Conto | Marcelo Degrazia

Homem circular

Nunca soube de onde ele veio, nem para onde foi. O pai na época era tesoureiro do Rotary, pagaria em nossa casa o cachê do homem depois da apresentação. Jamais houve algo parecido em São Donato. A quebra do cotidiano era causada pelas passeatas do 14 de Julho ou do 24 de Maio, o nosso clássico 38, explosivo depois de grandes vitórias e títulos. Ou nas noites de comício político em vésperas de eleições, quando o pai nos levava de um palanque — o da situação — a outro — o da oposição.

— Pra conferir o ajuste dos discursos à realidade do país — dizia com um sorriso matreiro.

A quebra do ritmo também ocorria nos desfiles do Carnaval ou da Semana da Pátria, como em todo o país. Em outras ocasiões era uma velha Dodge, com um megafone instalado na capota, que circulava pela cidade anunciando leões, elefantes, o Zé Chuvisco e acrobatas da corda bamba. Às vezes, era a presença angulosa e enviesada dos ciganos nas esquinas do centro, os homens com lenço vermelho no pescoço e as mulheres com lenços de seda coloridos na cabeça. Eles armavam suas tendas num terreno baldio, no descampado entre o cemitério e o quartel, e dali saíam para ler as mãos e fazer seus negócios.

O anúncio de que a Praça Matriz seria palco do número sobre-humano deixou São Donato excitada. Aquelas intervenções urbanas já faziam parte da memória da cidade. Quebravam a monotonia, mas de um modo previsível, à exceção talvez das passeatas do futebol, que coloriam a cidade ora com o verde do 14, ora com o vermelho do 24. Então, quando o carro de som e a rádio anunciaram a apresentação do homem da bicicleta, ficamos numa expectativa maluca.

Nos dias anteriores à apresentação não falamos noutra coisa. Ele já fizera sucesso em Porto Alegre e Caxias do Sul, com reportagens nos jornais locais — o que se repetia agora com A Semana de São Donato. Por onde passava, ele atraía uma multidão de curiosos. Crianças, jovens e adultos, todos queriam testemunhar a suspensão do calendário por uma promessa de magia.

A apresentação era um dos eventos dos Jogos da Primavera, outra das ocasiões programadas que mobilizavam a cidade. Seria no coração da Praça Matriz, nos ladrilhos que circulavam o monumento central doado por Alvear. A coluna de pedra — de onde um arco de concreto, a partir de seu topo, descia até o chão para formar a linha de um quadrante — era presente da cidade argentina a São Donato, em comemoração ao centenário da Independência do Brasil. Uma de nossas brincadeiras era tentar escalar o arco, muito íngreme próximo ao chão e de altura ameaçadora no alto da coluna. Por isso mesmo, a brincadeira envolvia algum risco e um grande desafio. Ao passarmos por ali, ao longo dos anos, sempre nos aventurávamos sem sucesso. Por mais que embalássemos na corrida, logo em seguida ao arranque cheio de vitalidade e esperança, o semicírculo do quadrante era inacessível aos nossos esforços infantis.

Mas agora o centro da praça seria palco de uma proeza que superava com sobras nosso desafio. O homem da bicicleta, a não ser para ir ao banheiro público, deveria circular o monumento durante 24 horas, sem parar uma única vez. A largada, com a presença do prefeito, do cônsul e do comandante do exército, sob uma bateria de fogos de artifício, foi no início da noite, para que o maior número de pessoas pudesse assistir. O fim da prova coincidiria com o início da noite seguinte, essencial para a recuperação das forças do desafiante. A prefeitura estendeu um cordão por todo o perímetro da prova, circulando o passeio central por trás dos bancos voltados para o monumento. Por 24 horas o coração da Matriz ficaria isolado, e ninguém na cidade, a não ser o forasteiro da bicicleta e o homem autorizado a lhe alcançar as garrafas de água e suco, poderia pisar seus ladrilhos ou desafiar o perímetro do quadrante.

O homem era alto e magro, tinha um rosto comprido, ossudo, e cabelos ruivos encaracolados na testa. A sua pele era branca feito giz, tão branca e transparente que o sangue, com o esforço, lhe dava uma coloração rosada. Apesar de não possuir músculos avantajados, em especial nos braços e nas pernas, aparentava uma constituição sólida. Era jovem e sério; talvez a seriedade lhe viesse da concentração na tarefa, pois não lembro um único sorriso seu durante a prova.

