Conto | Cristhiano Aguiar

Recortes de Hannah

Presos no elevador do edifício Hannah, Lucas e Lina. 

— O porteiro disse que vão resolver logo. — Ele disse, após colocar o interfone no gancho. Tudo escuro. As linhas de luz branca, vazando das frestas da porta do elevador.

Momentos antes, esperavam o elevador no hall de entrada do Hannah. Trocaram olhares durante a espera. Observando o painel antigo do elevador, Lina imaginava a si mesma mais alta; seus cabelos, castanhos e longos, lhe pareciam mais volumosos. Quando a campainha do elevador soou e as portas se abriram, o espelho sumiu.

Lucas apertou no décimo andar e Lina ficou quieta. 

— Qual o seu andar? 

— Oitavo... Grata.

De repente, um solavanco sacudiu seus corpos. O susto coincidiu com o escuro.

— Tudo bem? — Lucas quase esticou o braço na direção dela. 

— Que azar, hein? Será que demora? 

— Deixa eu falar aqui com ele. — E tateou até encontrar o interfone. A voz do outro lado da linha surgiu impregnada de ecos, ruídos. 

Ela passou a mexer no celular. Lucas a observava, protegido. Os traços do rosto dela o fizeram pensar em algum país do leste europeu. Uma pintura que tinha visto no dia anterior — uma madona. O cenário do quadro, sombrio, continha um desfiladeiro, pedras e a sugestão de um oceano; em primeiro plano, um livro aberto descansava sobre um crânio, cuja nuca se virava na direção do visitante. No centro, ocupando quase toda a tela, a madona. Parecida com Lina, porém os da santa eram cabelos mais claros e cacheados. Usava uma vestimenta azulada, meio solta, que revelava um pouco dos ombros, cotovelos e braços — além do desenho dos seios. Lina, o rosto abaixado, insistia com o celular; sua cópia, pintada séculos antes, mirava os céus com a boca entreaberta. 

— Tá pegando sinal no seu? — Ela perguntou. — Geralmente nesse elevador não pega.

Ele retirou o celular do próprio bolso e, nesse momento, Lina apagou o dela, guardando-o.

— Você mora aqui? 

— Não. — Tentou avaliá-lo à luz do celular dele. — Estou hospedada aqui, é a segunda vez.

— Também não achei sinal. — Lucas desligou o aparelho. — Você é de onde? Seu sotaque...

Lina não respondeu. A voz dele, outra vez sem rosto, lhe causou desconforto. Como se não bastasse, escutou o corpo de Lucas se mexendo: o atrito do tênis dele com o chão, o som da sua mochila deslizando pela camiseta e calça jeans. Apertou, com as duas mãos, as alças da própria bolsa e a posicionou de modo a cobrir a região da barriga. Deu um passo para trás e se apoiou na parede. Lucas, no entanto, não se movia em sua direção. Pelo contrário, se sentou e abraçou os próprios joelhos.

— Goiás. Sou de Goiás. Mas não moro lá. E você... Pernambuco? 

— Não, não. Embora tenha morado lá durante muito tempo. No Recife. Mas não sou de lá. 

— Já morei em Pernambuco... 

— É? 

— Sim. No sertão. Trabalho pro Iphan. 

— Sou do interior da Paraíba, na verdade. 

— Conheço muitas cidades do seu estado, também.

*****

No escuro, ressurge a enfermeira, uma senhora de pele negra e rosto redondo, que abriu a porta do apartamento onde seu pai morava, na rua do Boticário, e perguntou:

— Seu pai está acordando, você espera uns minutos? 

Lina conferiu as horas. 

— Quer uma água, um suco? 

— Não, obrigada. 

