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Crônica | José Paulo Paes

Nós num começo de vida

                                                                                                                        Ilustração: André Caliman
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A inda hoje, 40 anos após ter deixado definitivamente Curitiba, sou às vezes tido como escritor paranaense. Isso porque, embora paulista da região da antiga Araraquarense, foi em Curitiba que de fato nasci, ou acreditei ter nascido, para a literatura. O parto se deu nos idos de 1947, quando ali saiu o meu primeiro livrinho de poesia, O Aluno, publicado pelas Edições O Livro. As atividades dessa editora ad hoc, tanto quanto sei, parecem ter se limitado a três modestas, mas simpáticas, brochuras. As duas outras eram Os Gatos,  de Armando Ribeiro Pinto, e O Marinheiro, de Glauco Flores de Sá Brito. Traziam, as três, capas do pintor Carlos Scliar, que não só fez todo o projeto gráfico das edições como convenceu José Cury a emprestá-las sob a égide de sua revista, O Livro, de cujo suplemento literário éramos os mentores.

Eu chegara a Curitiba dois anos antes com o propósito de estudar química. Estudei-a, sim, mas nos intervalos da militância política e literária de esquerda. Tinha vindo de São Paulo já mordido pelo vírus de ambas, e em Curitiba encontraram elas clima propício à sua eclosão. Aquela foi, como nenhuma outra, uma época de fermentação de ideias. A luta contra o fascismo levara a uma generalizada tomada de consciência, culminada, entre nós, na campanha pró-anistia (a outra), na redemocratização do país (ainda a outra) e na legalização do Partido Comunista (mas uma vez, ai de nós, a outra). Durante a guerra mundial, os olhos provincianos haviam aprendido a se voltar para a amplidão do mundo: um dos romances dessa época se chamava, significativamente, Grande e estranho é o mundo. O alargamento de visão se traduzia inclusive num boom editorial, já que os livros são janelas permanentemente abertas sobre o mundo. Nessas janelas nos debruçá-vamos nós, os da geração do imediato pós-guerra — também chamada, com menos propriedade, geração neomodernista ou geração de 45 — para respirar a plenos pulmões os novos ares que começavam a soprar.

Esses ares chegaram até Curitiba, então um pacato burgo de estudantes e funcionários públicos onde floresciam, outrossim, as academias de letras: desconfio que àquela altura tivesse, por quilômetro quadrado, mais acadêmicos do que qualquer outra cidade brasileira. Para contrabalancear esse handicap, haveria nela, porém, dois grupos literários visceralmente antiacadêmicos. Pouco tempo depois de arribado a Curitiba liguei-me a um deles, o da revista Ideia; faríamos em seguida os suplementos literários de O Dia e do Diário Popular, além do de O Livro. Os membros mais históricos do grupo eram Armando Ribeiro Pinto, Glauco de Sá Brito e Samuel Guimarães da Costa. Encontrávamo-nos no velho Café Belas Artes, na rua 15, que Eduardo Virmond com razão definiu como a melhor universidade que o Paraná já teve. Pela mesma época, Dalton Trevisan começara a editar o seu Joaquim, em que chegamos a colaborar. De Dalton se dizia então, com uma indisfarçável ponta de despeito pela novidade dos seus contos, que eram de quem tivesse lido Faulkner em versão espanhola. Hoje estou muito mais inclinado a crer que foi Faulkner quem leu Trevisan, possivelmente nalguma versão secreta feita por John dos Passos, que sabia algum português.

Os dois grupos antiacadêmicos se aproximaram mais um do outro por ocasião do Segundo Congresso Brasileiro de Escritores, que se realizou em Belo Horizonte, ainda em 1947. Graças a uma estratégia bem planejada, conseguimos evitar que os imortais nos tornassem a dianteira e lá fomos, irreverentes mortais, representar o Paraná. Nossa comitiva era integrada por Temístocles Linhares, Samuel Guimarães da Costa, Armando Ribeiro Pinto, Dalton Trevisan, Glauco de Sá Brito, Colombo de Sousa e eu. Em Minas e no Rio tivemos oportunidade de estabelecer contato pessoal com os “novos” de outros Estados (que também tinham conseguido passar uma rasteira nos acadêmicos coestaduanos) e com monstros sagrados como Drummond, Graciliano, Zé Lins, Jorge Amado, Carpeaux e outros. 

Depois do congresso de Belo Horizonte, ainda me demorei mais um ano em Curitiba para terminar os estudos de química. A paixão política já começara a esfriar, minada pelo processo de entropia que a camisa-de-força do secretarismo burocratizado necessariamente desencadeia. Mas a paixão da literatura não perdeu o pique. Continuou a crescer em São Paulo, para onde vim nos fins de 1948, embora se ressentisse da falta do calor humano daquela comunhão de ideias, projetos, realizações e ilusões que os amigos curitibanos haviam prodigalizado ao meu começo de vida literária. Desde então, voltei umas poucas vezes a Curitiba. Mas a cidade tinha crescido demais, se deixara desfigurar pelo câncer desenvolvimentista. E os azares do tempo haviam se encarregado de dispersar o nosso grupo. Senti sobretudo nunca mais ter podido ver Glauco de Sá Brito. Da primeira vez que voltei a Curitiba, ele andava pelo Rio. Da segunda, já estava estupidamente morto, ele que tanto gostava da vida. Esse gosto ilumina toda a poesia que escreveu, poesia em que as incertezas e as promessas do amor serviram para pôr em funcionamento uma admirável máquina lírica. De quantos poetas conheci de perto, Glauco foi quem melhor me deu a impressão do poeta por fatalidade daquele cuja vida coincide com a sua poesia. Em Glauco, vivência e expressão estavam cronologicamente muito próximas uma da outra, quase não havia, a separá-las, a tranquilidade post-factum postulada por Coleridge para o recolhimento poético da emoção. Lembro-me até hoje das circunstâncias de ordem pessoal que inspiraram alguns dos poemas do seu primeiro livro. O segundo, publicado no Rio, não cheguei a vê-lo, mas me comovi com o terceiro, Azulsol, já póstumo, que a dedicação de amigos do poeta em boa hora salvou do esquecimento. Alegrou-me reencontrar ali, mais maduro no domínio da forma, mas sem nada a perder da força de sua imediatez lírica, o mesmo Glauco de quem recebi as primeiras lições de como fazer da poesia, mais que mera arte da palavra, uma arte de vida. Lições que desde o meu segundo nascimento curitibano tenho me esforçado por não esquecer.


José Paulo Paes (Taquaritinga, 1926-São Paulo, 1998) foi um dos mais importantes poetas brasileiros da segunda metade do século XX, além de tradutor e crítico literário. Formou-se químico industrial em Curitiba e exerceu a profissão até 1963, quando passou a trabalhar na editora Cultrix. Estreou em 1947 com o livro de poemas O aluno e depois publicaria volumes como Anatomias (1967), A poesia está morta mas juro que não fui eu (1989) e Prosas seguidas de Odes mínimas (1992), entre outros. Traduziu poetas e prosadores de várias línguas, entre os quais Konstantin Kaváfis, Laurence Sterne, Hoelderlin e Paladas de Alexandria. “Nós num começo de vida” saiu no número de junho de 1988 do Nicolau.
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