Na largada, transmitida ao vivo pela rádio, a cidade fazia em torno desse palco improvisado um groso cordão humano. Eram centenas de curiosos: as crianças enfiadas por entre as pernas dos pais ou nos seus ombros, sentadas na grama ou junto aos bancos, e os adultos ansiosos para testemunhar o prodígio de uma boa história para contar. Muitos duvidavam abertamente do sucesso do homem, arriscavam a hora ou o número da volta em que ele pegaria no sono; um bom número, com olhos brilhantes e boca rasgada, ficava numa expectativa maravilhada, enquanto alguns apostavam que ele sairia vencedor do desafio.

Quando ele deu a partida, em sentido horário, prorromperam palmas e gritos de apoio de todos os cantos da praça. O homem arrancou como se sua presença estivesse sendo aguardada com urgência num local previamente assinalado. Com pedaladas firmes e ritmadas, imprimiu grande velocidade já nas primeiras voltas, o cabelo esvoaçando; por certo ia contagiado pelo entusiasmo do ambiente. Talvez fosse para garantir uma vantagem segura, que lhe seria de alguma maneira proveitosa mais adiante, embora tal estratégia parecesse inútil num trabalho dominado pela circularidade de um tempo limitado. Na cabeça dele, ainda que o trecho percorrido pudesse parecer sempre o mesmo, e com a mesma carga de esforço, ainda assim seria diferente e inusitado, sobretudo por integrar uma luta pessoal contra o relógio e sua própria resistência num ambiente novo, seus limites postos à prova mais uma vez.

Ele vestia camiseta de física grená, calções azuis com frisos brancos e tênis preto. Como não era sua primeira vez, devia estar com toda a prova na mente. A memória das outras devia guardar as armadilhas e os pontos fracos da vontade e dos músculos. Talvez também por isso o seu olhar viajasse fixo no vazio, como se visse apenas uma figura na mente — possivelmente o ponto de chegada —, e não o desviava para os lados nem quando as pessoas gritavam à sua passagem, com certeza um dos combustíveis desse movimento regular.

O ímpeto inicial impressionava bastante, queria quem sabe retribuir o apoio do público. Algumas garotas, num estado de frenesi absoluto, gritavam e estendiam o braço a cada passagem dele, como se fosse um ídolo do cinema. Repetiam o mesmo procedimento na volta seguinte, e na próxima também, como se agora sim fossem tocar no homem da bicicleta. Ele, no entanto, não fazia qualquer concessão, mantendo o olhar fixo no espaço logo à frente da roda e, sem nunca sorrir, cruzava como se não fosse o motivo de toda essa agitação.

Eu comecei a contar as voltas, já que não tinha nenhuma disposição para gritar a cada passagem dele, mas ali pela vigésima vi o despropósito disso. Seguramente nem ele fazia a contagem; o número, como nas vezes passadas e nas futuras, ficaria para sempre incógnito. Até porque sua concentração parecia de outra natureza, mais apegada a pensamentos, ideias, imagens e cenas familiares, ou a qualquer outro recurso da imaginação ou da memória. Não parecia ser pelo cachê, isso talvez fosse a sua motivação inicial, quem sabe quantas dívidas ou contas ele tinha para pagar. Ao pedalar sua bicicleta, parecia ser por outra razão que corria tanto, algo que pudéssemos apenas intuir. A exemplo dos raios dos aros, que convergiam para o eixo no centro das rodas, assim também parecia essa sua vontade obstinada, concentrada pelas setas de nossos olhares. Um círculo dentro do outro. Essa concentração sem dúvida se dirigia para um ponto além, sempre além da roda da bicicleta e do giro completo que abria a nova volta, e mais outra, voltas e voltas que, com o passar do tempo, eram sempre outra e ainda a mesma volta.

Não sabíamos, mas ele dava mostras de saber o ponto que queria atingir, a força a ser dosada, a estratégia das pedaladas necessárias para alcançá-lo. Talvez fosse esse o seu único alimento, pois fazia parte do contrato não parar para comer. Alguém autorizado lhe alcançaria os líquidos, e ele, sem parar uma única vez, a não ser para ir ao mictório público, devia receber a garrafa e beber sempre em movimento. Tais líquidos eram apenas para repor a energia do corpo, porque o alimento mais substancioso devia ser fornecido por ele mesmo, diretamente da alma, sob inspeção do espírito. Sem dúvida era dali que vinha o principal, pois, de outra forma, como explicar que pudesse ficar horas a fio numa mesma posição, com poucas variações — quando muito estender ou curvar os braços, movimentar as pernas com mais ou menos energia, jogar o tronco para frente e para trás —, a cabeça sempre na mesma inclinação, os ombros tensionados na maioria do tempo, a expressão grave, atenta e cuidadosa?

