Poemas | Otto Leopoldo Winck

Aleph

Quisera
a palavra inaugural do paraíso
mas minha voz
— já sem fôlego —
está cheia de ecos
e cacófatos.

Não falo por mim.
Tampouco por ninguém:
não tenho clã nem urbe,
nem sou profeta de algum deus.
Mas em minha voz
— já sem fôlego —
repercutem as vozes todas
desde Adão.

Quisera
o senhorio de minha própria voz
— já sem fôlego —
o domínio de meus solilóquios,
o narrador onisciente que me narra,
que abre travessões quando falo
ou aspas quando cito.
Saber que ao menos uma palavra
(esta: eu)
fora minha...

Se não uso clâmide
nem burel, não sou apóstolo
nem apóstata,
ao menos pudesse ter de meu
uma aposta:
esta voz
— já sem fôlego —
com que me falo
agora
na ágora vazia de meu crânio:
cálix onde dou de beber aos deuses mortos
a história
que me escoa.

Ah, quisera
nomear os seres todos,
descrever as cores do levante,
elucidar o sabor dos frutos ou a autonomia do vento
nos cabelos dos viventes.

Mas minha voz
— já sem fôlego —
veio rouca,
quase um fio,
e reboa,
cheia de ecos, cacos e cacófatos.

O pior é que não há ninguém
que a decifre.

In fines

no fim
você está sempre só
como no fundo
sempre esteve

no fundo
você está sempre nu
como no início
sempre esteve


Otto Leopoldo Winck nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1967, viveu uma temporada em Porto Alegre (RS) e, desde 1982, está radicado em Curitiba (PR). Em 2006, foi vencedor do prêmio da Academia de Letras da Bahia, com o romance Jaboc, publicado em 2007 pela Garamond. Em 2012, conquistou o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, na categoria poesia, e, em 2017, lançou o ensaio Minha pátria é minha língua: identidade e sistema literário na Galiza, resultado de sua pesquisa de doutorado. Os poemas que o Cândido publica nesta edição fazem parte do livro Cosmogonias, a ser lançado este ano pela Kotter Editorial.
Recomendar esta página via e-mail: