Entrevista | Henrique Schneider

Dentro das entranhas de um período que não deve se repetir

Da Redação

Henrique Schneider venceu o Prêmio Paraná de Literatura na categoria romance com Setenta. A longa narrativa se passa, a exemplo do que o título sugere, na década de 1970, com mais precisão, em 1970. O protagonista é um bancário, de 25 anos, que mora com a mãe no centro de Porto Alegre. O cotidiano dele é, basicamente, casa-trabalho-casa. Até que ele é “capturado”. Raul dos Santos Figueira é preso, por engano, confundido com um “comunista”.

Em entrevista ao Cândido, Schneider conta como elaborou o romance, que começou a ser escrito no fim de 2014 e foi finalizado em abril de 2016. Mais que isso, o escritor afirma que Raul, o protagonista, não é inspirado especificamente em uma trajetória. “Na verdade, Raul é personagem sem maior trajetória, alguém absolutamente comum e anônimo que, involuntariamente, é jogado para dentro das entranhas de um período que não deve se repetir e que, da pior forma possível, abre os olhos para o que estava acontecendo”, comenta o escritor que nasceu e vive em Novo Hamburgo (RS) e é autor, entre outros livros, de O grito dos mudos (vencedor do Prêmio Maurício Rosemblatt de Romance) e Contramão (finalista do Prêmio Jabuti). 

Schneider diz que, em Setenta, tudo é ficção — mas, ao mesmo tempo, tudo aconteceu: “Aconteceu a tentativa de sequestro do cônsul norte-americano em Porto Alegre. Aconteceu um aumento de repressão política e policial depois desta tentativa. Aconteceram prisões por engano. Aconteceu de pessoas sem qualquer envolvimento político serem torturadas. Existiam os locais clandestinos de tortura. As aulas de tortura aconteciam, com cobaias vivas”. 

Setenta e os outros dois títulos vencedores do Prêmio Paraná de Literatura 2017 — A bandeira de Cuba, de Marcelo Degrazia (Contos), e Tempo de dentro, de Sônia Barros (Poesia) — serão publicados, ainda no primeiro semestre deste ano, pelo selo Biblioteca Paraná. Schneider comemora o fato e afirma que ter conquistado o Prêmio Paraná de Literatura, entre outros efeitos, vai amplificar o debate acerca dos temas de seu romance — tortura e ditadura. 

   Divulgação
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Quando você concebeu Setenta? Demorou quanto tempo para pensar, elaborar, escrever e colocar o ponto final no romance? 
Setenta foi o livro que escrevi mais rapidamente. Costumo anotar a data em que começo a escrever uma história: após um tempo de anotações, entrevistas, conversas, leituras e maturação, Setenta começou a ser escrito em 6 de dezembro de 2014 e sua primeira versão ficou pronta em 13 de setembro do ano seguinte — ou seja, a primeira versão do livro foi escrita numa velocidade incrível. A primeira revisão, feita ainda no calor do texto, terminou em outubro do mesmo ano; a segunda findou em abril de 2016, porque dei ao livro o necessário tempo de gaveta. Assim, sem contar o período de maturação que precede a escrita em si, o livro ficou pronto em menos de um ano e meio. Depois disso, fiz apenas alguns ajustes — uma vírgula aqui, uma palavra ali (talvez mais por vício do que por necessidade), e nada mais do que isso.

O Raul é inspirado em uma trajetória real? A partir de quais matérias-primas você construiu o personagem? 
Não, Raul não é inspirado especificamente nesta ou naquela trajetória. Na verdade, Raul é o personagem sem maior trajetória, alguém absolutamente comum e anônimo que, involuntariamente, é jogado para dentro das entranhas de um período que não deve se repetir e que, da pior forma possível, abre os olhos para o que estava acontecendo. Raul tem certa humanidade simples, cotidianinha, que — me parece — também está nos personagens de meus livros anteriores. Assim, ele não foi difícil de compor. Quanto ao livro como um todo, há algo interessante: dei-me conta que, no Setenta, tudo é ficção — mas, ao mesmo tempo, tudo aconteceu. Aconteceu a tentativa de sequestro do cônsul norte-americano em Porto Alegre. Aconteceu um aumento de repressão política e policial depois desta tentativa. Aconteceram prisões por engano. Aconteceu de pessoas sem qualquer envolvimento político serem torturadas. Existiam os locais clandestinos de tortura. As aulas de tortura aconteciam, com cobaias vivas. Ou seja: tudo o que está no Setenta aconteceu — só tive o trabalho e o cuidado de juntar tudo isso em uma história só.

