Poema | Priscila Merizzio

Você não inventou Paris
Mesmo assim, ela habita em seus seios,
Que o jovem namorado tocou. Você
Foge da chuva e se abriga nas músicas
Antigas. Anda de trem em trem, troca de vagões,
Troca de pernas. Faz parte do cenário
Paris te inventou, para no outono se encolher
No seu rosto translúcido
O professor de italiano te projetou musa
Você recusou. Pois, as musas são xícaras
Bonitas que perdem a utilidade com o tempo 
Em vez da língua dos amantes, fugiu sobre as águas.
Sua mãe morreu nas águas. Ela deu pedras
Aos pássaros. Depois, fincou-lhes uma estaca
Nos pulmões. Pesos mortos, colocou-os nos
Bolsos e mergulhou batendo as asas.
Você só quer ser marítima.
June, os homens que te amam sentem
Ciúme das suas tragédias. Da sua auréola
Triste: elas te dão o aval de toda grande poeta
As panteras são mais raras do que os anjos.

   Ilustração: Caco Galhardo
caco


Priscila Merizzio nasceu e vive em Curitiba (PR). Publicou os livros de poemas Minimoabismo (2014, semifinalista no Prêmio Oceanos) e Ardiduras (2016). 
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