Crônica | Marta Morais da Costa

Ficção em sala de professores

                                                                                                                          Ilustração: André Caliman
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O calor da noite anunciava mais uma daquelas chuvaradas de espantar o mormaço e fazer descer a poeira do ar. A expectativa era de um final de dia mais fresco e limpo. A sala dos professores era um burburinho só. Os poucos minutos do intervalo permitiam um copo de café engolido às pressas, alguns sorrisos e, no máximo, uma troca de palavras que não podiam esperar a respeito dos alunos, diários de classe, programas ou avisos da direção.

Impiedosamente, os estudantes ainda retiravam do mínimo descanso docente alguns minutos para resolver dúvidas ou fazer reivindicações — principalmente abono de faltas ou recuperação de notas. O café quente descia, com sofreguidão, quase trazendo lágrimas aos olhos do professor, enquanto ele se decidia a não perdoar mais uma das frequentes ausências daquele aluno displicente.

O ambiente barulhento foi surpreendido por uma exclamação tão espalhafatosa, tão absurdamente exagerada, que as cabeças todas se voltaram ao mesmo tempo para o autor. O café perigosamente dançou nos copos de plástico, as mãos congelaram-se em gestos incompletos, as palavras emudeceram em sílabas inusitadas, ocasionando um discurso desengonçado, que encheu a sala de espanto.  

O epicentro da surpresa, jornal nas mãos, olhar que parecia engolir as letras, contrariado, boca aberta e sem som, era um velho professor, às vésperas da aposentadoria, ainda capaz de incentivar em seus alunos a vontade de aprender, mas um tanto descrente da eficácia de uma vida dedicada ao magistério.

Os que lhe estavam próximos distinguiram a custo as primeiras palavras que conseguiu balbuciar: “Não acredito!”, dizia ele, num misto de frustração e desânimo. Curiosos, os que conseguiam alcançar com os olhos a página do jornal, seguiam o dedo indicar do velho mestre e deparavam com nota em destaque na coluna social: “Jeoclécio T. W. P. Mirândola, recém-nomeado para importante cargo num dos ministérios em Brasília, preside uma campanha para adoção de sua obra Amar os livros e a leitura como texto paradidático nas escolas brasileiras de Educação Básica”. 

O movimento habitual na sala dos professores sofreu brusca reviravolta.

— Quem é esse? — alguns indagavam, com expressão curiosa. Outros aguardavam informações, mas um terceiro grupo, de professores mais antigos, sacudia incrédulo a cabeça. O velho professor adiantou-se, esclarecendo:

— Entre os alunos que passaram por aqui enquanto sou professor, Joeclécio era o mais desinteressado, o menos curioso, o que estava sempre pronto a armar alguma confusão em que pudesse levar vantagem. Embora não seja de apostas, arriscaria o salário do mês como ele jamais leu um livro inteiro durante todo o tempo que esteve aqui. Muito ruim para nós que o aprovamos, mas acreditávamos que seria pior para ele, pois havia perdido todas as oportunidades de crescer intelectualmente. Ora vejam... Agora, além de escrever um livro, está no ministério!

Alguns professores mostravam um sorriso irônico, enquanto outros pareciam tomados por dúvida que, embora não expressas, eram dedutíveis no olhar surpreso: “Tudo o que pregamos será inútil?” “É possível ocupar altas funções sem estudo e sem leitura?” “Escritores não precisam ser leitores?”

Ao fundo da sala, uma professora franzina e tímida, arriscou:

— Tive um professor que se recusava a reprovar alunos, mesmo os mais fracos ou indisciplinados, porque, segundo ele, a vida se encarregaria de selecionar os mais aptos... Como explicar essa notícia?

Imediatamente, um professor otimista, com um copo de café em meio, retrucou:

— Vai ver que ele mudou ao longo desses anos todos. — uma gargalhada em uníssono invadiu a sala, misto de descrença e ironia.

— Quem não sabe, escreve... — ao que imediatamente completou outro professor: — ...e vende! 

Nisso, a sala começou a esvaziar-se, pois o grande relógio da parede anunciava o segundo tempo das aulas noturnas. Ficou na sala apenas o velho professor quase aposentado, o jornal entre as mãos, o olhar de volta ao passado, um irônico sorriso nos lábios e uma triste conclusão: “Jeoclécio, um amor a livros... fechados. Mais uma ficção, uma vida virtualizada na vitrine da aparência, mais um texto oportunista a ser empurrado goela abaixo das escolas brasileiras”.

Terminou de beber seu café, dobrou o jornal, que largou sobre a mesa, e, de cabeça um pouco mais curvada, deixou a sala, convicto de que a aposentadoria era seu melhor projeto profissional.

Enquanto isso, a chuva continuava a cair, o ar continuava abafado, mas a sala se transformara num espaço silencioso, em que pairavam surpresas e dúvidas. 


Maria Morais da Costa (Ouro, 1945) é professora de literatura. Atuou durante mais de quatro décadas na Universidade Federal do Paraná e também na PUC-PR. Dedicou-se sobretudo ao estudo do teatro — além de ser autora de uma peça, Femina (2000) — e da leitura. Publicou vários textos acadêmicos e, entre outros livros, Mapa do mundo: crônicas sobre leitura (2006), que inclui este texto, Palcos e jornais (2009) e Sempreviva, a leitura (2009).
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