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Ensaio | Culpa

Perante a culpa, todos são iguais

Tema recorrente desde os textos bíblicos, a culpa aparece também com destaque em clássicos modernos da literatura. A professora da USP Celeste Ribeiro de Sousa revê alguns desses livros e explica como esse sentimento tornou-se a grande mola impulsionadora a dar sentido à vida

A culpa está presente na vida do ser humano desde sua Criação. Já in illo tempore há culpa. Onde existem regras, mostra a História, sempre haverá infrações: duas faces da mesma moeda. A pergunta que até hoje não obteve resposta satisfatória é: por que deve haver regras, por que a Criação não se deu de outro modo? Por que se impõe ao ser humano, que, sabe-se, foi e é muitíssimo limitado em conhecimento do universo, o dever de escolher e de escolher bem? Pois é no processo de escolha que a culpa, eventualmente, se instaura.

A culpa é um sentimento doído, corrosivo, ambíguo, de responsabilidade e arrependimento diante das consequências de uma escolha que não dá certo. A culpa pressupõe a seguinte constelação: a existência de uma norma, sua infração e o sofrimento por ela provocado (culpa). A norma pode ser imanente e/ou transcendente, implícita e/ou explícita; a infração pode ser consciente e/ou inconsciente; o sofrimento em graus variados pode ser auto-imputado e/ou imputado por outrem.

Conforme o código dos códigos ou a narrativa das narrativas, isto é, a Bíblia, o sentimento de culpa atávica que atormenta a humanidade nasce com o primeiro embaraço existencial vivido por Eva e, depois, por Adão. A inocente Eva não poderia imaginar que um simples diálogo com a serpente pudesse vir a ser tão malévolo e, no fundo, implicasse, como se vê no Fausto I de Goethe, uma aposta justamente entre Deus e o diabo/serpente. Eva é apenas um instrumento dessa aposta! E a serpente, quem poderia imaginar, não era apenas um dos muitos inofensivos animais do paraíso. Eva, encantada com a nova perspectiva de mundo, a ela oferecida pela serpente, dirige-se solidariamente ao companheiro, para com ele compartilhar a novidade. Adão, igualmente puro, sem noção do pecado, se entusiasma com a nova experiência prestes a consumar-se: conhecer não só o bem, mas também o mal. Do mesmo modo ele era tabula rasa, estava aberto para o mundo. Afinal, Deus havia inclusive dito: “Crescei e multiplicai-vos”. Toda essa predisposição para levar a vida adiante dentro do viés da felicidade, como se sabe, acaba frustrada. Os dois são severamente punidos por terem infringido a norma explícita da proibição: “De todas as árvores do jardim podes comer à vontade. Só não podes comer da árvore da ciência do bem e do mal. No dia em que dela comeres, certamente morrerás”. (Bíblia 1965: 12). Adão e Eva descobrem a posteriori o significado de morte e a dor provocada pela escolha errada, ou seja, a perda do paraíso, vale dizer, da felicidade eterna e a dor de, a partir daí, terem de ganhar o pão com o suor do rosto.

     Foto: Reprodução
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“O pecado original e a expulsão do paraíso”, retratando a perdição de Adão e Eva no Jardim do Éden, pintado por Michelangelo (1475-1564) entre 1508 e 1512, na Capela Sistina, no Vaticano.

E esta dor primordial continua até hoje correndo no DNA da humanidade, uma dor proveniente, conforme o relato bíblico, da punição primeira por desacato e desobediência à autoridade máxima. Até hoje Adão e Eva são culpabilizados pela herança deixada. Por sua causa, a felicidade eterna continua a não existir e sem trabalho morre-se de inanição, considerando-se que o roubo, de certo ângulo, também pode ser considerado trabalho, trabalho torto, mas trabalho.

Não discuto aqui o sacramento do batismo, cultivado pelos cristãos, que, em princípio, teria o milagroso poder de eliminar tal herança — o pecado original —, porque, pelo que se observa, o sentimento de culpa persiste além do batismo.

A culpa, portanto, advém, desde o começo do mundo, de uma conscientização sempre a posteriori de uma norma infringida. Esse movimento psíquico está associado à dor, em maior ou menor grau, à dor de saber que a punição poderia ter sido evitada se houvesse conhecimento do todo. Mas, paradoxo dos paradoxos, este conhecimento nenhum homem tem, por mais que se esforce! Eis a perplexidade humana diante da existência imponderável. 

