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Entrevista | Sônia Barros

“Continuam me interessando as pequenas coisas” 

Da redação

Sônia Barros foi a vencedora do Prêmio Paraná de Literatura 2017 na categoria Poesia (Prêmio Helena Kolody), com o livro Tempo de dentro. Nesta entrevista, a autora nascida em Monte Mor (SP) fala sobre o processo criativo da obra, que “faz uma revisitação do passado através da memória”. Ela também cita as transformações de sua escrita desde 2014, quando venceu pela primeira vez o Prêmio Paraná, com a coletânea Fios.

“Acredito que houve mudanças no meu fazer poético assim como no meu pensar-viver, já que são indissociáveis. Os temas não mudaram muito desde os livros anteriores. Continuam me interessando as pequenas coisas, os acontecimentos aparentemente sem importância, o prosaico, e, sobretudo, as pessoas anônimas”, diz.

Além de poeta, Sônia também tem uma extensa trajetória na literatura infantojuvenil — são 18 títulos para crianças e adolescentes. Um de seus trabalhos mais recentes no gênero, o livro Tatu-balão, foi distribuído para mais de 2 milhões de leitores, que tiveram acesso à obra por meio da campanha “leia para uma criança”, da Fundação Social Itaú. Confira a entrevista. 

Divulgação
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Os poemas de Tempo de dentro foram escritos entre 2014 e 2017. Fale um pouco do processo de criação dos textos. 
Alguns poemas nasceram antes desse período, mas ficaram de fora do livro anterior, Fios, publicado em 2014. Percebi que poderiam vir a compor outro conjunto quando me dei conta de que um mesmo tema, uma espécie de eixo, os aproximava: a questão do tempo, tanto o cronológico quanto o memorativo. Um dos poemas, inclusive, dialoga com alguns versos que escrevi em 1986, aos 18 anos. A maioria, porém, foi nascendo entre agosto de 2014 e agosto de 2017. Meu processo de criação é lento, e com esse livro não foi diferente. A partir de uma ideia, imagem ou acontecimento, mas sempre algo que me espanta ou me comove e que deflagra o poema, escrevo e reescrevo diversas vezes, numa construção que chega a ser obsessiva. Apesar da aparente liberdade, tenho um compromisso com a linguagem, com a palavra, desejando fazer de cada poema um retrato. Quase sempre de coisas mínimas do cotidiano. Recortes de mundos interiores e exteriores. De mim mesma e, principalmente, do outro. Depois me afasto por alguns dias, semanas, ou meses. Até que a poesia me chama novamente e respondo como se recomeçasse. Muitas vezes, me sinto insegura e tenho dúvidas quanto à minha voz poética. Aliás, foi num momento de crise e incertezas que escrevi o poema Peixe sem guelras, que está na segunda parte de Tempo de dentro. Depois vivi um período de seca, como dizia o poeta Donizete Galvão, com quem muito aprendi sobre poesia e para quem dediquei Fios. Foi só depois da generosa leitura e estímulo que recebi do poeta Armando Freitas Filho, a quem sou imensamente grata, que decidi retomar e concluir Tempo de dentro

Como o nome da obra sugere, este livro é sobre a passagem do tempo?
Sim, embora vários poemas tratem de temas distintos, a questão do tempo tem me interessado cada vez mais (talvez por eu estar chegando aos 50 anos) e acabou se impondo durante o processo de criação desse meu terceiro livro. Em Fios também aparecem poemas que se ancoram na memória, como observou o crítico André Seffrin na orelha que faz a apresentação do livro. Mas o enfoque foi um pouco diferente. Tempo de dentro faz uma revisitação do passado através da memória, porém, sem aquele saudosismo como fuga do presente ou mesmo de um futuro sem perspectivas. Ao contrário, o presente e o futuro se formam justamente nesse prolongamento do passado revisitado pela memória, considerando a duração interior como uma transformação contínua. Por isso escolhi as epígrafes, extraídas de duas obras que me marcaram nos últimos anos: Memória e sociedade, de Ecléa Bosi, e Memória e vida, de Henri Bergson.

Você propõe uma diagramação diferente para alguns poemas do livro. Como essa disposição interage com o texto?
Embora minha poesia se aproxime da narrativa, num tom conversacional, e, na maioria das vezes, eu escreva versos livres, os cortes não são aleatórios. A partir do sentido e da sonoridade, sinto que alguns poemas pedem uma quebra, às vezes brusca, numa espécie de queda, levando o leitor (e, às vezes, a mim mesma) ao inusitado. Daí o uso do enjambement. Além da sonoridade aprecio a plasticidade do poema, o modo como as palavras que o formam são dispostas na página. E tento fazer de maneira intuitiva (mas não instintiva) com que acompanhem o ritmo e a respiração de cada verso, o andamento (como numa partitura musical) e suas pausas. Também semeio espaços para dar voz ao silêncio. E, quem sabe, voz ao pensamento e à emoção do leitor, numa tentativa de lhe estender uma ponte. Pois, como dizia Cecília Meireles: “Tenho medo da literatura que é só literatura e que não tenta comunicar”.