Com a primeira meia-hora, o frenesi das garotas e os gritos e palmas de seus apoiadores tinham cessado, a assistência já reduzida à metade. Talvez todos ainda não tivessem ido embora porque, de algum modo, os que ficavam se sentissem cúmplices da empreitada, como se o outro estivesse ali apenas por causa deles, e abandoná-lo, quando a noite já soprava a aragem fresca do rio e até mesmo a rádio já mudara de programa, seria uma espécie de traição. Talvez só por isso os mais resistentes ainda não tivessem arredado o pé dali. Ou então para se mostrarem igualmente resistentes, e assim conquistarem a confiança do desafiante. Mas após duas horas de prova, a cidade morta, a não ser pelo seu coração a palpitar na Matriz, a assistência estava reduzida, quando muito, a um quarto de seu número máximo na largada. Até à diminuição do fervor público ele já devia estar acostumado, e isso em parte explicaria a indiferença de seu olhar para a audiência e o demais que estava além do cordão da prova. 

Mas sua expressão de confiança não se alterava, apenas o ritmo das pedaladas. Ele encontrara um movimento uniforme, menos arrojado que o do início, mas firme o suficiente para manter o equilíbrio sem risco de queda. Era um movimento monótono, e hipnotizante, bastava olhá-lo por algum tempo para se ficar com a mente vazia. Eu, de fato, se olhava a roda da bicicleta, os pés no pedal ou o conjunto de sua figura por alguns minutos, não conseguia pensar em mais nada, como se eu mesmo me transformasse na força motriz da bicicleta.

O pai, como fazia parte da organização do evento, foi dos últimos a deixar o local. Já era meia-noite quando fomos para casa. Eu, exausto, morria de sono, e a prova completava recém suas primeiras quatro horas. Faltavam ainda vinte horas de sono, refeições, colégio, jogos, brincadeiras, vinte horas de vida até que o homem concluísse o seu percurso. A prova era no meio da semana para não perturbar o lazer da cidade; a Praça Matriz, com seus bancos e árvores de copas altas e cheias, era o ponto de encontro de São Donato aos domingos. Eu ia para casa com um sentimento de deserção, não era justo abandonar aquele homem à própria sorte, quando nos proporcionava uma das poucas ocasiões em que a vida, por mais paradoxal que parecesse, ao romper seu ritmo monótono, abria uma nesga de magia semelhante à do Carnaval, à da passeata do futebol e à da abordagem inesperada de uma cigana, com enormes aros dourados nas orelhas, numa das quadras do centro para ler nossas linhas em troca de uma moeda. Mas nessa época o poder da família e da noite eram inexcedíveis, a tal ponto que ao chegar na esquina onde ficava a banca do Felix, já me sentia como quem faz a coisa mais natural do mundo.

De casa, no andar de cima do sobrado, era possível ver um bom pedaço da praça. Quando as luzes se apagaram e todos nos enfiamos nas camas, me levantei pisando em nuvens negras e fui até a sacada. Com o máximo cuidado, abri a porta, fechei-a atrás de mim e busquei o ponto de visão mais favorável. Até onde enxergava, à exceção do seu Zeca que cuidava da praça, em um dos bancos com o homem destacado para cuidar da prova e fornecer a água e os sucos, já não havia mais ninguém no cordão de isolamento. A praça estava entregue às copas das árvores e suas sombras. No outro dia soubemos que dois engraxates, jogando figurinhas no bafo, bolita, o osso, tudo que era possível para não se entregar ao sono, também tinham passado a noite toda em vigília.

Aí estava talvez o maior risco para ele. A ideia me ocorreu enquanto eu mesmo já cabeceava na sacada atacado por mosquitos, as pernas frouxas. Ele não podia dormir um instante, sob o risco de pôr tudo a perder: o cachê, o respeito da cidade, as futuras apresentações e, sobretudo, a vitória de sua concentração. A reunião de todas as suas forças na noite pesada e lenta dependia de sua lucidez. A vigília, mais do que garantia para evitar o tombo, era o atestado de que a convergência de sua atenção e músculos a um único objetivo constituía uma arte superior. Acontecesse o que fosse para fora do círculo de isolamento, nada o podia deter até atingir o alvo. Se ficasse no meio do caminho, ainda que na última volta, sua reputação estaria perdida e a cidade jamais lhe concederia nova oportunidade. As outras praças também se fechariam para ele.

