Reportagem | João Cabral de Melo Neto

Lirismo, flamenco e potência feminina na obra de João Cabral

A vivência do poeta, considerado antilírico, na Espanha foi ponto de partida para a criação de textos líricos, especialmente em seu último livro, Sevilha andando, publicado há quase três décadas

Marcio Renato dos Santos

O último livro de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) é uma obra incomum em meio ao legado do autor. Sevilha andando foi publicado há quase 30 anos, ou seja, em 1989. É a produção do poeta pernambucano que mais agrada, por exemplo, Antônio Carlos Secchin, poeta, ensaísta, integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A poeta e professora da Universidade Federal do São Carlos (UFSCar) Diana Junkes considera Sevilha andando o livro mais bonito de João Cabral — obra que ele dedicou à sua esposa, Marly de Oliveira. Há outros admiradores do volume, entre eles o poeta, escritor e tradutor Everardo Norões, que conquistou o Prêmio Portugal Telecom 2014 com o livro de contos Entre moscas.

“Nesse seu último livro, não há um único poema pernambucano ou brasileiro: o testamento é exclusivamente espanhol, tudo é Sevilha. Como se ali fosse o lugar em que sua alma encontrou pouso certo. Sevilha é ‘a única cidade que soube crescer sem matar-se’, escreveu o poeta. Talvez por isso, é uma hipótese, ele a tenha escolhido para guardá-la como derradeira imagem a ser lembrada durante a cegueira. A cegueira que significou o fim de sua escrita”, comenta Norões, observando, com precisão, o fato de que Sevilha andando surgiu antes de João Cabral perder completamente visão, o que, de fato, interrompeu definitivamente a produção do autor.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                               Foto: Reprodução
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Sevilha andando é dividido em duas parte, a primeira tem o título da obra, enquanto a segunda se chama “Andando Sevilha”. Everardo Norões analisa que, embora o livro seja tratado como se tivesse sido escrito em duas partes, é uma obra única. “Induz-nos a pensá-lo em partes pelo fato de tratar Sevilha como se ela contivesse duas ‘cidades’, construídas, montadas por sua percepção poética. Uma, observada como mulher, recurso que o poeta, considerado antilírico, utilizou como estratégia para dissimular seu lirismo. Já a segunda parte, a memória passeando pela cidade mulher, numa espécie de navegação durante a qual as sensações de ruas, bares, edifícios e personagens são comentadas poeticamente. Andanças nas quais, segundo ele, vão soltas a alma e a carne”, explica Norões.

Na primeira parte de Sevilha andando, a exemplo do que comenta Norões, há poemas em que a cidade é observada como mulher, entre os quais “Viver Sevilha”: “mas que é dentro e fora Sevilha,/ toda a mulher que ela é, já disse,/ Sevilha de existência fêmea,/ a que o mundo se sevilhize”. “As plazoletas” é outro poema em que Sevilha é comparada a uma mulher: “Quem fez Sevilha a fez para o homem,/ sem estentóricas paisagens./ Para que o homem nela habitasse,/ não os turistas, de passagem./ E, claro, se a fez para o homem,/ fê-la cidade feminina,/ com dimensões acolhimentos,/ que se espera de coxas íntimas”.

E, também de acordo com as observações de Norões, no segundo fragmento do livro, “Andando Sevilha”, ruas, bares, edifícios e personagens são comentados poeticamente. João Cabral menciona a Calle Sierpes (“lá, navegar é em linhas curvas,/ como a cobra que dá nome à rua.”), o Museu de Belas-Artes (“Este é o museu menos museu”) e o artista flamenco Manolo Caracol (“Cada cantador andaluz/ cantando traz à plena luz// uma ferida de nascença,/ como dentro de um ovo a gema.// Com a boca o cante pouco diz,/ é uma curada cicatriz,// curada só na superfície/ e que quando quer pode abrir-se.”).

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Edição que reúne os dois últimos livros do poeta, Crime na Calle Relator e Sevilha andando

A cidade mulher
Doutoranda em teoria e história literária no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Gislaine Goulart dos Santos observa que João Cabral só tem dois livros publicados nos dois períodos em que esteve em Sevilha, nas décadas de 1950 e 1960: Quaderna (1960) e A educação pela pedra (1966). “Por isso, a memória do poeta pernambucano tem sido objeto de estudos da obra cabralina. Ele escreveu muitos poemas sobre Sevilha quando não estava lá, pois guardou Sevilha em sua memória e depois a recriou em seus poemas”, afirma Gislaine, referindo-se a Sevilha andando, publicado no final da década de 1980.

