Os Editores | Ivan Pinheiro Machado

Um senhor rebelde

O fundador da L&PM relembra episódios importantes da história da editora gaúcha que nasceu em 1974, sob a ditadura militar, e se tornou sucesso ao criar uma coleção de livros de bolso que já vendeu mais de 30 milhões de exmplares
Luiz Rebinski

   Fotos: André Feltes
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O editor Ivan Pinheiro Machado ajudou a transformar, no Brasil das últimas décadas, escritores outsiders em best-sellers. “Malditos” da literatura mundial como Charles Bukowski, Jack Kerouac, William Blake e Arthur Rimbaud tornaram-se acessíveis, principalmente para o público jovem, por conta das edições de bolso da L&PM, editora fundada em Porto Alegre, em 1974, por Pinheiro Machado e seu sócio Paulo Lima. 

Com 30 milhões de livros vendidos, a Coleção Pocket é, para o editor gaúcho, “o grande dado novo, diferente, que houve na indústria editorial brasileira nos últimos 25 anos”. “Coube a nós trazer uma coleção realmente de bolso nos moldes das grandes editoras internacionais. Uma coleção plural”, diz.

A pluralidade, aliás, é outra marca que o editor ostenta com orgulho. De Shakespeare a Agatha Christie, a L&PM construiu um catálogo gigantesco, que conta hoje com mais de 3 mil títulos. Uma linha editorial “polifônica” com autores de diferentes vozes e que vai da literatura clássica à literatura moderna, passando por quadrinhos e grandes filósofos. 

 Nesta entrevista, Pinheiro Machado lembra como, a partir de um momento de crise, surgiu a ideia de conceber a coleção de bolso que iria mudar a história de sua editora. Também falou de autores importantes da casa, que se tornaram grandes parceiros, tal como Millôr Fernandes, Moacyr Scliar, Sergio Faraco, Darcy Ribeiro, Josué Guimarães, Eduardo Galeano, João Antônio e Martha Medeiros.

Também resgata histórias a respeito de livros importantes na trajetória da L&PM, como Rango, do amigo Edgar Vasques (o marco zero da editora), Cuca fundida (o primeiro a entrar em uma lista de mais vendidos), de Woody Allen, e o recente Sapiens, best-seller do israelense Yuval Noah Harari. 

Ivan Pinheiro Machado fala com paixão de literatura e de todo o metiê que envolve a edição e comercialização de um livro. Pintor, fã de Balzac e autor de centenas de capas de livros da L&PM, aos 66 anos diz que ainda tem “a cabeça que tinham aqueles meninos de 22 anos que fizeram a editora sem um tostão”. Confira os melhores trechos da conversa, realizada na sede da editora, na capital gaúcha.

Você acaba de voltar do Salão do Livro de Paris, evento que sempre faz questão de ir...
Sim, vou lá há muitos anos, porque uma das nossas inspirações sempre foi a maneira europeia de editar, que, na minha opinião, é muito importante do ponto de vista cultural. Acho até mais do que a americana. Por quê? Porque o americano, por exemplo, dá muita ênfase ao business. Já o enfoque editorial europeu, embora também seja calcado nos negócios, tem uma tradição cultural muito maior, naturalmente, até por questões históricas, muito maior do que a tradição cultural americana. Então as grandes editoras europeias inspiraram a L&PM nesses 40 anos. Foi o que nos fez construir um catálogo de fundo, com uma permanência grande, ou seja, livros que servem como referência cultural, tanto para o leitor comum quanto para a escola, a universidade. Fizemos um trabalho dirigido para disponibilizar livros importantes, obras de grandes filósofos, clássicos — especialmente os clássicos. Teve um trabalho importante com o Kafka, com o Freud, uma nova tradução do Freud do alemão, usando uma equipe acadêmica de várias grandes universidades brasileiras, como USP e UFRGS. Assim como fizemos com Balzac, com uma leitura da Comédia Humana, com quase 80 volumes, tentando melhorar o prestígio do Balzac no Brasil, já que as edições da Globo são muito fracas do ponto de vista das traduções, embora seja um trabalho gigantesco, digigido pelo Paulo Rónai, mas as traduções são muito antigas...

