Poema | Pedro Gonzaga

2015

                                                                 Ilustração: Samuel Casal 
ilustração gonzaga

e alguma coisa feito rock subsiste
e também um novo vírus resistente
e seguem à venda os heróis obsoletos
e os filmes todos caducaram
e o amor seguiu erradas pontes
e os amantes desafetuam-se em indiretas
e o choro já não parece uma coisa humana
e as casas apodrecem à sombra dos edifícios
e os adolescentes ainda fedem a hormônio 
e as roupas que usam alimentam fungos
e os pais metralham estúpidas perguntas
e as escolas parecem saudáveis
e o passado é só o passado
e os rios agora são um cenário móvel
e as árvores bonitas nas maquetes
e as pessoas protestam nas ruas
e a bebida espera pelas gargantas secas
e muitos farão sexo ao fim da noite
e um ou outro ativista estará morto
e uma ou outra mulher estará grávida
e os carros voltarão a circular normalmente
e as ruas seguirão desmemoriadas
e nós dois teremos divergido antes
e um parque ficará à nossa espera
e um restaurante servirá uma mesa a menos
e a promoção do motel será inútil
e novos túneis serão abertos
e mais quinze anos
e um novo cinquentenário
e então outro século e ninguém
capaz de registrar a imbecilidade sagrada
de uma perda genuína sequer


Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, publicou os livros de poesia A última temporada, Falso começo e Em outros tantos quartos da Terra. Em 2016 fez sua estreia na crônica com O livro das coisas verdadeiras. Gonzaga vive em Porto Alegre (RS). 
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