Coube ao homem, diante de tamanho dilema existencial, ter de escolher entre alternativas cujo máximo alcance desconhece, achar soluções para sobreviver em tais circunstâncias, em que caminhar no escuro é preciso.

Nos primórdios, na convivência tribal, o homem haveria de descobrir quais os comportamentos que menos sofrimento/culpa causavam à comunidade. Tais comportamentos passaram a ser tidos como aceitáveis, desejáveis de serem observados por todos, depois passaram a ser exigidos e tornaram-se normas morais (contratos sociais, variáveis de sociedade para sociedade). Com o tempo, com muito tempo, dariam origem às leis explícitas e catalogadas. Com o aumento da população, as leis foram ficando cada vez mais abrangentes, até o ponto de derivarem para o conceito de Estado Democrático de Direito, com pretensões de universalidade e baseado no axioma de que todos são iguais perante a lei. Ou seja, todos os infratores/culpados, se descobertos, serão culpabilizados/punidos nos tribunais, conforme sentenças igualmente “catalogadas” na chamada jurisprudência. Todavia, apesar de todos os cuidados para andar dentro das leis catalogadas das grandes comunidades, há mil e uma infrações não juridicizadas que continuaram e continuam a atormentar a existência cotidiana e a deixar o homem perplexo. Sobre esta perplexidade, sobre a culpa em toda a sua extensão e suas variáveis, a literatura se debruça desde sempre. 

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O escritor Fiódor Dostoiévski (1821-1881), autor de Crime e castigo, romance em que o personagem Raskólnikov é atormentado pela culpa de ter cometido um homicídio.

Primórdios
As tragédias gregas, por exemplo, confrontam o homem com seu Destino, essa entidade insondável, transcendente, que na Bíblia adquire o nome de Deus, salvaguardando-se as respectivas especificidades. Ou o herói submete-se ao Destino, ou enfrenta-o. E, de um modo ou de outro, o Destino sempre leva a melhor, porque as personagens/pessoas não são perfeitas, isto é, vergam aos impulsos das paixões, da violência e, por isso, são culpadas e punidas. Mesmos os heróis, nestas peças de teatro, representantes do que há de melhor na humanidade, não saem ilesos por acreditarem poder transpor os obstáculos intransponíveis. Por detrás da maioria das tragédias gregas há a seguinte lógica: Existe uma ordem divina anterior ao homem, que foi rompida por alguém. O herói apresenta-se como vítima dessa culpa desconhecida, de um sofrimento, que é condição da existência, e disporia a priori de livre escolha para ter um comportamento adequado, isto é, para saber qual a ação que corresponderia às exigências do Destino, livrando-se, assim, da culpa/sofrimento. Essa escolha acertada, porém, não passa de pressuposição: a ação da tragédia foca justamente as nuances, as metamorfoses, que o processo de escolha sofre para chegar a um final aceitável (ou não) para o espectador. É o aprendizado existencial através de ensaio e erro.

Na Medeia, de Eurípedes, por exemplo, Jasão, embora senhor de passado heroico, é um infrator em quem a bárbara e apaixonada Medeia, instrumento dos deuses, inculcará grande culpa; Medeia, que o ajudara a conquistar o velocino de ouro. Por lhe ter sido infiel e ingrato, casando, depois, com a princesa Creúsa ou Glauce, Medeia engendra máxima vingança. O orgulhoso Jasão perde primeiro a princesa, depois os filhos com Medeia, assassinados pela própria mãe, que, ao final, sai de cena, fugindo no carro do Sol, sem mudar seu comportamento. Uma culpa e um sofrimento evitáveis se Jasão não tivesse sucumbido ao egoísmo e oportunismo. Para o espectador, porém, o bom aprendizado social é revigorado.

Em Édipo rei, de Sófocles, o oráculo revelara o destino de Édipo: haveria de matar o pai e desposar a mãe. Para subverter essa sorte perversa, ou seja, fazendo a escolha que lhe parecia acertada, Édipo foge. Porém, na fuga, o impulso leva-o a matar desnecessariamente um homem desconhecido, que o provocara de modo insolente, e este homem, vem a saber-se mais tarde, era Laio, seu verdadeiro pai. Chegando a Tebas e libertando a cidade da esfinge, acaba por casar-se com a rainha Jocasta, já viúva, que, conforme se descobre mais tarde, é sua verdadeira mãe. A culpa do parricídio e do incesto leva Édipo a punir-se, arrancando os próprios olhos. O livre arbítrio de Édipo não o ajuda. O Destino é com ele implacável. Para o espectador, porém, os deuses escrevem direito por linhas tortas.