A enfermeira voltou ao quarto do pai. De braços cruzados, Lina ficou de pé no meio da sala minúscula. A atenção dela foi capturada por um conjunto de estantes escuras, feitas de madeira, ocupadas com medalhas e troféus. Primeiro, segundo, terceiro; ouro, prata e bronze: lá estava o nome dele, grafado sobre metal e plástico. Ficou ainda mais interessada em uma caótica aglomeração de fotografias e recortes de jornais e revistas. As imagens ocupavam boa parte de uma das paredes e nelas encontrou o pai alto, sorridente e bonito. Jovem. Os recortes e fotografias mais importantes estavam emoldurados. Ali, seu pai sempre vencia. E participava de comerciais, filmes, acompanhado com frequência por mulheres bonitas e famosas. Logo, Lina se deu conta. Tinha prometido a si mesma: “Não vou fazer mais isso”. 

Não procuraria. Nunca se rebaixaria a cobrar nada dele, porque é claro que não estava ali. 

É claro que não deveria ter ido outra vez a São Paulo.

— Mais um momento! — Ouviu a voz dele.

Na parede, diferentes países, prédios, choupanas, mansões, carros, brindes em canecas e taças; fotos com a sua atual esposa. Lina fungou um pouco. O seu rosto, não seria uma indiscrição revelar, adquiriu a mesma expressão doída e resignada de meses atrás, quando retirava a maquiagem diante do espelho, após mais uma desilusão amorosa; o mesmo rubor na face e aquele gesto lento, afiação de navalha, do chumaço de algodão dissolvendo a máscara pintada na pele.  

— Filha? — Perguntou o pai, sentado na cadeira de rodas empurrada pela enfermeira. No colo, as flores atrasadas.

*****

—E você vem de onde? 

— Lina perguntou a Lucas. 

— Ah, do Recife... 

— Não, não. Agora, digo, você estava...? 

— Lá no Butantã. Participei de uma entrevista a respeito de um projeto. Na verdade, estou aqui por causa de uma segunda entrevista. Pedi uma licença do meu emprego em Pernambuco e vou passar uma temporada na cidade. 

— Sei... 

— Sim, nesse prédio moram Natanael e Faustine, eles dividem um apartamento no décimo andar. Tu conhece eles? 

— Não. 

— Eles estão precisando de uma terceira pessoa. Vim conhecer eles e o lugar e tal. 

— E agora estamos presos. 

— É. E este elevador é o meu segundo engarrafamento da manhã. 

*****

Terminada a entrevista, Lucas esperou pelo coletivo que o levaria até a rua da Consolação. Conseguiu, pelo menos, pegá-lo vazio. Sentado à janela, encostou a cabeça e adormeceu. Quando voltou a abrir os olhos, descobriu o pouco que o ônibus tinha avançado. Algo de si, após o cochilo de 15 minutos, certa energia, tinha sido doada à cidade. 

Ouviu reclamações dos outros passageiros. Possuía uma vaga impressão de onde poderia estar — longe, porém, do destino final. No fim das contas, nada naquela rua sinuosa, apinhada de carros e de edificações ocupadas com comércios miúdos, soava muito diferente dos outros engarrafamentos e calores das tantas cidades nas quais tinha morado. Abriu a mochila e pegou o seu primeiro trabalho paulistano. O freela pagava pouco, mas lhe dava um senso de pertencimento. Ou melhor: Lucas se sentia como se a cidade já o tivesse “adquirido”. Folheou as provas da graphic novel. Olhou para a rua, relutante, mas por fim voltou toda a sua atenção aos quadrinhos que deveria, em poucas semanas, traduzir e revisar. A história, escrita e desenhada por um autor chileno radicado na França, se passava em uma grande cidade da era vitoriana; um século XIX alternativo, no qual carros movidos a vapor corriam pelas ruas, e autômatos, de fraque e cartola, caminhavam nas ruas. Lucas passou a acompanhar as desventuras dos protagonistas, um menino e menina pré-adolescentes, irmãos gêmeos de origem humilde, perseguidos por uma sociedade secreta relacionada à Liga das Nações. Inicialmente, rascunhou nas margens algumas observações sobre as dificuldades de certas palavras e fraseados; após algumas páginas, a leitura o envolveu de tal modo que deixou o lápis de lado. A narrativa se tornava mais e mais enrolada, com reviravoltas a cada página. 

