigos e familiares. Só que se passaram 30 anos, né? Os mais velhos morreram. O pessoal da minha idade se mudou. Hoje tenho uma relação mais política com o local. Vou lá para inaugurar uma biblioteca, uma escola, etc. Mas eu não tenho mais o grupo de amigos da minha época. Foi tudo para o Facebook.

A escrita
Antigamente eu tinha necessidade de escrever. De vez em quando pego e faço um verso. Mas só escrevo quando sou obrigado. Eu queria mesmo era ficar na cama, tomando cerveja, comendo churrasco. Mas tem que trabalhar. Mas não gosto de trabalhar. Nunca gostei. Só trabalho quando estou duro. Acabou o dinheiro, vou lá e trabalho.

Leitura
Falo que não gosto de trabalhar, mas gosto de ler. Não nasci essa coisa fofa que sou hoje, eu não era assim. Nasci na favela, no meio de bandido, machista, homofóbico. Mas só me transformei através da leitura, através dos livros, assim me formei cidadão e me humanizei. É por isso que falo para os meus filhos que o estudo é aquilo que só o ser humano tem. A leitura também. A arte de um modo geral. Hoje sou uma pessoa menos machista — a gente nunca deixa de ser machista, porque o sistema é assim —, mas eu batalho para não ser machista, fico me vigiando para ser menos homofóbico, menos racista — porque, com tanta dor, a gente acaba sendo racista. Acho que o livro ainda é o que nos sustenta, que nos leva para frente.
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