Reportagem | Vitor Ramil

As possibilidades de Satolep

Em seu 11.º álbum, Campos neutrais, o cantor e compositor pelotense Vitor Ramil aprimora ainda mais suas composições, em que música e, principalmente, letras sofisticadas dialogam com a literatura, expressão artística pela qual ele também transita

Marcio Renato dos Santos

     Fotos: Marcelo Soares
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Além da qualidade das letras, Campos neutrais, título do 11.º álbum de Vitor Ramil, faz referência a uma faixa de terras da região sul do Brasil, onde, no século XVIII, estava proibida qualquer hostilidade entre portugueses e espanhóis, povos que disputavam o domínio do local. “O espaço tinha suas próprias leis”, comenta o cantor, compositor e escritor gaúcho.

A escolha da região, um espaço incomum, para batizar o álbum dialoga com uma opção do artista, que desde os 17 anos vale-se do nome Satolep (Pelotas ao contrário) para se referir à cidade onde nasceu e vive. “Mas não é a cidade oficial, e sim outra Pelotas, uma cidade ‘interna’”, conta Ramil, hoje com 55 anos.

Satolep dá nome a um livro, uma canção, um álbum, aparece em composições e é, portanto, uma expressão-mote recorrente na obra do artista. Segunda música de Campos neutrais, “Satolep fields forever” estabelece pontos de contato com “Strawberry fields forever”, de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, álbum que completou 50 anos em 2017. 

Campos neutrais traz elementos presentes em obras anteriores de Ramil. Há músicas cantadas a partir de um dedilhado no violão já conhecido pelo público do compositor, versões, artistas convidados, um possível hit, a voz peculiar do cantor e faixas que interrompem o fluxo do álbum.

“Se eu fosse alguém (Cantiga)”, a oitava canção, é um poema do português António Botto (1897-1959) cantado pela sobrinha de Ramil, Gutcha, sem música, o que tende a provocar estranhamento em quem escuta Campos neutrais na sequência — mesma surpresa que “Nino Rota no Sobrado/ Tango da Independência” causam naqueles que ouvem, ao menos na primeira audição, Tango, álbum de 1987.

Em seguida, tem “Palavra desordem”, uma convocação para revolta: “Façam a revolução/ Rompam, desarrumem, desacatem/ Zombem de Bonaparte”. A próxima canção é “Durme, Montevideo”. Difícil não associar as duas composições ao zeitgeist: “Palavra desordem” se afina com as manifestações de 2013, e “Durme, Montevideo” faz alusão ao que o país vizinho representa após o governo José Mujica, nas palavras de Ramil, “um local avançado”. “Não tinha me dado conta disso. Há mesmo conexão entre as duas músicas e essas tensões sociais recentes”, diz.

Mas a capital do Uruguai — destino turístico de universitários e adultos brasileiros — não é novidade para Ramil. O seu avô paterno, Manuel, fixou residência na cidade, onde o então menino Vitor passou temporadas.

Coincidência, ou não, a sétima canção do álbum, “Terra”, é uma versão de “Tierra”, do galego Xöel Lopez. Ramil a conheceu quando esteve em Santiago de Compostela, na Espanha, e diz ter se emocionado com a composição: “Tem uma conexão forte, de ‘espírito’ ou por causa das minhas origens. Afinal, o meu avô, Manuel, veio da Galícia. Senti e sinto, mesmo, uma sintonia com a música do Lopez”.

A versão de Ramil, candidata a hit, traz uma sequência de versos surpreendentes: “E me vêm algumas rimas à mente fatigada/ Partes de poemas que eu tinha abandonado/ Melodias que uma vez pensei que ia perder/ Se tornam hoje belas e valentes sinfonias// E faz tempo que eu já me fui/ Pois sempre estou partindo/ Mas eu sempre estou contigo/ Mesmo quando tenho o ar distante/ Quando fico assim olhando/ Como se estivesse ausente/ Tô só viajando/ Não penses que estou me perdendo”.

