Entrevista | Marcelo Degrazia

“O prêmio é o reconhecimento por uma vida de trabalho”

O gaúcho Marcelo Degrazia [foto] foi o vencedor do Prêmio Paraná de Literatura na categoria contos (Prêmio Newton Sampaio), com A bandeira de Cuba. Henrique Schneider (RS), com Setenta, ganhou na categoria romance (prêmio Manoel Carlos Karam) e Sônia Barros (SP) venceu entre os poetas (prêmio Helena Kolody) com a coletânea Tempo de dentro. Cada autor recebe R$ 30 mil e têm seus livros editados pelo selo Biblioteca Paraná. 

Nesta breve entrevista, Degrazia fala sobre o processo criativo de sua obra, que traz nove longos contos, escritos em “44 dias corridos”. “Como alguns personagens estão presentes em vários contos, e mesmas referências de ambientes e assuntos aparecem aqui e ali, o livro ganhou uma batida de romance”, diz o escritor, cujo livro superou outras 571 obras de contos inscritas no Prêmio Paraná.

     Foto: Divulgação
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O conto é um gênero associado a relatos breves. Mas A bandeira de Cuba traz histórias longas. Fale um pouco de seu processo criativo, especificamente para esses contos. 
São histórias de mesmos lugar e época (fronteira com Argentina, década de 1960), escritas em 44 dias corridos, com pontos de vista de um garoto, o que contribuiu para a unidade do livro. E como alguns personagens estão presentes em vários contos, e mesmas referências de ambientes e assuntos aparecem aqui e ali, o livro ganhou uma batida de romance. Guardadas as distâncias, ao ler Vidas secas fiquei com a impressão de ter lido um livro de contos, e ao terminar de escrever A bandeira de Cuba fiquei com a impressão de ter escrito um quase romance. A longa extensão da maioria dos contos se deve ao fato de ter forçado deliberadamente a estrutura do gênero, fui abrindo para ver até onde podia chegar sem perder a feição de conto. Ganhei relevo nos assuntos e profundidade nos temas. Tenho outros livros de histórias curtas, na linha clássica defendida por Poe e Cortázar em suas teorias sobre o gênero, e outros mais experimentais na linguagem e na estrutura. 

Um dos temas que permeia A bandeira de Cuba é a política. Como a arte pode ser política sem ser panfletária? Isso é algo que te preocupa na hora de escrever?
Não é o tema (político ou não) que determina se a arte é panfletária, mas o seu tratamento. Todos os temas (e assuntos, se entendermos estes como formas de tratar o tema) podem ser abordados na literatura. Entretanto, ao introduzi-los no campo literário, o escritor deve submetê-los aos princípios e estratégias de sua poética, ou seja, é o literário que orienta e domina o campo. Ao contrário, quando o escritor utiliza ou cede os elementos propriamente literários ao domínio de outro campo a fim de provar, defender ou panfletar ideias, ele estará fazendo subliteratura, ou literatura sectária, ou utilitária. O realismo socialista, na Rússia soviética, é um exemplo clássico de submissão da literatura a uma ideologia política. E o grande sintoma disso é o relaxamento poético, que provoca o afrouxamento e o convencionalismo da linguagem. As ideias, em literatura, estão diretamente associadas ao material e seu tratamento, é por aí que se pode medir o engajamento do artista, afinal toda poética é política. O problema é constituir e definir o campo literário, organizar os materiais até encontrar a forma mais adequada de tratamento. Ainda assim, por maior que seja a fusão de gêneros e discursos, quem está no comando do processo é o literário.

O conto escolhido pelo Cândido para ser publicado nesta edição, “Homem circular”, remete a “Um artista da fome”, de Franz Kafka. O autor tcheco é uma de suas referências literárias? Aliás, quais são os autores que fizeram e fazem sua cabeça?
Fico feliz com a associação. Percebi semelhanças com o conto de Kafka perto do final, e isso não me angustiou. Sempre li o conto referido como metáfora do trabalho artístico, e o “Homem circular”, guardadas as diferenças, é também isso. Kafka, juntamente com Borges, Cortázar e Tchekhov, foi uma das grandes paixões no final da adolescência e início da juventude. Ao lado de Voltaire, Boccaccio, Simões Lopes Neto, Poe e, claro, o Machado de Assis de “Missa do Galo” e “Cartomante”, me impulsionaram a escrever meus primeiros contos. Depois vieram Scliar, Joyce, Mansfield, James, Fonseca, Trevisan, Carver, Faraco, Cheever, Babel, etc.

O que representa a vitória no Prêmio Paraná de Literatura para sua carreira? 
Quero valorizar o caráter nacional do prêmio, promovido por uma biblioteca pública de estado, sem o nome dos candidatos nos manuscritos. Infelizmente, prêmios de outros estados não seguem tais critérios. A edição deste ano foi a mais democrática, pois as inscrições foram via internet, gratuitas, poupando celulose e facilitando o acesso a todos. Estou muito feliz, o prêmio é o reconhecimento por uma vida de trabalho. Espero que ajude a tirar das gavetas os meus outros livros (de contos e romances).


Leia aqui o conto "Homem circular".
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