Conto | Claudia Nina

O sonho retalhado

  Foto: Edson Silva/Gazeta do Povo
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Era 2002 no mundo e também era 2002 na pequena cidade do interior da Bahia, Nazaré. Todas as televisões ligadas no mesmo sentimento. Waldecyr estava reclinado no sofá-cama desde sempre, onde seu corpo já cavara uma fundura. Não havia ninguém a considerar. Morava sozinho, nunca teve mulher nem filhos.

O futebol, desde a infância, foi alegria, esporte, vício, religião, comida, sonho. Chegava do colégio e ia direto para a rua, onde os garotos da rua improvisavam o campo. Não comia direito. Mal estudava. Repetiu três vezes o quinto ano. Nada mais importava. Por obra e graça da mãe, seu presente de aniversário de 9 anos (antes da primeira repetência), foi a bola de couro, linda e lustrosa, caríssima. A contragosto do pai, para quem a bola era um demônio disfarçado, o dinheiro foi emprestado do tio que morava em São Paulo, que coisa mais besta pedir dinheiro para comprar essa praga de bola, era a ladainha do pai, que parecia morar na igreja de tão beato.

Era ele quem mandava Waldecyr para a casa no fim da tarde — chega de bola, vem pra dentro, um dia acabo com isso. O “isso” era a bola, sempre ameaçada de morte.  

O menino não acreditava que o pai fosse capaz de maldades maiores, além das garfadas que levava no braço quando não queria comer. A mãe, quieta e dadivosa, era feliz porque tinha casa, criança, comida e marido. Bastava. E também bastava o fato de ter conseguido dar ao filho a bola tão desejada, mesmo que fosse às custas de um empréstimo dolorido.

O menino estava cada vez mais decidido a se tornar jogador de futebol. Era o melhor da rua. Tinha talento, diziam os vizinhos. O pai temia pelo futuro. De Nazaré para o mundo, Deus o livre. Não queria nem pensar na possibilidade de perder o filho para aquele vício dos infernos. Não se sabe bem o motivo, mas o pai tinha um ódio fora do controle. Era capaz de matar. Que ninguém duvidasse da ira do homem.  

Mas duvidaram. Waldecyr não acreditava que o pai fosse capaz de.

Entra, menino, tô chamando. Tá na hora, já falei que não pode passar a tarde inteira na rua jogando esse maldito futebol.

O menino não ia, não ia. 

Até que um dia, a tragédia aconteceu.

O pai invadiu a rua onde os moleques jogavam, era começo da noite. Pegou a bola à força, quase à dentada. O menino saiu correndo atrás. Começou a temer pelo pior.

O pai foi direto para a cozinha. Pegou o facão da carne e, sem remorso, esfaqueou a bola, retalhando-a em pedaços. O menino sentiu no próprio corpo, a bola, seu faquir. Ficou ajoelhado no chão, escorado no móvel branco perto da geladeira. 

Não tinha mais sangue.

Waldecyr no sofá-cama, Copa do Mundo, 2002, comemoração histórica. Ergueu um brinde solitário para o Vampeta, um dos amigos da rua, que nem era tão bom na época de garoto, quanto tempo não via aquele cara. Quem diria, de Nazaré para o mundo. 

Carregou no lombo o sonho retalhado de Waldecyr.  


Claudia Nina é jornalista e escritora. Autora dos livros Paisagem de porcelana (Rocco), Amor de longe (Ficções) e A repolheira (Aletria). Vive no Rio de Janeiro (RJ). 
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