Levantou a vista: o tráfego tinha melhorado e o ônibus, avançado bastante; no entorno, muitos prédios empresariais. Voltando à graphic novel, deu de cara com um desenho de duas páginas retratando a principal cidade da narrativa: os gêmeos a observavam a bordo de um balão; dirigíveis e pirâmides voadoras sobrevoavam o seu espaço aéreo; lá embaixo, tubos conectavam os prédios vitorianos entre si, e homens e mulheres voavam acima das ruas usando minifoguetes às costas; páginas adiante, explosões e batalhas envolviam humanos, autômatos e os gêmeos. Não pôde saber quem venceria a batalha — acabava de passar do ponto onde deveria descer.

*****

— Vim visitar meu pai. 

— Como? — Lucas perguntou. A voz de Lina tinha saído, sem que ela percebesse, aos sussurros. 

— Meu pai. Ele mora aqui. Quer dizer, não aqui, neste edifício, mas lá perto da praça da República. 

— Então você vem muito pra cá? 

— Não. Nunca fomos... próximos. Encontrei com ele hoje. Há pouco, na verdade. 

— E foi legal? 

Hesitou. 

— Foi. 

*****

Saiu do apartamento do pai às onze da manhã. Da rua do Boticário, chegou até a praça. Se fosse um dia usual de passeios pelo centro, Lina caminharia pela região com passadas lentas, dividida entre sentimentos de fascínio e revolta; teria sentado em algum banco e retirado da bolsa o pequeno caderno de croquis, seu companheiro inseparável; se poria a observar os rostos das pessoas e o tempo. Ziguezagueou, porém, até chegar onde não esperava: em um famoso largo, onde havia a estátua de um anjo de bronze postada acima de uma torre de mármore. Os seus olhos vendados, o corpo coberto de pichações e cocô de pombos, os braços e asas abertos. Prédios cansados se aglomeravam em volta do largo, ruas estreitas. A estátua não era a principal atração turística. O lugar abrigava também um conjunto de feição colonial, pintado de branco, composto por uma igreja e um anexo que poderia ser um claustro ou um colégio. Lina permaneceu, durante um bom tempo, estudando as linhas das duas edificações, as simetrias, o acabamento, a única torre da igreja. Procurava resgatar da memória alguma aula, ou texto, sobre... claro, as janelas: os dois prédios em tudo se assemelhavam, no seu exterior, aos modelos originais que um dia, dizem, deram à luz toda uma cidade. Teria sido um trabalho minucioso de reconstrução, não fossem as janelas ligeiramente equivocadas do colégio.

Decidiu dar uma olhada no interior. Apesar dos prédios e de todo o barulho lá fora, estar no largo tinha lhe transmitido uma sensação de claridade e folga; o interior da igreja, por outro lado, embora desprovido de qualquer adorno, ou santos, ou pinturas (havia apenas um mosaico em uma das paredes, representando o rosto barbudo do Cristo), lhe transmitia uma escuridão habitada em excesso. Sentou em um banco próximo ao púlpito. Não, não havia um altar. Na verdade, o despojamento do interior a faz pensar em um templo mais protestante do que católico. O púlpito, com sua iluminação de ficção científica, composta por luzes embutidas formando linhas verticais e horizontais nas cores azul e laranja, era a grande atração.  

Quando se cansou, Lina levantou do banco e entrou na sala anexa ao templo, localizada próxima às portas da entrada. Tratava-se de um museu em miniatura, onde pôde ver a história do largo e da cidade. Iconografias, vestimentas clericais, uma maquete, dois computadores com vídeos e animações; ignorou tudo isto e fixou sua atenção em uma caixa de vidro, um relicário, instalada no centro da sala. Dentro do relicário, um osso cinzento. “O fêmur do Padre Anchieta.” Ali o Coração da Cidade não era um osso qualquer arrancado de um corpo arruinado. Inerte, o relicário não lhe fez promessa alguma. Não solicitou piedade, não lhe contou nenhuma nova história, não lhe impôs o Cristo. A imaginação dela foi incapaz de urdir, contra o próprio tempo, o mínimo de coerência para que se formasse um corpo. “E sou só uma sombra pra você”, ela pensava, “sou breve demais, pequena.” 

