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Poemas | Julia Raiz

O que o fogo faz ao ouro

nos filmes os gatos sabem antes
quando a terra vai tremer
o sol se apagar
sabem das grandes ondas
e da fumaça cegando
o horizonte
pena que nas igrejas não existam
gatos de verdade
são todos de madeira inflamável
sangrando com flechas
cruzadas no peito e
um pano muito roto
cobrindo as partes 

O que a água faz ao ouro

eu tinha um pinto
grudado a um prato
como um chaveiro
tentava colocá-lo
de volta onde não
pertence você querendo
vestir uma camiseta camuflada
de vaca ou de exército
recitando hinos por chacota
pedindo pra levar
um tapa na cara
querendo tomar banho
de banheira
na minha água suja
que nem os empregados
do palácio colonial:
primeiro o patriarca
depois a esposa e os filhos
por último a criadagem
você, mal criada

O que a terra faz ao ouro

iniciadas nos estudos secretos
da alkhemia africana
as três vestindo pink
chupando sorvete de chiclete
fugindo rápido dos
empregos de 9h às 6h
se reúnem para pintar
a cara uma das outras
com lama
cor de montanha fatiada:
verde esmeralda
gosto de cobre
os olhos muito estatelados
brilhando contra o fundo preto 


Julia Raiz nasceu em São Paulo (SP). É autora do livro de poemas diário: a mulher e o cavalo (2017). Vive em Curitiba (PR).
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