Capa | Um gênero cercado de gêneros

Crônica de um livro de crônicas 

No primeiro semestre de 2018, o selo editorial Biblioteca Paraná publica O tempo visto daqui, uma inédita antologia reunindo crônicas publicadas desde o início da imprensa paranaense até hoje. Organizador da obra, o professor e escritor Luís Bueno reflete sobre a produção local e os critérios que estabeleceu para selecionar o vasto material encontrado durante o trabalho de pesquisa

Fiquei um instante sem reação diante do convite para organizar uma antologia de textos de cronistas paranaenses, desde o início da imprensa no Estado até o presente, num prazo de alguns meses. Permaneci calado, pensando que seria uma tarefa impossível. Com a experiência que já tinha de pesquisa em jornais e revistas, só me vieram à mente, nesse primeiro momento, as horas virando páginas de que a gente precisa, tantas vezes, para localizar um único texto. Percorrer mais de um século da imprensa do Paraná, ou seja, centenas e centenas de jornais e revistas numa busca mais ou menos cega exigiria um tempo descomunal, de que uma pessoa sozinha não disporia nunca, nem numa vida, quanto mais no espaço de alguns meses.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 Foto: Vilma Slomp
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Valêncio Xavier (1933- 2008) ficou conhecido pela fusão entre texto e imagem. Na virada dos anos 1960 para os 1970, escrevia semanalmente sobre literatura no suplemento dominical do Diário do Paraná.

No instante seguinte, um outro pensamento, esse bem menos ajuizado, me ocorreu: por que não? Uma antologia, afinal de contas, é sempre uma escolha que se faz num universo possível, nunca no universo inteiro. Se todo mundo pensasse que precisaria ler todos os contos, todos os poemas, todas as frases de amor, e assim por diante, para organizar uma antologia, não haveria uma só antologia no mundo. Depois, o organizador de antologias é um pouquinho como o tradutor: toda gente está pronta para apontar seus deslizes — como deixou de fora este ou aquele, tão bons? por que incluiu este outro, tão ruim? — sem pensar na enormidade da tarefa que precisa executar. Enfim, sem uma dose de irresponsabilidade não haveria antologias. No caso específico da crônica, há um agravante quantitativo. Sim, há muitos e muitos poetas, que escreveram muitos e muitos poemas — mas o que dizer dos cronistas? Imagine um único, que tenha publicado, semanalmente, por um período limitado de dez anos num dado jornal. Só este indivíduo teria produzido mais de quinhentas crônicas! E olhe que eu não sabia, àquela altura, que um artista como Alceu Chichorro publicaria, sob o pseudônimo Eloi de Montalvão, crônicas diárias, durante mais de 30 anos, no jornal O Dia — além de mais uma charge também diária. 

Além disso, o jornal, veículo por excelência da crônica, é um tipo complicado de publicação, enraizado que é no cotidiano. O jornal de hoje é vivo, o de ontem é papel de embrulho, o de 50 anos atrás é raridade e história. Já me aconteceram coisas engraçadas ao pesquisar jornais velhos, como, por exemplo, topar com um anúncio de 1934 do mesmo hotel em que estava hospedado, mais de sessenta anos depois, o que significou ver em pleno esplendor, luxuoso, o estabelecimento agora decadente. Ou algo emocionante, até comovente para mim, quando, ao virar as páginas do suplemento dominical do Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, em busca de críticas de romances, topei inesperadamente com o conto “Baleia”, de Graciliano Ramos, e ser tomado pela ideia de que uma de minhas leituras mais marcantes, o romance Vidas secas, ainda não existia, mas estava nascendo ali naquele domingo de 1937.

Apesar disso tudo, não me passaram pela cabeça as novas experiências que viveria depois de aceitar o convite, ao percorrer, por exemplo, as páginas de jornais do meu tempo de infância e adolescência — vale dizer os anos 1960, 1970 e 1980 — e ver ressuscitarem nomes, fatos, histórias, enfim, que estavam esquecidos e sentir diretamente, na pele se poderia dizer, essa passagem do cotidiano à memória que a leitura de jornais antigos provoca. 