Embora a cidade, nesse instante, à exceção de seus vigias, dormisse a morte mais profunda — como são as sombras de uma cidade erma —, ela seguia, uma a uma, suas pedaladas dentro do sono. Embora não soubesse a soma total da prova, sabia do limite a ser alcançado. E se ele, na hora acertada, não estivesse ali, ainda montado na sua bicicleta em movimento, não teria a recompensa do cachê — suas dívidas e contas precisariam de outra oportunidade, ou seja, outra atividade para a qual deveria estar mais bem preparado — nem teria o entusiasmo das palmas, as garotas não mais gritariam apelos histéricos por sua libertação.

Eu também já andava em círculos...

Na outra manhã, a mãe me convidou para buscar as roupas na dona Rosa, lavadeira e mãe do Catito. Eu disse que tinha temas do colégio, mas assim que ela saiu de casa corri para a Matriz. À exceção do Xexéu do tabuleiro, que vendia cigarros, balas e mandolates no porto, e dois engraxates em silêncio com as caixas no ombro, ninguém mais acompanhava o homem da bicicleta em suas voltas. Com o isolamento do centro para a prova, os largos caminhos da praça ficaram obstruídos, os transeuntes de todos os dias tinham de contorná-lo através dos passeios laterais, o que contribuía para reduzir o fluxo de curiosos. Além disso, chamava a atenção uma possibilidade não considerada por mim na noite passada, e que ele realizava com a mesma seriedade de antes, porém com a expressão mais abatida. Ele agora pedalava na direção anti-horária. Era como se estivesse empenhado em desfazer o percurso noturno, como se a luz do dia afinal apontasse o rumo certo. Embora pudesse ser para impedir a tontura e quebrar a monotonia, dava a impressão de que ele agora se movia para trás, como se estivesse arrependido ou descobrira um erro no que vinha fazendo. Parecia apagar as voltas dadas até o momento de inverter o sentido. Por outro lado, imaginei que ele desenvolvia uma visão nova e complementar da praça, como nenhum de nós donatenses tivéramos até ali. No coração da Matriz, ele via o avesso do que percorrera até aquela mudança — o avesso do que nós mesmos víamos no nosso cotidiano —, e isso, além de revigorar o ânimo, proporcionava novos recantos da praça para explorar. Ele agora podia considerar as coisas em volta pelo seu revés, num novo equilíbrio, e esses novos ângulos deviam lhe ajudar bastante a superar a repetição do mesmo, o tédio, o sono, o cansaço.

Logo depois do almoço, quando passei por ali em direção ao colégio, o quadro não tinha se alterado. Na aula de Educação Artística daquele dia, embora o tema fosse livre, o motivo principal dos desenhos foi o homem da bicicleta. Ele reaparecia ainda pedalando, agora no caderno dos colegas e no meu, sob as mais variadas formas e cores. Foi o assunto que dominou também o recreio. Diante do espanto de uma colega, que indagava porque ele não comia ao menos um pedaço de pão com mortadela, outro respondeu que talvez fosse pelo risco de se engasgar, um farelo podia lhe provocar um acesso de tosse, forte ao ponto de perder o equilíbrio e assim também a prova. Um terceiro disse que ninguém podia ficar tanto tempo sem dormir, e levantou a hipótese de que ele, o homem da bicicleta, talvez tivesse alguma técnica que lhe permitisse, se não cochilar, o que o garoto afirmava ser possível de olhos semiabertos por algum tempo, ao menos descansar enquanto pedalava. Talvez ele embalasse bastante, e, quando a bicicleta atingisse grande velocidade, podia ficar com os pedais suspensos por um bom tempo. Outro colega, que gostava de olhar as situações por seu lado cômico, disse não acreditar na seriedade da prova, em algum momento da noite o homem devia ter encostado a bicicleta numa árvore e se deitado num dos bancos para tirar uma soneca, trouxa eram os que acreditavam nisso que o pai dele tinha chamado de aberração humana.

