Crônica | Adriano Robine

Enterro de gente pobre               

                                                                                                                         Ilustração: André Caliman
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Naquele findar de tarde, o sol tombava magnífico. Era um desses poentes translúcidos de Curitiba, onde luz e cor brincam de pega-pega na tristeza da paisagem. As púrpuras do ocaso tingiam os túmulos, e o silêncio do campo santo era quebrado apenas pelo estridente chilreio dos pardais, que se recolhiam aos ninhos. Fui ao cemitério matar uma grande saudade: minha mãe, meu pai, meus irmãos, meus amigos...

Passei longo tempo pelas avenidas ermas e silenciosas; alguns visitantes retardatários faziam orações. Pensei na vida, pensei na morte e saí com mais saudades. Quedei-me ao lado do cemitério, a esperar o bonde. Eis que surge, no topo da rua Trajano Reis, o féretro de um pobre. Os cavalos, cansados, talvez, de terem corrido muito pelas ruas da cidade, vinham em andante sostenuto, como diria o músico. O chicote do cocheiro estalou duas ou três vezes, mas sem resultado. Os quadrúpedes continuavam em marcha lenta, deixando de lado a pressa do cocheiro. Já vi aquela cena centenas de vezes, e de tanto vê-la é que, por certo, se me tornou banal e fria. Mas, naquela tarde que morria, a cena banal e fria mudou de aspecto. Aquele enterro sem acompanhamento, triste em sua mudez, tocou-me a alma. Há qualquer coisa de sutil no fundo do nosso coração — o sentimento. Resolvi acompanhar aquela tristeza que tão bem se casava com a minha tristeza. Naquela quietude universal eu me lembrava de minha pobre condição de mortal, pois lá dentro do cemitério eu falara mais com a morte do que com a vida. E isso, às vezes — dizem os moralistas —, por curtos momentos, nos torna melhores... No instante em que ia acertar passo, a fim de seguir o carro fúnebre, estanquei para ouvir certas vozes indistintas que me vinham da consciência: “Vê lá se alguém não está a olhar-te! Que coisa é esta de acompanhar enterro de indigente desconhecido? Não vês, louco, que os teus amigos podem ver-te neste momento e, com razão, suporem que és parente ou amigo do morto pobre? Isto não ficará bem. Que não dirão eles?” Olhei para todos os lados e não vi ninguém; só o cocheiro, mas esse não me viu. Sosseguei e dei graças a Deus dos olhos do preconceito não estarem ali. A minha sensibilidade voltou envergonhada ao coração. Fiquei apenas curioso. O sentimentalismo — segredou-me ainda a vaidade — pertence ao mundo bíblico, a um mundo que já morreu... Hoje, amigo, os arranha-céus sobem ao firmamento e os nossos sentimentos descem à terra...

Chegamos. Ao portão, nervoso e impaciente, com um carrinho de mão, estava o coveiro.

— Ó, José — disse ele dirigindo-se ao cocheiro — “vamo” acabar com esse “troço” de trazer defuntos a esta hora — e, jogando o caixão de pinho no carrinho, arrematou violento: — Que raio de coisa, sempre a mesma chorumela!...

— O que tenho com isso?... respondeu displicentemente o cocheiro. E lá se foi, em passo de alegreto, alçando o carrinho de mão, o coveiro. E eu a lhe seguir os passos rápidos.

— Nós devemos ter piedade para com os mortos! — falei de manso ao Tobias rebelado.

— Piedade para com os mortos? Ora, essa é boa... Por que o senhor não se lembrou de apiedar-se quando era vivo?... Os mortos não precisam de piedade; os vivos pobres é que a necessitam...

Calei-me envergonhado, e fui diminuindo os passos, e desapareci. Afinal de contas, quem terá razão nisso tudo? Eu creio firmemente que são os cavalos, pois eles, correndo vertiginosamente a carregar defuntos pobres, por certo desconhecem os segredos do coração humano!... 


Adriano Robine (Curitiba, 1902-1982) foi professor e crítico de arte. Exerceu as funções de diretor do Colégio Estadual do Paraná e do Instituto de Educação do Paraná. Dava grande importância ao papel da arte na educação, tendo apoiado Guido Viaro na criação da “escolinha de arte” do Colégio Estadual, no final dos anos 1940. Foi um dos redatores da “Nossa Coluna”, mantida pelo Diário da Tarde de Curitiba na década de 1940. Esta crônica foi publicada nesse espaço em 15 de agosto de 1944.
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