Aqui começo a pôr o carro adiante dos bois, e falo da tarefa em andamento antes de explicar em que termos ela começou. Volto, então, ao momento da falta de juízo, o daquele “por que não?”, que acabou vencendo e levando a esta antologia. Afinal, um momento sem juízo se justifica, mas é preciso algum senso para levar uma tarefa dessas até o fim. E esse senso conduziu ao estabelecimento de alguns critérios que chegaram à seleção dos textos que compõem o livro.

Os dois primeiros, básicos, contemplaram o que seria compreendido como “crônica” e o que seria “paranaense”.

Crônica paranaense
Definir um gênero literário, seja qual for, principalmente em nosso tempo, não é tarefa simples. Na prática, os gêneros se misturam, se desfiguram, se reconfiguram, se redefinem o tempo todo. Pode poema sem verso? Pode. Pode romance sem ação? Pode. Pode conto de 100 páginas? Pode. E esse poema continua poema, esse romance continua romance, esse conto continua conto? Continuam. Mas na crônica a mistura é ainda mais delirante porque se trata de um gênero híbrido de nascença. Filho ao mesmo tempo do jornalismo e da literatura, nele parece caber tudo. Pode ser texto de opinião, pode ser texto informativo, pode ser texto ficcional, pode ser um texto ficcional de opinião ou um texto informativo de opinião ou um texto ficcional informativo ou ainda qualquer outra coisa. Se uma ilha é terra cercada de água, ou seja, algo isolado por coisas que não são de sua natureza, a crônica é uma espécie de anti-ilha: um gênero cercado de gêneros por todos os lados, comunicando-se com todos e incorporando tudo a partir do olhar dessa figura curiosa e atenta que é o cronista. 

O nó da questão seria, portanto, escolher elementos que servissem como critérios mais estáveis para se considerar que um texto era uma crônica e pudesse ser incluído nesta antologia, mas, ao mesmo tempo, sem que se sufocasse a grande variedade que é a marca do gênero. Afinal, se esta antologia atravessaria mais de 150 anos de produção, era preciso levar em conta as várias formas que o gênero foi assumindo. Há aqui até mesmo textos que a alguns leitores talvez nem parecerão crônicas. E eles poderiam me perguntar, por exemplo, se “A alma do príncipe”, de Rocha Pombo, embora publicado num periódico, não seria mais um apólogo ou um conto moral exótico. Eu, por meu turno, poderia responder que a crônica não é totalmente estranha ao apólogo e o fato de ter saído num periódico que publicou crônicas justifica sua presença aqui. Algo semelhante se poderia perguntar sobre o belíssimo texto do poeta e crítico José Paulo Paes, “Nós num começo de vida” (leia na página 28). Embora o autor nunca tenha sido cronista militante, não é difícil localizar aquele olhar pessoal sobre o passado — tão exercitado pelos cronistas quanto o olhar sobre o cotidiano — que nos revela ao mesmo tempo um momento significativo da vida cultural do Paraná e um sujeito que se desenha sutilmente no decorrer do texto enquanto fala dos outros. É um testemunho, e não é por sê-lo que deixa de ser crônica. Um olhar sobre o tempo de juventude. Um olhar sobre o tempo.

E esses dois casos-limites podem servir para deixar claro o que foi considerado crônica neste livro: é o texto publicado em jornal e revista que instaura um olhar próprio para os fatos e para a linguagem. Pode parecer um pouco subjetivo, mas é exatamente a subjetividade que cria o cronista, essa figura que nem é a pessoa biográfica do autor (por mais confessional que ele seja ou demonstre ser) nem a figura puramente ficcional do narrador clássico do romance. Os grandes cronistas criam, no exercício cotidiano da escrita, uma verdadeira persona que o leitor termina por identificar à primeira vista. Esse é o caso do nosso maior cronista moderno, Rubem Braga, mas é também o de cronistas anteriores a ele, como Lima Barreto e Machado de Assis. E é também o de alguns cronistas paranaenses marcantes, como Roberto Gomes, Domingos Pellegrini e Wilson Bueno — para ficar apenas em três grandes nomes que fizeram a travessia do século passado para o atual escrevendo crônicas.