Campos neutrais também confirma a admiração de Ramil por Desire, o sétimo álbum de estúdio de Bob Dylan, de 1976. Ele transformou “Sara”, nona composição do disco, em “Ana” — e, a exemplo da proposta original, o pelotense também dedica a canção a sua esposa. Em Tango, de 1987, Ramil já havia feito uma versão para “Joey”, do mesmo LP do compositor norte-americano, batizada de “Joquim”: “É prazeroso ‘versionar’ Dylan”.

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O 11º álbum do artista.

Diálogos ramilianos
Zeca Baleiro e Chico César, parceiros de geração de Ramil, são alguns dos artistas que participam de Campos neutrais, além de Felipe Zancanaro, guitarrista da banda Apanhador Só, e do violonista argentino Carlos Moscardini, entre outros. Mas o que chama atenção é o interesse literário do cantor evidenciado pela interlocução com a poeta Angélica Freitas.

“Stradivarius”, quarta faixa do álbum, é um poema de Angélica Freitas musicado por Ramil. Em 2008, o artista publicou o romance Satolep e, pouco antes do lançamento, o seu editor, Augusto Massi, sugeriu a leitura de um livro de uma conterrânea do artista — justamente Angélica Freitas. “Gostei demais da poesia dela”, conta. A autora estava vivendo na Europa e, naquele contexto, eles não se conheceram.

No romance Satolep, o personagem Selbor retorna à cidade e se reúne com artistas em busca de algo indefinido. Ramil lembra que, após o lançamento do livro, Angélica também voltou para Pelotas e, a partir de então, eles puderam se conhecer e passaram a compor juntos. “Atualmente, temos 15 canções. Pretendo gravar um álbum apenas com minhas parcerias com a Angélica [que hoje vive em São Paulo]”, anuncia.

A literatura está presente na vida de Ramil desde a infância. Na família, inclusive, esperavam que ele se tornasse escritor, apesar de os cinco irmãos serem músicos, entre eles Kleiton e Kledir (autores das canções “Deu pra ti” e “Paixão”). “Estava sempre lendo, durante horas, todos os dias”, observa. Atualmente, lê menos do que gostaria — no momento, finaliza a leitura de História social da música popular brasileira, de José Ramos Tinhorão, e Sapiens — Uma breve história da humanidade, de Yuval Noah Harari.

As leituras e os autores preferidos de Ramil estão espalhados em sua obra, indireta e diretamente. A letra de “Joquim” destaca que o personagem ficava no quarto lendo Artaud, Rimbaud e Breton. Em “Folhinha”, ele cita Hemingway. Já no romance Satolep há referências, entre outros autores, a João Simões Lopes Neto, Jorge Luis Borges, Fernando Pessoa e Alejo Carpentier.  

Variações sobre o frio
Entre 1986 e 1992, Ramil viveu no Rio de Janeiro. Durante uma tarde, o artista gaúcho tomava chimarrão e assistia na TV a transmissão de um carnaval fora de época. “O âncora do jornal, falando para todo o país de um estúdio localizado ali no Rio de Janeiro, descrevia a cena com um tom de absoluta normalidade, como se fosse natural que aquilo acontecesse em junho, como se o fato fizesse parte do dia a dia de todo brasileiro”, relataria Ramil, tempos depois, em um texto escrito.

Em seguida, o mesmo jornal mostrou a chegada do frio ao Sul. “O âncora, por sua vez, adotara um tom de quase incredulidade, descrevendo aquelas imagens do frio como se retratassem outro país (chegou a defini-las como de ‘clima europeu’). Aquilo tudo causou em mim um forte estranhamento. Eu me senti isolado, distante. Não do Rio Grande do Sul, que estava mesmo muito longe dali, mas distante de Copacabana, do Rio de Janeiro, do centro do país. Pela primeira vez eu me sentia um estranho, um estrangeiro em meu próprio território nacional; diferente, separado do Brasil”, escreveu no ensaio A estética do frio

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A partir da reflexão e do discurso, Ramil colocou em prática seu ponto de vista, o qual aponta que o artista do Sul não está à margem de um centro, o eixo Rio-São Paulo, mas no centro de uma outra história, com referências e imaginários diversos. O professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Luís Rubira afirma que, com o álbum Ramilonga — A estética do frio (1997), Ramil consolidou-se como artista, abrindo a discussão e a compreensão sobre um fenômeno identitário e cultural: o de que o Rio Grande do Sul é um híbrido entre brasilidade e platinidade, ou seja, que possui elementos da cultura brasileira e da cultura do Uruguai e da Argentina.