Em agosto de 2013, ela defendeu na Unicamp a dissertação de mestrado “Sevilha na poesia de João Cabral de Melo Neto”. No trabalho acadêmico, Gislaine apresenta um percurso da relação pessoal, interartística e poética de João Cabral com a Espanha-Sevilha, mostrando o vínculo do poeta com personalidades da poesia e da pintura espanholas, além da influência da Espanha na vida e na obra de João Cabral: “Tentei compreender o motivo que o levou a dedicar tantos poemas a este espaço, principalmente, a Sevilha, cujos poemas estão reunidos no livro Poemas sevilhanos (1992)”.

Ao todo, João Cabral escreveu 106 poemas sobre Sevilha — conteúdo da antologia Poemas sevilhanos (1992). Gislaine Goulart dos Santos analisa que, se João Cabral não tivesse sido diplomata, sua poesia não seria tal como se tornou e é hoje. “Isto pode explicar, por exemplo, porque outros autores não escreveram tanto sobre o flamenco e Sevilha como João Cabral: porque tiveram outras experiências”, diz.

Ainda no trabalho de mestrado, ela também estudou Sevilha andando (1989), obra que, salienta, é representante da relação pessoal e poética de João Cabral com a cidade espanhola. “Neste livro, a cidade sevilhana é revelada nos poemas cabralinos pelo el cante e el baile flamenco, pela tourada, pela imagem da mulher-cidade e da cidade-mulher, pelo léxico espanhol e também pela religião”, comenta a estudiosa.

No entendimento de Everardo Norões, João Cabral tinha uma espécie de antena da qual alguns poetas são dotados. “Penso que há uma contradição entre a imagem dele que é comumente apresentada, a de alguém quase antissocial, contrastante com sua poesia, tão próxima das coisas que vivenciou”, pontua Norões, acrescentando que, não fosse a língua em que escreveu, João Cabral poderia ter sido um poeta espanhol escrevendo sobre motivos do Nordeste brasileiro, da mesma forma que ele foi um brasileiro escrevendo sobre coisas da Espanha. “Isso acontece porque a poesia dele transcende lugares, como a de todos os grandes poetas”, completa Norões.

É um faz, nunca um fez
O flamenco, a manifestação cultural espanhola com influências mouras e ciganas, onipresente em Sevilha, foi recriada em poemas de João Cabral, e Sevilha andando traz alguns desses textos poéticos, a exemplo de “Intimidade do flamenco”:

“O flamenco quer intimidade,
assim no cante que no baile.

Aquele fazer de mais dentro,
se quer de quem faz pôr-se ao centro,

centrarse, viver seu caroço,
e a partir dele dar-se todo,

esse cante ou baile é monólogo
que, se funciona para o próximo,

quer um próximo conivente
capaz de centrar-se igualmente.

Não quer um palco que o dissolva,
seu fazer se faz boca a boca.”  

   Divulgação
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Tablao flamenco em Sevilha: arte traduzida em poemas de João Cabral de Melo Neto

O entendimento do que é, ou pode ser, o flamenco, arte que, de acordo com o poeta, “Não quer um palco que o dissolva,/ seu fazer se faz boca a boca”, já havia sido definido, entre outros momentos de sua obra, em um poema do livro Agrestes (1985). Em “Uma bailadora sevilhana”, João Cabral apresenta uma bailarina de flamenco que, em determinado momento, é confrontada com a seguinte pergunta: “Não te agrada F... de Tal,/ que todo dia sai no jornal?”. A sevilhana responde: “Não gosto: dança repetido;/ dança sem se expor, sem perigo;// dançar flamenco é cada vez;/ é fazer; é um faz, nunca um fez.” 

E tal resposta revela, precisamente, o que é o flamenco: “um faz, nunca um fez”

Gislaine Goulart dos Santos tem a convicção de que João Cabral fez poemas únicos que captaram a essência do flamenco, e chama atenção para o texto poético “A sevilhana que não se sabia”, publicado pela primeira vez no livro Crime na Calle Relator (1987) e, posteriormente, transferido por João Cabral para Sevilha andando (1989), deixando de integrar o livro de 1987. 

“Neste poema, ‘Sevilha é mais da siguiriya/ que é a castelhana seguidilla’, expressando, assim, o profundo conhecimento de João Cabral sobre as variações do palo [subdivisões do] flamenco. No poema em questão, o poeta ainda celebra a siguiriya: ‘que o cigano prende no tanque/ de seu silêncio, e fez em cante,/ e que a cigana faz em dança,/ centrada em si como uma planta’. Temos neste texto poético, enfim, múltiplas faces da cidade de Sevilha e da sua cultura, características que não são vistas, por exemplo, pelo olhar do turista”, pontua Gislaine.