Enfim, definir “crônica” não foi fácil, mas foi possível.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Foto: Kraw Penas
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O jornalista José Carlos Fernandes publica crônicas no jornal Gazeta do Povo desde 2008. Seus textos revelam personagens pouco conhecidos de Curitiba.

Esse primeiro sucesso, digamos assim, sugere que definir “paranaense” talvez também seja possível. Os paranaenses, aquelas pessoas que nasceram no território do Estado do Paraná, como se sabe, viajam, mudam-se, publicam em diversos lugares. Por outro lado, um monte de gente — eu mesmo — não nasceu nos limites desse território, mas se muda para o Paraná, escreve e publica aqui. Por isso, lugar de nascimento, que define civilmente um paranaense, não cabe como critério quando se trata de literatura. Nem seria o caso, porque impossível, de discutir e descobrir o que seria tipicamente paranaense como tema ou linguagem. Felizmente, no caso da crônica, que nasce sempre na imprensa, há um critério objetivo que se pode usar: paranaense é toda crônica publicada em jornais e revistas paranaenses. Não importa se o cronista nasceu no Paraná ou noutro Estado, não importa se tratou de temas identificáveis como paranaenses. Não importa se morou aqui por um ano ou a vida quase toda: cronista paranaense é aquele que publicou na imprensa do Paraná. É claro que, de novo, o critério gerou ausências — e eu vou mencionar somente a mais marcante delas aqui. Um dos cronistas mais lidos da imprensa brasileira na virada do século XIX para o XX foi um paranaense de nascimento: Emílio de Meneses. Acontece que não consegui localizar crônicas suas em periódicos publicados no Paraná, embora tenha localizado uma enorme produção sua em jornais do Rio de Janeiro. Por isso, ele não aparece no livro.

Limites
Estabelecidos esses critérios básicos, era preciso fazer a grande tarefa: escolher uma crônica de cada cronista. E, nessa tarefa, a primeira decisão de todas foi a de nem sequer cogitar ter a veleidade de escolher a melhor crônica publicada por este ou por aquele autor. Se essa atitude estaria condenada ao equívoco mesmo com a leitura integral da obra de um autor, seja pela instabilidade de critérios de valor, seja pela interferência contínua de algum sempre questionável mas também sempre presente gosto pessoal, o que dizer de uma seleção feita sobre uma leitura fatalmente tão parcial? 

E, se aquele pensamento irresponsável foi o responsável pela aceitação da tarefa, este outro pensamento, o de abrir mão da posição superior de quem seleciona e de aceitar integralmente todos os pontos cegos envolvidos na tarefa, foi nada menos que libertador, aquele que de fato viabilizou o trabalho. Ficou afastada qualquer pretensão de ir atrás de todas as crônicas de um autor ou localizar todos os cronistas paranaenses. O encargo seria o de localizar cronistas e crônicas significativos, ler tanto quanto fosse possível no espaço de alguns meses — que, afinal, com os atrasos que foram sendo gentilmente tolerados, acabou se estendendo por quase um ano — e fazer uma escolha dentro desse universo.

Dessa forma, foi possível escolher uma crônica dos três cronistas paranaenses há pouco mencionados. Veja-se o caso de Wilson Bueno. Foi um cronista prolífico — e é inacreditável que essa produção ainda não tenha sido amplamente recolhida em livro — e de um alcance extraordinário, com experiências curiosas, como as de exercitar o realismo mágico numa série de textos, por exemplo, ou dedicar outra série aos animais, tema que também exploraria noutros gêneros. Ao mesmo tempo, criou personagens aos quais sempre voltava, uma galeria não muito numerosa mas significativa, composta por um amigo aqui, uma vizinha velhinha ali, ou seja, sempre alguém em relação direta com o cronista. A crônica “Vitória, a única” foi escolhida porque traz uma dessas figuras por meio das quais um tipo mais vasto — o do polaco — se desenha, propiciando ao escritor um divertido exercício de linguagem, de manejo de estereótipos e de visão sobre si mesmo. 