A ideia de dividir o livro em capítulos, em um ziguezague temporal, incluindo situações-chaves do romance é um diá- logo direto com o cinema, com a linguagem cinematográfica? De que maneira você arquitetou o enredo? 
A divisão do livro em capítulos que acontecem num ziguezague do tempo aconteceu porque achei que seria mais interessante que a história fosse contada de forma menos linear. Achei que assim o livro ganharia ritmo. Desse modo, a história vai e vem, mas tudo num intervalo temporal bastante breve, já que toda a ação acontece em menos de dez dias — por isso, o cuidado no sentido de que os títulos de cada capítulo servissem para situar bem o leitor. Não houve a intenção expressa de um diálogo maior com a linguagem cinematográfica — mas é claro que, ao longo da escritura, percebi esta possibilidade. O enredo foi arquitetado da mesma maneira que os meus outros livros: primeiro traço uma espécie de “esqueleto”, faço uma pré-divisão dos capítulos, imagino quantas páginas terão e escrevo umas três ou quatro frases sobre o que deve acontecer em cada um deles. No decorrer da história, isso sempre muda — mas tenho, ao menos, uma base a que me agarrar se, de alguma forma, começo a me perder do texto. Só depois desta pequena arquitetura é que me ponho verdadeiramente a escrever.

E a ideia de colocar alguns capítulos com a voz da mãe do Raul, capítulos de apenas um parágrafo, mas intensos e sintonizados com a oralidade? Foi algo que o livro pediu? 
Acho que sim. O livro pediu, a fim de ganhar mais ritmo e variedade. Mas, mais do que isso, era imperioso colocar naquela história a voz da mãe. Isso porque achei necessário ampliar a tristeza e a dor da situação, multiplicá-la. A dor da tortura vai sempre além de quem a sofre. E não há imagem mais forte da dor do que a da mãe que sofre por seu filho. A incerteza de dona Irene sobre o que aconteceu com Raul — se está vivo ou morto, bem ou mal — é um sofrimento tão grande quanto a própria tortura, tanto que na cela ele seguidamente pensa em como estará a mãe. Dona Irene é uma e muitas — pensei nas mães da Praça de Maio enquanto a escrevia.

A publicação de Setenta amplia o debate sobre a ditadura no Brasil, ainda mais sendo um livro que venceu um prêmio? O assunto é, em sua opinião, ainda pouco debatido em profundidade?
Espero que sim, porque se trata de um assunto pouco e mal debatido no Brasil. Fico muito assustado quando vejo que uma pessoa que homenageia publicamente o coronel Brilhante Ustra, um torturador que levava os filhos pequenos de presos e presas para assistirem às torturas a que eram submetidos os seus pais e mães seja hoje tratado como mito por pessoas que nasceram após o período da ditadura (ou, ao menos, o período mais duro dela) e que, num desconhecimento preocupante, saíram às ruas para bradar pela volta deste tipo de regime. É simples: ditaduras prendem sem motivo, ditaduras torturam, ditaduras matam, ditaduras não permitem vozes discordantes, ditaduras corrompem. Aliás, é um profundo equívoco pensar que qualquer ditadura seja o remédio para a corrupção — a melhor forma de combate à corrupção é o fortalecimento e o aperfeiçoamento da democracia, sempre em direção ao aumento da transparência, visibilidade e participação popular efetiva.

O que o prêmio representa em sua trajetória literária? 
Deonísio da Silva, que foi jurado do extinto Prêmio Mauricio Rosemblatt de Romance (que premiou meu livro O grito dos mudos), disse que concursos não ensinam ninguém a escrever, mas podem dar mais volume à voz de quem escreve. Acho que é bem isso. Nesse sentido, minha alegria por vencer esta edição do Prêmio Paraná de Literatura se “divide” em três partes. A primeira, claro, é uma alegria pessoal, já que o Prêmio Paraná é um dos concursos literários mais importantes do Brasil. A segunda é porque, vivendo e escrevendo em Novo Hamburgo — cidade a quarenta quilômetros de Porto Alegre —, acho que o prêmio abre um foco benfazejo sobre a literatura que se produz fora dos centros editoriais maiores. (Aliás, me parece que esta também é a condição da Sônia Barros e do Marcelo Degrazia, respectivamente vencedores do concurso nos gêneros Poesia e Contos, a quem aproveito para parabenizar.) E a terceira — e maior — alegria é pelo livro em si, pela oportunidade de amplificar o debate acerca dos temas — tortura e ditadura — sobre os quais ele trata.

Setenta dialoga com a sua obra literária já publicada? De que maneira? 
Acho que sim. Ainda que seja um livro no qual perdi certo medo do diálogo e da oralidade — medo, este, bem mais forte em minhas obras anteriores — o fato é que Setenta tem vários pontos em comum com o que escrevi antes. É uma novela mais ou menos curta, como são os meus demais livros. Também como os demais, ele tem personagens extraídos da vida real — gente que se pode enxergar caminhando pelas ruas — e toda a ação se desenvolve num pequeno intervalo de tempo. (O grito dos mudos e Contramão, por exemplo, têm enredos cuja ação não dura mais que um dia). Por fim, outra semelhança é o fato de ele ter o foco central num único personagem e numa única ação — fico mais à vontade em tais construções.

Já está escrevendo outro livro? O que pode falar a respeito? 
Estou pensando e fazendo apontamentos, me preparando para escrever uma história de amor, que acontece no início do século passado, numa cidade mais ou menos imaginária da zona alemã do Rio Grande do Sul. Não sei se será fácil escrevê-lo. 
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