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Crônica | Heloisa Seixas

A dor no exílio

Há sempre um desconforto quando se passa uma Copa do Mundo longe de casa — fora do Brasil e também fora do país onde está acontecendo o torneio. Há a dificuldade de assistir às partidas pela televisão, a falta de calor humano, a ausência de gente em volta vestida de verde-e-amarelo, dos fogos, das buzinas. Tudo. É uma espécie de exílio, em que todas as feridas doem mais: o nervosismo antes e durante os jogos, a punhalada a cada gol adversário e, finalmente, a sensação de total desamparo se acontece o que mais tememos — a eliminação.

Isso me aconteceu duas vezes. E, por uma coincidência terrível, nos dois casos eu estava em um dos lugares mais inóspitos para se assistir a uma decisão de futebol: um aeroporto.

Uma das ocasiões foi justamente nesse jogo da foto, entre Brasil e Holanda, Copa de 2010, em que os holandeses venceram por 2x1, de virada, e nos eliminaram. Eu estava no aeroporto de Sevilha, esperando o momento de embarcar para Paris. Na sala de embarque não havia televisão, mas, a poucos metros, em outro saguão, um aparelho ligado me informava do que estava acontecendo. Eu ia até lá, via qual era a situação e voltava. Não podia me afastar por muito tempo, porque a chamada para embarcar aconteceria a qualquer momento. Era uma agonia. 

Foi assim, aos pedaços, que acompanhei o desenrolar do drama: o Brasil chegara a abrir 1x0, com um gol de Robinho (impedido), mas os holandeses tinham empatado e virado. Depois da expulsão de Felipe Melo, o time brasileiro, descontrolado, afundava. Os minutos escoando e eu ali, desamparada e sozinha, as mãos suadas, um aperto no peito, andando para lá e para cá, ninguém com quem dividir aquela angústia. 

De repente, o chamado. Hora de entrar no avião. Ainda corri mais uma vez e me aproximei da tela da TV, apenas para ver os jogadores brasileiros cabisbaixos, rostos escondidos entre as mãos. Estava tudo acabado. E eu precisava embarcar. Não podia chorar. Todos ali em volta estavam indiferentes à minha sensação de perda, àquela espécie de luto, uma quase orfandade.  

O avião levantou voo. E, já lá no alto, fiquei olhando o céu, ainda com um aperto no peito. E pensando na outra ocasião em que vivera algo parecido. Ah, da outra vez tinha sido muito, muito pior. 

Copa de 1986. Eu estava com um grupo de jornalistas, em visita à Alemanha. Naquele dia — 21 de junho —, nossa viagem se encerrara em Frankfurt e íamos embarcar para Paris. No saguão, antes do embarque, soubemos que o jogo estava empatado em 1x1. Como o embarque era imediato, fomos obrigados a levantar voo na incerteza daquele empate. No ar, pedimos várias vezes às aeromoças que fossem perguntar ao comandante como estava o jogo. Nenhuma resposta. A empresa alemã de aviação não estava interessada no jogo do Brasil. Passamos aquele voo de pouco mais de uma hora oprimidos pelo silêncio e a dúvida. E se acabasse empatado? E se fosse para os pênaltis?

No fundo, estávamos confiantes. A França não era páreo para o Brasil. Tinha Platini, é verdade, mas nós tínhamos em campo Zico, Sócrates e Júnior, remanescentes do escrete espetacular que, por crueldade, não fora campeão do mundo quatro anos antes.

Desembarcamos. Os caminhos tortuosos dos aeroportos nos tragaram, a nosso pequeno grupo — cinco brasileiros aflitos. Até que um dos corredores se abriu para um salão. Ao fundo, as luzes inquietas de uma tela de TV. Diante dela, um grupo de quarenta ou cinquenta pessoas, paralisadas, imersas num silêncio absoluto. Era o pesadelo. Disputa de pênaltis. E o Brasil já tinha perdido um. O craque francês, Platini, se preparava para bater o seu.

Chegamos perto, pisando com o máximo cuidado aquele chão inimigo. Eu quase podia sentir a frieza do granito na sola dos pés. Aqueles segundos se estenderam, como se um tempo sobrenatural se instalasse, um tempo curvo, elástico. Tive a impressão de que Platini corria para a bola em câmera lenta. E ele errou. 

Nós, os cinco brasileiros exilados, demos um grito de alegria. E no instante seguinte vimos dezenas de pares de olhos ferozes se virarem para nós. Foi uma imprudência comemorar em território alheio. Aquele arroubo pareceu desencadear forças adversas, e o Brasil errou a cobrança seguinte. Acabamos derrotados. 

Os franceses no saguão agora pulavam, se abraçavam. E os pares de olhos hostis nos fitavam entre sorrisos, dizendo coisas, provocando. O grito na falha de Platini nos denunciara como brasileiros. Tivemos de aguentar calados. 

Mas, de todas as lembranças daquele dia difícil, nada me dói mais do que a visão dos Champs Élysées, que tive da janela do táxi, a caminho do hotel. Naquela época, vencer o Brasil era para os franceses quase como ganhar a Copa. Eles saíram às ruas. Houve carreatas, buzinaços, gritos, braços projetados para fora das janelas dos carros, empunhando enormes bandeiras. Paris era uma festa. Igual à que deveria ser a nossa festa — apenas com as cores erradas. A alegria alheia me feriu. Mas claro que eu não tinha ainda a real dimensão da nossa perda: não sabia que aquela geração de craques jamais seria campeã do mundo.  
                                                                                                                                                                                                                                                                                        Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo
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Heloisa Seixas nasceu em 1952 no Rio de Janeiro, onde vive até hoje. Durante anos, trabalhou na imprensa carioca. É autora dos livros Pente de vênus (1995), Oitavo selo: quase romance (2014) e Agora e na hora (2017), entre outros. 
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