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A revista Joaquim (1946-1948) e o jornal Nicolau (1987-1996) publicaram crônicas de autores importantes, como José Paulo Paes e Dalton Trevisan. 

Também foi na relação do eu que falo no texto com uma personagem — esta ligada de forma íntima ao cronista que se exercita nesse fio de navalha que é o eu compósito de ficção e de confissão — que recaiu a escolha por “Escolhendo Deus”, de Domingos Pellegrini, na qual a mãe em final de vida e o filho conversam e, com humor e melancolia, vai-se criando uma reflexão sobre o fim da vida e sobre a maturidade, sobre os papeis que encarnamos e seu sentido ou falta de sentido. 

Em “Um homem triste”, de Roberto Gomes, o olhar do cronista é mais sutil: ele prefere ficar a distância. A crônica capta uma cena cotidiana num lugar banal — um bar qualquer — na qual dois personagens se definem em traços rápidos: o Tonin, misterioso, e o cego Tião, o dono do tal bar. Em torno deles todo um grupo se apresenta. E a persona do cronista, onde está? No silêncio final, na múltipla visão sobre o mistério de Tonin, na atitude terra-a-terra mas nem por isso superficial do cego Tião, no próprio mistério que não se resolve.

Um terceiro critério a se estabelecer era o dos limites da antologia. Os limites temporais, por exemplo, estavam dados: de um lado, a imprensa no Paraná começou com a publicação de O Dezenove de Dezembro em abril de 1854; de outro, o momento em que o trabalho de seleção das crônicas começou a ser feito, o segundo semestre de 2016. Nesse longo intervalo, não se negligenciou época nenhuma. Isso significou, por exemplo, não privilegiar o presente somente porque ele é naturalmente mais familiar. Haverá, é claro, momentos mais representados do que outros, mas isso se deve, em grande medida, aos movimentos históricos da própria imprensa paranaense. A virada do século XIX para o XX, por exemplo, teve um grande surto de periódicos por aqui. A militância em favor da Proclamação da República, aliada à emergência do Simbolismo, vividas por uma geração de intelectuais muito ativa, levou à abertura de inúmeros jornais e revistas, abrindo espaço para que um número significativo de escritores publicasse suas crônicas. Eventualmente também surgem iniciativas que, embora isoladas, são tão significativas que revelam um número considerável de autores. Esse é o caso da revista Marinha, editada em Paranaguá nas décadas de 1930 e 1940, assim como da “Nossa Coluna” e do suplemento “Letras e Artes”, que circularam por um breve tempo, mas tiveram grande impacto. De toda maneira, o leitor encontrará textos de todo o largo intervalo temporal que esta antologia cobre.

Também foi fácil estabelecer um limite quantitativo: como já se adiantou, cada autor teria apenas uma crônica publicada — procedimento que, presumivelmente, evitaria desníveis entre tempos e escritores. A única exceção, curiosamente, diz respeito não bem a um autor, mas ao jornal inaugural da imprensa paranaense. Constituído basicamente por textos de leis e decretos — fazia as vezes de diário oficial — e por artigos não assinados, sem dedicar um espaço específico para a crônica, O Dezenove de Dezembro forneceu dois textos para a antologia. Um deles é a reprodução daquilo que mais se aproxima da crônica, uma “revista”, que mistura polêmica sobre a construção de estradas de acesso ao litoral do Estado, notícia sobre a decisão de se construir o primeiro cemitério da capital e o registro do nascimento de uma sociedade recreativa. O outro, confesso, foi um capricho meu. Mas vejam lá se não tenho alguma razão para o capricho. Um belo texto, direto, escrito por um cidadão sem lides literárias, Antônio Rufino Nunes, que simplesmente colhe o testemunho e o pedido de Francisca Placidina, escrava alforriada moradora de Ponta Grossa que se vê de volta à escravidão, separada dos filhos livres, que são vendidos, tudo porque os herdeiros de sua senhora, agora morta, simplesmente ignoram que ela é livre. Tendo procurado a justiça de sua comarca, não é atendida, como era de se esperar, e resolve pedir a intervenção do próprio Presidente da novíssima Província do Império, Zacarias de Gois e Vasconcelos. Não sosseguei enquanto não encontrei, nos números posteriores do jornal, o desfecho do drama dessa mulher, que adianto aqui para os que, como eu, ficarem aflitos com essa história. O Presidente manda até a comarca de Castro um emissário, que investiga a situação e envia relatório descrevendo várias irregularidades. A família, incluindo a filha de D. Placidina que a esta altura estava em Guarapuava, é reunida em Curitiba, às expensas do governo, para aguardar o desfecho judicial, que lhe seria favorável. Seja por reconhecimento legítimo dos direitos dessas pessoas, seja por meio de um gesto de autoridade do Presidente da Província, a quem certamente não interessava que uma comarca importante tivesse uma elite local que agisse sem prestar contas ao novo governo, todos são restituídos à liberdade. O que o jornal não nos conta  — e nem poderia contar — é o destino daquela família, o que puderam fazer quando de posse dessa liberdade. 