“Depois de Ramilonga, novos discos se sucederam e, neste percurso, outros experimentos em relação à concepção da ‘estética do frio’. O repertório  de Ramil foi tornando-se cada vez mais refinado”, comenta Rubira, autor do livro Vitor Ramil: nascer leva tempo.

O jornalista Juarez Fonseca tem a impressão de que Ramil elaborou a “estética do frio” por causa da própria obra e, também, para se contrapor ao tropicalismo, “movimento de ruptura que sacudiu a música popular, no entanto, mais ligado ao ‘calor’”. Com 40 anos de experiência na cobertura da área musical, Fonseca acompanha a trajetória do compositor desde 1980, quando ele lançou o seu primeiro álbum, Estrela, estrela.

No entendimento de Fonseca, Ramil é raro caso de artista “íntegro consigo mesmo”. “Ele segue produzindo canções que possuem letras extremamente buriladas, que flertam com questões filosóficas e dialogam com milongas, sem se pautar por tendências e modismos comerciais”, define Fonseca, que assina uma coluna quinzenal sobre música no jornal Zero Hora

Complexidade e refinamento
Juarez Fonseca analisa que Ramil tem público fiel, “não tão amplo, porém sempre em expansão”, espalhado pelo país. De acordo com o jornalista, o compositor gaúcho “lota” teatros com capacidade de 100 e até 200 lugares. “Mas em Porto Alegre ele já levou para de mil pessoas para alguns shows. O repertório é refinado, portanto, não é para as massas”, completa.

Vitor Ramil afirma que suas músicas tocam pouco em rádios, enquanto as emissoras de TV não se interessam por seu repertório. Já os cadernos de cultura, dos jornais diários brasileiros, repercutem o que ele produz. “Mas a difusão do meu trabalho acontece mais pelas plataformas digitais do que pela mídia convencional”, diz, salientando que tem consciência de que a realidade para um compositor brasileiro se alterou radicalmente nos últimos anos, devido ao impacto que a Internet causou na indústria cultural.

No momento, ele — também autor da novela Pequod (1995) e do romance A primavera da pontuação (2014) — tem dois projetos literários para desenvolver, talvez em 2018. Mas Ramil deve passar parte do ano divulgando Campos neutrais pelo Brasil, inclusive em Curitiba, onde tem interlocução: “Os curitibanos apreciam e parecem compreender a minha produção”. Produção essa que, de acordo com Luís Rubira, rompeu com a imagem caricatural do gaúcho, “o sujeito separatista, cujo culto é entoado nos Centros de Tradição Gaúcha (CTG’s), construção histórica disseminada a partir da década de 1940”.

Tal caricatura (gaúcho de bombacha e cuia de chimarrão), completa Rubira, existe até hoje e tinha afastado o Rio Grande do Sul de estabelecer um diálogo natural com o Brasil. “Além disso, o gaúcho, como bem aprofundou Vitor na ‘estética do frio’, possui elos com a cultura platina”, pontua o professor da UFPel.

Rubira é enfático: quem não conhece a arte de Vitor Ramil, desconhece o Rio Grande do Sul profundo. “Ou seja, não tem acesso ao legado de um Estado cuja multiplicidade e complexidade já estavam presentes em Erico Verissimo, Dyonelio Machado, Lupicínio Rodrigues e outros, e que agora tem em Ramil um de seus momentos mais altos em termos intelectuais e artísticos”, afirma.
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