Já Everardo Norões destaca, em meio aos textos de Sevilha andando, “O segredo de Sevilha”, em que João Cabral se dirige ao amigo e poeta sevilhano Joaquín Romero Murube, que já era falecido e tinha um projeto de escrever sobre sua cidade, por achar que ninguém ainda havia dito tudo sobre ela. “João Cabral retruca e afirma, no poema, que Sevilha é um estado de ser, ‘que menos que prosa pede o verso’. E acrescenta que todo o mistério está no jeito de andar da sevilhana”, explica. O poema, continua Norões, é quase um resumo do livro: “Nem precisa acrescentar que também o jeito de dançar ou de bailar o flamenco fazem parte desse mistério”.

Ele é lírico
Em 2007, a então bailaora de flamenco Isadora Eckardt da Silva apresentou um trabalho na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) sobre os pontos de contato entre o flamenco e a poesia de João Cabral de Melo Neto. Ela focou, especificamente, em “Estudos para uma bailadora andaluza”, poema do livro Quaderna (1960). “Expliquei como a dança funciona. O poema tem momentos incríveis, entre eles aquele em que a voz poética fala das posições das mãos. Os homens mantêm os dedos fechados, enquanto as mulheres abrem as mãos. No flamenco, o movimento é denominado floreio, e João Cabral descreveu as mãos da bailarina como flores, o que é lindíssimo”, comenta.

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Sevilha deflagrou poemas líricos no poeta considerado antilírico.

O seu trabalho sobre o flamenco, apresentado na graduação na UFRGS, é mais consultado e citado do que sua dissertação e sua tese, ambas sobre literatura de viagem e defendidas na Unicamp. Atualmente, ela é professora de literatura no Colégio Militar de Manaus, no Amazonas, e, em sala de aula, costuma discutir com os alunos do ensino médio o poema “Estudos para uma bailadora andaluza”. Especificamente, o trecho em que a bailarina é comparada a uma égua: “Subida ao dorso da dança/ (vai carregada ou a carrega?)/ é impossível se dizer/ se é cavaleira ou a égua.” “O poeta diz que a bailarina é uma égua que, talvez, seja conduzida pelo cavaleiro ou, então, é ela, a égua, quem dita o caminho”, observa Isadora, que, recentemente, deixou de bailar flamenco.

Isadora ainda acrescenta que, em “Estudos para uma bailadora andaluza”, João Cabral também compara o sapateado das bailarinas de flamenco com o código morse, entre outras sugestões poéticas. “Ele tira lirismo de onde, geralmente, não tiram lirismo. Ele tira leite de pedra, encontra lirismo em qualquer canto”, completa.

A exemplo de Isadora Eckardt da Silva, Diana Junkes também diz que os poemas sevilhanos de João Cabral são carregados de lirismo, o que, em geral, não é associado à produção do autor. Para Gislaine Goulart dos Santos, a partir do contato com a Espanha, o poeta pernambucano se desvencilha de uma imagem ainda muito racionalista atribuída a ele pela crítica — sobretudo a dos primeiros estudos críticos. “Há muita subjetividade no recorte dos temas. Neste sentido, os poemas sevilhanos representam um capítulo especial em sua obra”, analisa Gislaine.

Antônio Carlos Secchin tem a impressão de que a vivência em Sevilha fez com que João Cabral passasse a registrar experiências sensoriais até então ausentes ou pouco representadas em sua poesia: a celebração do corpo feminino, a sintonia com a (áspera) melodia do flamenco e o canto cigano. E Diana Junkes acrescenta que, na obra do poeta, Sevilha é substantivo, adjetivo e verbo: “Sevilha, enfim, é a potência feminina da obra de João Cabral”.

Para ver   

O documentário Recife/Sevilha: João Cabral de Melo Neto, com roteiro e direção de Bebeto Abrantes, apresenta em 52 minutos mostras do intenso relacionamento de João Cabral de Melo Neto com Sevilha. Artistas espanhóis e brasileiros, além de Inês Cabral, a filha do poeta, são alguns dos entrevistados. Há depoimentos do poeta e imagens captadas na Espanha, incluindo tablaos flamencos e a paisagem sevilhana.

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Para ouvir

O cante é fundamental, mais que isso, imprescindível no flamenco. O Cândido apresenta cantaoras e cantaores para os leitores conferirem, pode ser via Youtube, a pulsão vocal flamenca: Argentina, Camaron de La Isla, Diego Carrasco, Encarna Anillo, Estella Morente, Enrique El Extremeño, Manuel Molina, Miguel Poveda e Montse Cortez [foto].

   Reprodução
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Para sentir

O intraduzível baile flamenco é um mistério, cada baile é único — João Cabral de Melo Neto entendeu perfeitamente a arte e a traduziu em poemas. Há bailaores e bailaoras que, mesmo por meio de gravações em vídeo, mostram o que é o flamenco: Belen Lopez, Carmen La Talegona [foto], Concha Jareño, Eva Yerbabuena, Farruquito, Gema Moneo, Jesus Carmona, Juana Amaya, Manuel Liñan, Pedro Cordoba e Sara Baras.

  Divulgação
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