Mas voltemos ao rol dos limites — e tratemos de notas de rodapé. O volume não teria — como não tem — nenhuma nota de rodapé. A ambição era a de proporcionar uma experiência fluente de leitura. Para conseguir tal feito, o desafio era coligir crônicas que, embora entranhadas na vida de seu tempo, pudessem ser lidas hoje sem que fosse necessário recorrer a nenhum aparato erudito. O leitor vai ver se isso foi possível. Eu acho que foi.

    Foto: Henry Miléo
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Nascido em Blumenau (SC), Roberto Gomes está radicado em Curitiba desde os 20 anos de idade. É autor de diversos romances, entre eles Alegres memórias de um cadáver (1979), Os dias do demônio (1995) e Todas as casas (2004). 

Quase como consequência dessa limitação, excluí subgêneros específicos como a crônica esportiva, a social e a política, que sempre envolvem personalidades de grande visibilidade num certo tempo e que somem da vida pública, deixando poucos rastros na memória das gerações seguintes, exigindo muitas notas de rodapé. Também ficou de fora a crônica literária, ramo da crítica — embora o texto de Valêncio Xavier aqui incluído possa ser considerado uma exploração original desse tipo de crônica. Assim, ficamos restritos àquilo que poderíamos chamar de crônica do cotidiano, em sua feição bastante aberta em relação aos problemas que aborda. E não é de espantar que, mesmo com a exclusão da crônica esportiva, por exemplo, o esporte dê as caras por aqui. 

O tempo presente
O que não limitou em nenhum momento a seleção dos textos foi algum perfil de autor desejável. Aqui, nomes muito conhecidos do jornalismo e da literatura do Paraná aparecem ao lado de outros, bem pouco lembrados. Essa é, para mim, uma qualidade desta antologia, a de trazer à lembrança intelectuais de diferentes áreas e épocas que, tendo mantido colaboração em jornais e revistas, não se tornaram escritores de renome, fosse por qual motivo fosse. Longe de enfraquecer o conjunto, essa abertura confere uma variedade maior a ele e o enriquece. Foi possível, inclusive, localizar tanto textos de mulheres cujos rastros é difícil achar, como Cecy Cabral Gomes e Celina Silveira Cruz, quanto de escritoras que, a despeito de terem tido atuação intensa, são pouco lembradas, como Raquel Prado e Ilnah Secundino. Ou perceber que, ainda muito antes do estabelecimento de um sistema de ensino superior desenvolvido no Estado, professores ocuparam espaço na imprensa do Paraná — de forma que o professor que agora organiza o livro, um pouco surpreso, não se viu como absoluta minoria, figura totalmente externa.

Com esta abertura, deixamos de lado os limites para enfrentar um outro problema. Se está resolvida a forma de seleção das crônicas, o que dizer de uma decisão talvez anterior que é a escolha dos cronistas? O mais razoável não seria escolher os autores e, depois disso, mergulhar em seus textos para selecionar um deles? Em tese, talvez fosse. Mas na prática, são tarefas, as de se selecionar autor e texto, que se realizam simultaneamente, não há como separá-las. A gente vai às fontes, localiza um cronista aqui, outro ali, vai lendo. Em algumas ocasiões, topa-se com uma produção regular e é possível conhecer várias crônicas de um mesmo escritor num curto espaço de tempo — o mesmo acontece quando essas crônicas foram reunidas em livro. Noutras, ao examinar um periódico, a gente se depara com um cronista, depois com outro, então com um terceiro. Não há muito o que fazer, a não ser ler, anotar a existência das crônicas e se deixar levar por algo que — pelo menos é o que penso — é sempre útil: fazer com que as leituras se acumulem e abram entrada aos poucos num universo desconhecido, permitindo que esse universo se revele, também pouco a pouco.