Ao voltar para casa, coisa que fiz tão logo bateu o sino, tive nova surpresa ao ver que ele agora pedalava no sentido escolhido na largada. Isso de alguma forma me tranquilizou; senti como se depois das idas e vindas, ele, com a nova inversão, afinal encontrava o caminho acertado. Outra vez no sentido horário, ele até pedalava mais forte do que no meio-dia, quando corri para almoçar. Eu tinha a sensação de que ele, depois das tentativas anteriores, finalmente corrigira os erros de sua atuação, digamos assim, como se finalmente encontrasse a direção e o ritmo mais confortável para seguir adiante. Talvez, como já era o final da tarde e chegava a nova brisa do rio, ele tivesse concluído que a vitória, se não quebrasse nenhuma engrenagem da bicicleta nem lhe rompesse um músculo, nervo ou tendão, era coisa certa. Daí chegavam, quem sabe, esse novo assomo de energia e a confiança de que concluiria a prova, de que todos os fantasmas da noite estariam vencidos, de que todos os medos da manhã de sol estariam superados e de que nada mais de extraordinário lhe impediria a conclusão da prova — a grande incógnita da largada. Sua expressão, embora mais vincada pelo esforço sem trégua, os olhos em covas profundas, não tinha o abatimento da manhã, como se ele, curiosamente, recém tivesse acordado. Era bem isso: embora sério, estava desperto, e desperto como os que estão em plena atividade de seu ofício.

O homem da bicicleta venceu o desafio.

Na chegada, além do prefeito, do secretário de Esporte e Turismo e de membros do Rotary, algumas dezenas de pessoas aguardavam para vê-lo terminar o trajeto. Quando as 24 horas se concluíram, anunciado pelo presidente da entidade promotora do evento e reproduzido pela rádio, todos ali presentes começaram a aplaudir com entusiasmo, gritaram hurras e palavras de reconhecimento. Ele, com dificuldade, deixou a bicicleta amparado por um médico. Que logo tirou sua pressão e verificou seu batimento cardíaco. O homem que o vigiara durante a noite cumprimentou-o com efusão e lhe alcançou uma última garrafa de água. Ele a bebeu visivelmente satisfeito, banhado de suor, os cabelos grudados na testa. Despejou o final do líquido no alto da cabeça e o deixou escorrer pelas faces como se recebesse um último batismo. A mulher de um rotariano, logo em seguida, trouxe um ramo de louro e coroou sua cabeça, outra lhe ofertou um ramalhete de flores silvestres, recebidas por ele com sorriso de paisagem rural. A seguir, pousaram para a foto oficial, que iria para os anais do Rotary e da prefeitura e estamparia a capa de A Semana Donatense, batida pelo Bili, o fotógrafo anão no tamanho, mas grande no talento, como ele mesmo gostava de dizer subido numa cadeira. Depois de algumas fotos isoladas e de cumprimentos a populares, uma pequena comitiva o acompanhou até o Hotel Central, onde estava hospedado, para que jantasse e descansasse.

No outro dia pela manhã ele veio receber o cachê em nossa casa. Pacato, com gestos simples, vestia uma calça bege de tergal e uma camisa volta ao mundo bordô, com motivos florais em verde e azul, aberta num peito liso. Pediu licença para entrar no acanhado escritório onde o pai fazia alguns lançamentos no livro-caixa. O pai deixou sua mesa e foi cumprimentá-lo, falaram sobre a prova, e ele disse que apenas duas vezes temera não concluí-la, uma porque calculara mal a manobra para inverter a mão e, acossado por uma súbita tontura, quase se chocara contra o monumento. A outra, mais grave, foi quando pegou no sono e só acordou ao bater num banco, mas por sorte conseguira manter o equilíbrio.

O pai lhe entregou o dinheiro do cachê. Suas mãos inchadas tinham todos os dedos curvos, como se ainda segurasse os manetes da bicicleta. Era prova mais do que suficiente de que ele, para vencer o desafio, se agarrara todo esse tempo no guidom da bicicleta com todos os méritos, nervos e tendões.

Ele contou o dinheiro por cima e o enfiou no bolso da calça, cumprimentou o pai mais uma vez e deixou o escritório. Eu o acompanhei até a porta da rua, e antes de nos despedirmos, perguntei:

— Por que tu faz esse tipo de prova? 

Ele balançou a cabeça para os lados: 

— Porque não sei para onde ir. Se soubesse, não ficava dando voltas. 

Ele me deu as costas e partiu. Eu fiquei sorrindo, intrigado. 


Marcelo Degrazia nasceu em 1961, em Itaqui (RS). Com formação em Letras e Direito, fez cursos de extensão nas áreas de literatura, linguística e filosofia (Prof.ª. Olgária Mattos). Publicou a novela infantojuvenil A noite dos jaquetas-pretas (2007). Foi finalista do Prêmio Açorianos de Literatura com o romance Armadilha para Pedro (Narrativa Longa) e com o livro de contos O juiz e o papagaio (Criação Literária). Recebeu menção honrosa no Prêmio SESC de Literatura pelo romance As costelas de Eva. Fez oficinas de literatura com Márcia Denser, Léa Masina e L. A. de Assis Brasil. Vive em Nova Petrópolis (RS).
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