Shakespeare e Goethe
Na tragédia Hamlet, de Shakespeare, o príncipe é instado pelo fantasma do pai a vingar-lhe o assassinato. O próprio irmão o matara para casar com a cunhada, um casamento nunca aceito por Hamlet porque dentro dele o complexo de Édipo fala mais alto. Ou seja, Hamlet é instado a infringir uma norma da lei mosaica: “não matarás”. Matando, e ainda para ficar com a mãe, violentaria a seu turno o tabu e geraria mais culpa. Depois de muitas hesitações, de muito pensar sobre o sentido da vida, dando espaço à razão, que percorre os campos da moral, da ética, da psicologia (Freud e Lacan), da religião, da política, e atenuando a virulência das paixões, Hamlet, um nobre intelectual, vai percebendo culpas em todos, não só em si mesmo. Também aqui o confronto inexorável entre herói e destino está presente, com uma diferença: em Hamlet, a norma não é imposta por Deus, pelos deuses ou pelo Destino, mas encontra-se introjetada no caráter do herói. Hamlet não rompe a ordem cósmica. A luta desencadeia-se na imanência da psique. Supor-se-ia que, aí, as boas escolhas seriam mais perceptíveis, mais fáceis e, no entanto, não é assim. O que o fantasma paterno pede, no fundo, é a restauração da ordem entre os homens. Hamlet é o agente restaurador, a autoridade máxima, mas, em simultâneo, apenas uma pessoa humana, demasiado humana. No crepúsculo da Idade Média, precisa obedecer aos princípios estabelecidos para sua existência nobre e hierárquica e, ao mesmo tempo, ouvir os apelos do ego, inerentes a sua culta condição humana dos albores do Renascimento: duas atitudes excludentes que criam tensão máxima e sofrimento. E é nessa angústia extrema que Hamlet chega à infração que não é infração, apenas um alto dever: Hamlet assassina o tio com culpa e sem culpa. O espectador é lançado na relatividade dos valores existenciais.

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Na tragédia Hamlet o príncipe é instado pelo fantasma do pai a vingar-lhe o assassinato. Na imagem, cena da adaptação cinematográfica da obra de Shakespeare feita por Laurence Olivier em 1948. 

Em Fausto I e II, de Goethe, Dr. Fausto, que é um alquimista frustrado porque não consegue realizar a lendária transmutação do chumbo em ouro, faz um pacto com o diabo justamente para aumentar seus poderes. Ou seja, Fausto ousa afrontar seu Criador. Mal sabe que não passa de um instrumento numa aposta entre Deus e Mefistófeles.

Em Fausto I, com a ajuda do diabo, consegue fazer experiências extraordinárias, sendo a última a sedução e violação da bela e ingênua Margarida, levando-a a assassinar o filho de ambos, a ser, por isso, encarcerada e na prisão a morrer. Esta última experiência mefistofélica de Fausto o faz amargar enorme culpa e a permanecer nas garras do pacto com o diabo. Antes disso, já havia causado a morte da mãe e do irmão de sua amada.

Esse pacto continua em Fausto II. Mefistófeles, agora, conduz Fausto à experiência do grande mundo. O horizonte expande-se além do pequeno círculo sensorial e torna-se menos passional e mais abstrato. Duas experiências básicas marcam a trajetória alquímica de Fausto neste segundo livro: a experiência do poder político e a experiência da beleza pura, simbolizada em seu encontro mágico com Helena, princesa ateniense. Os problemas do poder político conseguido por Fausto, já velho, são resolvidos com magias diabólicas: ele desaloja sem dó e piedade os velhinhos Báucis e Filemon, levando-os à morte. Deste ato insano, Fausto também se arrepende: “Pudesse eu rejeitar toda a feitiçaria,/ Desaprender os termos de magia,/ Só homem ver-me, homem só, perante a Criação,/Ser homem valeria a pena, então.” (Goethe, 2011:582). Ainda que arrependido, é castigado, primeiro com a cegueira e, depois com a morte que Mefistófeles lhe prepara, pois pensa o diabo ter ganhado a aposta. Não reparara nunca o anjo caído que o insaciável Fausto, no íntimo, era um homem bom. Reconhecera a insensatez de sua ambição. Assim, quando Fausto cai inerte e o diabo se prepara para lhe capturar a alma, surgem no alto anjos cantando e ordenando que Fausto seja levado ao paraíso, pois em seu coração sempre houve amor. E Fausto é salvo e perdoado de todas as suas humanas culpas. Deus ganha a aposta. 