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Romário Martins (1874-1948) foi historiador, ensaísta, jornalista, cronista e político. Suas obras mais conhecidas são de história, principalmente História do Paraná (1898) e Terra e gente do Paraná (1944), mas publicou livros em outros gêneros de prosa, como Ruínas (1888) Eu (1931) e Paiquerê (1940). 

No caso desta antologia, esse lento processo levou a uma percepção — óbvia, mas que, confesso, não estava assim tão clara para mim no início do processo — que exerceria influência decisiva sobre o resultado final. É a percepção de que ela, não importa o arco temporal que procurasse cobrir, tinha em mira um leitor de um tempo específico: o presente. Mais do que simplesmente reunir “amostras” de uma produção passada, era preciso organizar um conjunto que fosse vivo e pudesse, pelo menos potencialmente, interessar a alguém de hoje. É claro que isso não pode significar uma mera projeção daquilo que o leitor de hoje valoriza sobre toda a história da crônica no Paraná, projeção essa que recusaria certas abordagens e certas formas de escrita que nosso tempo pudesse considerar “ultrapassadas”. Afinal de contas, uma antologia como esta tem a utilidade de, num espaço concentrado, nos confrontar com as formas de encarar a literatura que tiveram existência muito antes de aprendermos a ler, muito antes de termos nascido. Como todo leitor descobre, mais cedo ou mais tarde, há muita novidade na velharia.

Não seria o caso, portanto, de fazer concessão ao gosto contemporâneo, elegendo-o como o critério por excelência de escolha, e sim o de pensar na organização de um volume menos fragmentário, que procurasse romper com o isolamento de cada texto. Assim, tentei escolher textos que dialogam com outros textos, de tempos diferentes, escritos sob perspectivas diferentes. A proposta é a de que o leitor de hoje, mais do que uma recolha de crônicas, tenha nas mãos um volume orgânico, ainda que não uniforme, no qual possa ir encontrando caminhos dentro do conjunto relativamente extenso que percorre.

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Osvaldo Pilotto (1901-1993) foi engenheiro, professor do Instituto de Educação do Paraná e do curso de Economia da Universidade Federal do Paraná. Publicou diversos trabalhos na área de história, como A criação da província do Paraná (1953) e Cem anos de imprensa no Paraná (1976).

Mas não vou tratar desses caminhos. Esta é uma crônica de um livro de crônicas, não das crônicas que ele contém ou dos cronistas que as escreveram. Não tem a função de apresentar cada crônica nem cada cronista, mas sim o de colocar todas à disposição do leitor. A minha esperança é a de que aquele que percorrer o livro, levado pela organização afinal de contas aleatória da ordem alfabética do nome dos autores, ou pelo capricho de quem o abre em qualquer ponto e folheia, vá estabelecendo relações as mais diversas, não somente aquelas que estão previstas pelo organizador, como as que apontei, quanto outras, as que o próprio leitor vai descobrir e construir, atravessando estilos, pontos de vista, temas, vozes, e chegando, ao final de sua experiência de leitura, a uma imagem de como o tempo foi sendo visto e construído aqui, neste ponto do planeta onde a existência ainda pulsa continuamente. Exatamente como em qualquer outro lugar e, ao mesmo tempo, diferente de todos.  


Luís Bueno é professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e autor de Uma história do romance de 30, publicado em 2006 pela Edusp e pela editora da Unicamp. Também organizou o livro Capas de Santa Rosa, com a produção editorial do artista gráfico Tomás Santa Rosa, obra publicada em 2015 pelas editoras Sesc e Ateliê. Bueno vive em Curitiba (PR).
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