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Conto | Lúcio Manfredi

Se esta carne tão sólida... 

Se esta carne sólida, tão sólida, 
se esfizesse, fundindo-se em 
orvalho! 
Hamlet

Gota a gota o sangue verte. Não muito. Não muito depressa. Pingando, pingando, pingando. Espero um instante antes de buscar na gaveta uma película bandaid. Por essa eternidade, as pequenas gotas vermelhas são um hipnótico metrônomo que bate seu fascínio em sincronia com o ritmo de meu coração. Então, vem a película e cobre tudo, como se o tempo andasse para trás e obturasse o ínfimo corte na ponta de meu dedo.

Fico pensando por que faço isso. Não seria necessário, mesmo que não fosse apenas um arranhão provocado pela borda lascada de um copo. Não seria necessário mesmo que fosse um rasgão de lado a lado em meu ventre. Não seria necessário nem mesmo se meu sangue jorrasse numa tempestade através da jugular aberta. E no entanto sempre há hábitos que se adquirem ao longo dos longos anos, e que se modificam, aperfeiçoam-se para acompanhar o passar dos tempos mas, mesmo assim, estão sempre aí, imutáveis em sua essência fundamental. Para mim, proteger minha vida como se pudesse perdê-la é um dos mais antigos.


                                                                                                                Ilustração: Felipe Rodrigues
Foto conto lucio manfredi
No entanto, acabei cedo ou tarde descobrindo que essa característica não era transmissível geneticamente. Claro que eu não conhecia os termos nessa época. Mas os fatos se encarregaram de mostrar que eu não a herdara de meu pai e não a legara a meu filho. Vi o céu e a terra se abrirem para tragar a ambos. Primeiro, o velho John, que me trouxe ao mundo. Logo em seguida, por uma incrível coincidência, meu pequeno Hamnet cavalgou sua doença para além da sepultura. Fico olhando as gotas de sangue que secam sobre a mesa, não muitas, não muito grandes, e me perguntando se ainda me lembro realmente de seus rostos, ou se as faces que vejo em meus sonhos não são apenas retratos de Galton de todos os que assisti irem e virem neste mundo. O vento carrega embora as certezas quando o tempo é infinito.

Quando esse vento soprou para mim e dissolveu os fiapos de nuvens que me pareciam formas? Quando se quebrou a magia da peça porque tive minha atenção atraída para as vigas de madeira do cenário? Ao descobrir que era o filho imortal de pais mortais, e o pai eterno de um filho efêmero, não foi difícil responder a essas perguntas.

Embora arrastada através dos séculos e originadora de alguma fama, minha vida não foi pontuada por grandes acontecimentos, e todos eles quando eu já sabia que era imortal. Exceto um, e o mais importante deles. Só posso situar ali o ponto de virada, em que minha linha da vida se afastou de seu percurso pré-traçado e apagou seus limites fatais.

Era uma Coisa que não sei como veio nem sei de onde era. Não posso dizer que a vi, pois ela se resumia a uma presença. Mas também resumir é um termo impreciso, pois parece enfraquecer a impressão, que era intensa mais que tudo. Melhor dizer que a Coisa se concentrava em sua presença.

Hoje eu penso, depois de tudo que aprendi, que se tratava de uma entidade formada por alguma espécie de campo neguentrópico. Como todo nosso sistema perceptivo é orientado por processos de entropia crescente, não há como elaborar uma imagem da Coisa. Ela só pode ser representada da maneira com que minha memória a representa, sob a forma de uma pura presença.

Nem sempre minha memória agiu assim, contudo, e antes dessa representação se fixar no trilhamento de minhas recordações, várias imagens fantasmáticas tentaram ocupar seu lugar vazio, criando formas paradoxais que se denunciavam como ilusórias em seu sem pé nem cabeça.

Logo depois que a Coisa se foi, achei que tinha visto um fantasma. Deixei-o se formar em meu espírito, conforme a semelhança de um homem metido em armadura, seu elmo levantado e a barba pontuda e ruiva se projetando para a frente. Então, exorcizei-o, pois a Coisa não tinha nada daquilo. Não obstante, arquivei seu espectro para um possível uso futuro.

A película bandaid já dissolveu em meu dedo. Com um pano úmido, limpo as manchas vermelhas e ainda um pouco molhadas da mesa. Virando a borda lascada do copo para o outro lado, bebo o uísque cuja demanda deflagrou todo esse monólogo mental. Através das placas de transparência subjetiva na parede, vejo o Sol como que ensaiando se mergulha ou não no horizonte de Urblunae, tingindo de vermelho o azul do céu. Será que o Sol também cortou o dedo ao passá-lo na borda da Lua terraformada? Antropomorfismo, diz-me o fantasma de Frazer: um comportamento típico da mentalidade pré-lógica. Está bem, admito. Mentalidade pré-lógica. Mas terá existido algum poeta ou qualquer outro artista sem essa mentalidade pré-lógica?

Não tenho sequer um livro meu na biblioteca. E, apesar disso, escrevi centenas deles, com dezenas de pseudônimos, nenhum tão conhecido quanto meu verdadeiro nome. Não posso mais usá-lo, entretanto, e isso há já alguns séculos — bem se vê, oficialmente estou morto. E os que mais estranhariam se me conhecessem seriam justamente os que me tratam por bardo imortal.

Termino de beber. O Sol termina de se pôr. Apago as placas de transparência subjetiva e vou para meu quarto. Ali está a cama que me acompanhou ao longo dos longos anos. Ela é como a faca de Lichtenberg, da qual se trocam todas as peças mas nem por isso deixa de ser a faca de Lichtenberg. Nenhuma de suas partes é mais a original, e ainda assim, ela continua sendo minha melhor cama, na qual me deito. Espero que minha primeira mulher tenha aproveitado bem minha segunda melhor cama, penso antes de dormir e talvez sonhar. 


Lúcio Manfredi é roteirista de TV e escritor. É autor dos romances Dom Casmurro e os discos voadores (2010) e Encruzilhada (2015). 
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