Flaubert
Em Madame Bovary, de Flaubert, Emma vive numa sociedade patriarcal e machista, vendo-se asfixiada dentro de um casamento monótono. O proibido adultério apresenta-se-lhe como porta para a libertação. Contudo, nem mesmo nos braços de amantes a liberdade é atingida. Por sua vez, a infração à norma gera uma culpa imputada a Emma pela sociedade, que a marginaliza. E essa culpa é demolidora e conduz ao suicídio. 

Em Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, livro em que o livre-arbítrio humano e a culpa são postos em profunda discussão, os embates dão-se entre as lei de Cristo e as leis do ego. Do plano transcendente, a discussão desce ao nível concreto e desemboca no parricídio de Fiódor, que é cometido pelo bastardo Smerdjakov, mas também desejado pelos outros filhos. A culpa existe apenas naqueles que acreditam em Deus; sem essa ou outra crença, tudo é permitido — assim pensa o intelectual ateu Ivan.

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Cena do filme O processo (1962), escrito e dirigido por Orson Welles (1915-1985) a partir do romance homônimo de Franz Kafka (1883-1924).

Em O processo, de Franz Kafka, o absurdo que envolve o sentimento de culpa é exposto em toda a sua incompreensibilidade. Assim começa o romance: “Alguém certamente havia caluniado Josef K., pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum”. (Kafka 1988: 7). A partir deste anúncio, a existência da personagem entra num ritmo crescente de degradação até sua morte por assassinato. A culpa imputada a Josef K., nunca explicitada, vai sendo por ele introjetada, a ponto de ele admitir que nenhum advogado poderá defendê-lo por simplesmente desconhecer sua interioridade. Somente ele próprio, que se propõe a realizar um auto-exame existencial, poderá fazê-lo. Da suposta culpa exterior desconhecida, acessa a culpa interna, a ambígua e fugaz culpa original em relação à Lei e, no fundo, em relação ao Pai transcendente, inalcançável, desconhecido. Ao contrário de Goethe, que oferece a Fausto a salvação transcendental para sua culpa, Kafka recusa-a a suas personagens, abandonando-as no limite extremo do sofrimento provocado pela culpa existencial, pela culpa do “Dasein”.

Em Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, a culpa rodeia Riobaldo ao fazer, por medo, o pacto com o diabo, isto é, ao se conscientizar do mal dentro de si, que lhe possibilita a transformação de homem “provisório” em latifundiário, mas também lhe acena com punições futuras pela infração cometida. Além disso, há ainda outra culpa em relação ao seu inaceitável amor homoafetivo pelo suposto camarada Diadorim, conforme as normas sociais da época e da região.

Concluindo: por detrás de todas as culpas há infrações à norma, à lei, ao pai, ao marido, alegorias e símbolos representantes do Pai, que, por sua vez, ilustra a Ordem, que se opõe ao Caos e dá sentido à vida. Para viver com equilíbrio, o homem precisa procurar e encontrar o sentido da existência. A grande mola impulsionadora deste caminho é a culpa — a felix culpa, de Santo Agostinho, como quer a tradição católica.

Nossa época dita pós-moderna, todavia, substituiu o Deus bíblico, os deuses, o Destino, por vários substitutos, entre eles o deus-mercado. Nas palavras de Walter Benjamin:

“O capitalismo é talvez o único caso de um culto não expiador, mas culpabilizante [...] Uma monstruosa consciência culpável que não conhece redenção transforma-se em culto, não para expiar com ele a sua culpa, mas para torná-la universal [...] e para, ao final, envolver o próprio Deus na culpa [...] Deus não está morto, mas foi incorporado ao destino do homem.” (Apud Agamben 2007: 63).


Celeste Ribeiro de Sousa é professora sênior do Programa de Pós-Graduação em Língua e Literatura Alemã da Universidade de São Paulo (USP), coordenadora do Grupo de Pesquisa RELLIBRA (www.rellibra.com.br) e coordenadora do macroprojeto “Literatura brasileira de expressão alemã” (http:// martiusstaden.org.br/ conteudo/detalhe/69/ rellibra).  
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