Conto | Luís Henrique Pellanda

As vitórias

                                                                                                                                                                                                                                                                               Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo
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Eram dois amigos. Um menino de nove e outro de dez. Assistiam juntos a um jogo de futebol na tevê. Era o Brasil e Itália de 1982, em Barcelona. Desnecessário reviver o trauma, o placar final, as consequências táticas da Tragédia do Sarriá. Todos sabem o que houve. Foi duro, difícil de entender. Tanto que, ao final da partida, o menino de dez chorou e foi se esconder debaixo da mesa de jantar. Não queria passar por fraco diante do menino de nove, que, encantado pelo choro do companheiro, o seguiu de quatro, por entre os pés das cadeiras, e se pôs à sua frente, acocorado, sem falar nada. O mais velho, porém, achou que devia ao mais novo uma satisfação. Esfregando os olhos, quase ofendido, defendeu-se: Não fui eu que perdi. Não fui eu.

Vinte anos mais tarde, logo após a vitória brasileira em Yokohama, no Japão, esse menino, agora um rapaz de trinta, adoeceu. O caso era grave, avisou, por telefone, ao rapaz de 29. Estava certo, no entanto, de que acharia uma saída.

Nos meses seguintes, enquanto durou o tratamento, os dois amigos não puderam se ver. Tentaram, várias vezes, agendar encontros no centro da cidade, marcar um almoço, um café. Nunca dava certo. O mais velho sempre ligava, cancelando. Estava com uma febre passageira, tinha que ficar de cama, logo estaria melhor. Só não topava receber o outro em casa. Preferia sair à rua, mostrar ao amigo de infância que ainda estava vivo e bem-disposto. 
 
Quando o rapaz de trinta morreu, o que ficou teve a impressão de ter sido enganado. O morto, na verdade, nunca quis se encontrar com ele. Nem almoçar, nem dividir um cafezinho. O sobrevivente só não entendia o motivo. Lembrava do menino de dez chorando debaixo da mesa, duas décadas antes: Não fui eu que perdi. Não fui eu. Quem sabe tivesse vergonha de estar morrendo, imaginou. Mas sabia que, também naquele caso, seu amigo não tinha culpa nenhuma. Não era ele o perdedor. Não era ele.

Fato é que, após a sua morte, a seleção brasileira jamais voltou a ganhar uma copa. O sobrevivente achou justas aquelas derrotas e nunca mais deixou que o futebol o entristecesse. Em 2014, por exemplo. Quando o Brasil foi goleado pela Alemanha, em Belo Horizonte, sentiu-se anestesiado. Mas quando viu os alemães levantando a taça no Rio de Janeiro, dias depois, rindo e emulando danças rituais, abraçando-se como meninos num campo de várzea, derrubando-se uns aos outros no gramado do Maracanã, pensou que aquela vitória, no fundo, poderia ser de qualquer um, e também dele. Nunca fomos nós que perdemos, percebeu. Nunca foram eles que ganharam. E vice-versa.

Ficou em paz. Embora nunca tenha se livrado desta dúvida disparatada, talvez infantil: se o Brasil tivesse ganhado da Itália na Espanha, em 1982, não teria sido tudo diferente?


Luís Henrique Pellanda  nasceu em Curitiba (PR), em 1973. Escritor e jornalista, é autor dos livros O macaco ornamental (2009), Nós passaremos em branco (2011), Asa de sereia (2013), Detetive à deriva (2016) e A fada sem cabeça (no prelo).
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