*****

Lucas, por outro lado, desceu tão apressado do ônibus que pisou em falso e quase teria metido a cara no chão, se alguém esperando no ponto não o tivesse segurado. Subiu a Consolação. Próximo já ao Hannah, uma cena o impediu de continuar caminhando. Na frente de uma loja abandonada, dois monges, de pele muito branca, se ajoelhavam na frente de um mendigo, cujo rosto moreno estava cheio de espuma. Um dos monges, lâmina na mão, tentava barbeá-lo. Sentado, as pernas cobertas por dois cobertores imundos, o mendigo espremia os olhos e vincava a boca. Sua cabeça inclinava-se para trás. Certo movimento, tenso, percorria o seu corpo inteiro.

Se um dos três tinha notado sua presença, nada fizeram. Preferia assim. Temia tanto que o rechaçassem dali quanto que o chamassem para ajudar. Tempos depois, ele escreveria e-mails aos amigos relatando aquela cena; fez questão — isto lhe pareceu justo e justificador — de inventar um nome para o mendigo: Caetano. O que não dizia a ninguém, mais por pudor do que por ter achado a associação estranha, foi o fato de que, ao observar o rosto do mendigo, lembrou de uma pequena escultura. Um minúsculo coração esculpido em ferro e que tinha visto no museu onde estava exposta a pintura da madona. Toda uma parede fora reservada apenas à escultura. Era preciso ficar bem perto a fim de saber do que se tratava e poder captar detalhes: as discretas chamas saindo da sua base, a corrente de espinhos envolvendo a víscera metálica, os olhinhos, a boca de Caetano, as linhas de um rosto. 

*****

— Mas seus pais moram em Recife?

— Não, eles moram em Campina Grande. Eu morava em Recife com minha esposa. 

— Ela também veio? 

— Não. Ela se foi. 

A resposta dele foi dita com uma voz grave, luto.

Silenciaram. Ao redor de Lucas nasciam e se desenvolviam estruturas cada vez mais intrincadas, cheias de múltiplas funções e mecanismos autossuficientes; prédios vitorianos iluminados contra um fundo de estática, luzes de batalha e palavras de ordem; vidas correndo em ruas e avenidas onde tudo era amputado de qualquer ocupação e sombra. Lina, por sua vez, finalmente sentava no piso. Pensava em mais uma foto, mantida durante três décadas por sua avó. Foto? Não exatamente. Por um motivo que nunca descobriu, nem se esforçou para investigar, a única imagem sua com o pai, na qual os dois brincavam em uma piscina, tinha sido recortada de uma foto maior. Ela teria incluído, só podemos especular, outras tantas pessoas e até um quintal; quem sabe um cachorro babão, duas ou três mamães. No escuro, Lina acabava de encontrar a linha do horizonte de uma paisagem. Por que não mergulhar a partir dali? Acima das águas, ela pairava. O oceano disforme.

O milagre, então, aconteceu: as luzes do elevador acenderam. Depois, o som das engrenagens; um empurrão sacudiu os corpos e ambos se levantaram.

— Finalmente. — Lina, aliviada. 

O elevador acabava de parar no oitavo andar. 

— Até a próxima pane, moço! 

Saiu apressada. Não sei se houve resposta.  


Cristhiano Aguiar nasceu em Campina Grande (PB), em 1981, e vive em São Paulo (SP). É crítico literário e professor dos cursos de Letras e Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Em 2012, integrou a edição da revista Granta que elegeu os 20 melhores jovens escritores brasileiros. O conto publicado nesta edição faz parte do livro Na outra margem, o Leviatã, que será publicado em março pela editora Lote 42. 
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