Em 2016 você lançou um novo livro para o público infantil. Como anda sua carreira de autora infantojuvenil?
Além de escrever, visito escolas e participo de feiras literárias em todo o Brasil. Tem sido muito enriquecedor esse encontro com leitores e educadores. Em 20 anos de carreira publiquei 21 livros, sendo 18 para crianças e adolescentes. Mais da metade é de poesia. Muitos foram transcritos para o braille e alguns adaptados para o teatro. O infantil Tatu-balão, editora Aletria, com ilustrações de Simone Matias, foi selecionado para a campanha “leia para uma criança”, da Fundação Social do Itaú, o que deu ao livro uma enorme visibilidade devido à distribuição gratuita para mais de dois milhões de leitores. Tatu-balão também recebeu o selo Altamente Recomendável da FNLIJ em 2015. Em 2016, pela mesma editora, publiquei Nas asas do haicai, um infantil com desenhos de Ângela Lago, que, infelizmente, faleceu em outubro passado. Ter um livro ilustrado por essa excepcional artista (e também poeta) foi um presente especial na minha vida e na minha carreira. Outra pessoa que faleceu recentemente, e que muito me ajudou na arte de escrever para crianças, foi a escritora Fanny Abramovich, para quem dediquei Nas asas do haicai, e também este Tempo de dentro.

Esta é a segunda vez que você vence o Prêmio Paraná de Literatura. Que comparação é possível fazer entre Fios (que ganhou em 2014) e este Tempo de dentro?  
Foi uma surpresa imensa vencer, pela segunda vez, esse prêmio que considero tão importante. Revivi a emoção que a escolha de Fios, em 2014, havia me proporcionado. Quanto à comparação entre os dois livros, vejo algumas semelhanças, por exemplo, na recorrência de certos temas: passagem do tempo; maternidade; infância; velhice; solidão; metapoemas; diálogos com as artes plásticas, com o cinema, com a música e com a obra de outros escritores. Vejo também diferenças: apesar de continuar buscando concisão e precisão, os poemas de Tempo de dentro me exigiram um fôlego maior, talvez por serem de caráter mais reflexivo que os de Fios; também me dediquei ao exercício da métrica e da rima, inclusive com sonetos (em decassílabos e em redondilha maior). Mas acho difícil fazer uma leitura crítica de meu próprio trabalho, ou uma análise comparativa entre dois de meus livros. Afinal, o escritor não é seu melhor leitor.  

E em relação a você, como poeta, o que mudou de lá para cá?
Aproveito o tema de Tempo de dentro para refletir sobre essa questão. Acredito que houve mudanças no meu fazer poético assim como no meu pensar-viver, já que são indissociáveis. As leituras que fiz, as pessoas que conheci, as situações pelas quais passei, os lugares onde estive, tudo isso vem conduzindo meu olhar e minha voz. Na verdade, os temas não mudaram muito desde os livros anteriores. Continuam me interessando as pequenas coisas, os acontecimentos aparentemente sem importância, o prosaico, e, sobretudo, as pessoas anônimas. Sinto, cada vez mais, que a literatura tem o poder de iluminar, e, sem cair no panfletário, oferecer esperança e possibilidades de resistência e transformação. Pensando nisso, inclusive, nasceu o poema Há em mim mulheres, não por acaso dedicado à escritora Maria Valéria Rezende. E eu acredito nisso, nesse poder da literatura, por causa da minha história de vida. A adoção me salvou da miséria extrema, mas, nem por isso, me ofereceu facilidades, pois minha mãe adotiva era pobre e trabalhou a vida toda como empregada doméstica. Tive que vencer muitas dificuldades para não interromper os estudos. A paixão pela literatura me deu forças, foi um estímulo-desafio a me mover. E esse encantamento começou na infância, nas visitas à uma biblioteca pública, motivadas pela mãe que mal frequentou escola, mas desejava que a filha tivesse acesso ao mundo dos livros. Não tenho dúvidas de que a poeta de hoje nasceu nesse encontro inaugural com a poesia, início da transformação da minha existência. Transformação contínua de quem se sente eterna aprendiz. 

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