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Conto | Marcelo Moutinho

Oxê

Foi num relance. Doutor Sarmento, o coordenador de segurança, havia falado com clareza. Seu trabalho é cuidar da arquibancada, do torcedor, não é ficar vendo o jogo. Claro, doutor. Presta atenção em qualquer movimentação estranha. Torcedor muito exaltado, grupinhos. Claro, claro, o senhor pode contar comigo. Hoje não vai ser mole, é eliminatória, um cai fora, o clima está tenso, sabe como é. Pode contar. Apesar das advertências, o primeiro tempo corria sem sobressaltos. Então o grito.

— Viado! 

Dei até breve às recomendações do doutor Sarmento e torci o pescoço em direção ao gramado, a tempo de flagrar a cena. A bola, ao alto, fixada num sem-tempo estático. Suspensa entre os borrões coloridos do estádio inteiramente tomado. Abaixo, pernas compridas se cruzavam. Chegar até ela, tocá-la. A bola: objetivo. Um xis aéreo com duas lâminas afiadas, os gumes no espelho que reflete seu avesso. Eu podia reconhecer, na interseção das canelas, o desenho do machado. O grito, não identifiquei de onde partiu.

Antes que a jogada se definisse, voltei os olhos à arquibancada. Seu trabalho não é ficar vendo o jogo. A voz do doutor Sarmento ecoava, intempestiva. Sabe-se lá quem ficou com a bola. Alguns, na primeira fileira, reclamavam falta. “Filho da puta! Ladrão!”, eu entendi que a mão grande era contra o Brasil. Definido o suposto filho da puta. Mas o outro berro vibrava dentro de mim, em espiral.

***

Foi Betão, nosso zagueiro, quem me arrumou esse emprego. Ele sabia da minha experiência com segurança, quase cinco anos no Alfa Shopping, dois numa empresa de eventos. Me formei em Sociologia, mas o mercado para professor não é mole. Na área de estudo, nunca trabalhei. Em vez de ensinar as teses de Durkheim e Weber, vendi seguros, dei aula de inglês, dirigi táxi, pagando diária. O porte físico acabou me levando para a vigilância. É o que tem para hoje.

Eu e Betão estamos juntos há sete meses. Compromisso mesmo, fechadinho, no modelo. Mas ninguém no time dele sabe, muito menos na Seleção. Deixa comigo que vou falar com o coordenador sobre esse negócio de emprego, ele é parça. E pronto, estou aqui.

No começo, trabalhava em jogos de menor expressão, times pequenos como Olaria, Bonsucesso. Pouco público, mas valeu como experiência. Até porque lá o bicho pega. Já vi de tudo, até cadeira ser atirada no campo. Em cima do lateral. Detive o torcedor, enquanto o menino levava pontos na cabeça. Aos poucos, fui ganhando a confiança do doutor Sarmento. Um clássico de meio de tabela, a semifinal do campeonato estadual. Quando soube que a Copa do Mundo seria no Brasil e haveria partidas no Maracanã, quase implorei ao doutor Sarmento que me escalasse. Mas nunca imaginaria que isso aconteceria num jogo da Seleção, numa semifinal.

Propus ao Betão que, se o Brasil ganhar a Copa, nós viajemos juntos. Conhecer outro país, os Estados Unidos, sei lá. Ele disse que vai pensar. Que, se conseguir um contrato fora, me leva como segurança particular. Aí a gente pode morar na mesma casa, sem que ninguém fique fazendo comentário. Tudo bem combinado porque no meio do futebol tem que ser assim. Até topei que de vez em quando rolem umas festinhas, com meninas profissionais. Bom para manter as aparências, ele comentou.

***

Umas das pernas, no xis, era do Betão. Reconheci os contornos da pele negra no contraste com o branco da meia, os sulcos dos músculos da coxa, que tantas vezes senti roçar entre as minhas pernas. No átimo da imagem agora fixada como lembrança, a bola continua flutuando no ar, inalcançável. A jogada terminou em coisa alguma, caso contrário eu vislumbraria, na reação da arquibancada, um indício de tragédia, ou de gol. Nada. 

Possivelmente, os dois — Betão e o adversário alemão — estatelaram-se na grama, e a bola foi dominada por um terceiro. 

Antes de a Copa começar, ouvi do Betão que o Brasil ganhar era uma questão de justiça. Que não seria justo, depois de 1950, perder outra Copa em casa. Que a taça seria um presente para o povo brasileiro, tão sofrido e merecedor. O tal povo que eu encarava de frente naquele momento. E cujo silêncio crescente e atordoado atestava: a Alemanha vencia. Venceria. Mais: golearia, uma inédita humilhação em nosso jardim principal.

Foram, como me informaram logo ao fim do jogo, sete gols. Se a culpa caberia a todos os jogadores, de todas as posições, o que dizer do zagueiro titular, de Betão? Aquele que deveria manter protegida a meta brasileira. Impenetrável.

 — Isso é que dá ter beque via - do no time.

A frase, agora menos aleatória, veio no princípio do segundo tempo. A Seleção batia cabeça na roda imposta pelos alemães. Eu já não me preocupava tanto com a arquibancada porque a revolta logo cedeu à apatia. O Maracanã era uma parede de flores pálidas. 

Ao escutá-la me virei novamente para o campo, que se fodesse o doutor Sarmento. Encarei com firmeza os que estavam à volta e falavam português: o gandula, a comissão técnica, jogadores. Mas não havia como identificar o autor. Havia o silêncio, a multidão. O aço amolado da lâmina faiscando nos olhos. E a frase tremulava, como um instante que nega a própria natureza e se recusa a morrer. 

                                                                                                                                                                                                                                                                                        Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo
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Marcelo Moutinho é autor dos livros Ferrugem (Prêmio Biblioteca Nacional, 2017), Na dobra do dia (2015), A palavra ausente (2011) e Somos todos iguais nesta noite (2006), entre outros. 
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