Eles editaram vários livros importantes, não é?
Editaram toda a Comédia Humana, nas décadas de 1940 e 1950. Então, a gente resolveu fazer tudo de novo. Inclusive eu estudei muito o Balzac e fiz, pelo menos em uns 20 volumes, a parte de referência, de introdução. Isso é fundamental nesses livros que têm profundidade, enfim, clássicos com mais permanência. São obras que precisam ser referenciadas pela época, pelo ambiente. Isso a gente tem feito. Estou te falando tudo isso para dizer o seguinte: aprendemos muito nesses 40 anos com o jeito europeu de editar. Inclusive morei na Europa um período.

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Onde você morou? 
Em Roma. Meu pai foi exilado...

Seu pai era político? 
Meu pai foi deputado pelo Partido Comunista, na Constituinte de 1946. Foi cassado duas vezes: em 1946 e no Golpe de 1964. 

Que período da sua vida você morou lá? 
Entre 18 e 19 anos. Meu pai era professor na Universidade de Roma, de História da América Latina e de História da Colonização Europeia na América Latina. 

Você nasceu numa casa de leitores e isso certamente ajudou a construir sua carreira. Seu pai tinha uma boa biblioteca? 
Meu pai tinha uma belíssima biblioteca. Ele era um intelectual, um visionário, um cara muito idealista. Quando houve o Golpe de 1964 — essa é a grande memória que tenho —, a Civilização Brasileira era a grande editora progressista do país. Uma editora moderna, que tinha os grandes autores, de esquerda e tal. E a Civilização Brasileira foi perseguida: incendiaram a livraria da editora na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Enfim, foi muito perseguida. Aí, para salvar a editora — naquela época que eu tinha 12 ou 13 anos —, fizeram em todo Brasil um grande grupo de amigos da Civilização Brasileira. Era simplesmente o seguinte: o cara dava seu nome para o representante da Civilização em cada cidade, e recebia todos os livros da editora, comprava todos os livros da Civilização. E o meu pai era um desses caras que participaram dessa grande rede de solidariedade para manter a editora do Ênio Silveira.

E como você foi parar numa faculdade de arquitetura? 
Porque sou, antes de qualquer coisa, pintor.

Por isso fez tantas capas para a L&PM? 
Eu fiz 1500 capas. Muitas das capas da coleção de bolso. Não tinha dinheiro para contratar capista [risos]. Expus em Nova Yorque, modestamente, em Paris, em Copenhague... então, quer dizer, a minha formação original é visual, de artes gráficas. E fui fotógrafo. Meu primeiro emprego, com 18 anos, foi de fotógrafo da Zero Hora. Trabalhei como freelancer na Veja, na época em que tinha sucursal forte aqui. 

Teve alguma editora em especial que você se espelhou para criar a L&PM? 
Não. Eu sempre curti muito a Gallimard, na França, e a Feltrinelli, na Itália. Eram editoras que tinham um enfoque cultural e progressista. A Gallimard tem uma tradição enorme, é uma editora de mais de 100 anos. A partir da experiência do mercado europeu, tiramos a inspiração para fazer aquilo que eu considero, sem falsa modéstia, o grande dado novo, diferente, que houve na indústria editorial brasileira nos últimos 25 anos, que foi a coleção L&PM Pocket, que hoje tem 1.300 volumes e é uma referência nacional.

Essa ideia da Coleção Pocket, de onde surgiu exatamente? Foi olhando os mercados? 
O projeto, para falar a verdade, foi uma coisa que nós bolamos num momento de grande crise, na ressaca do [plano] Real, quando o juro ficou altíssimo. No meio do turbilhão que foi o final da década de 1990, tínhamos que tomar uma decisão importante: continuar ou não editando. Então, fui à Europa para fazer o projeto dessa coleção de bolso. Voltei do Salão de Paris de 1996 com mais ou menos uns 150 livros, de várias editoras e coleções. Quando cheguei com esse material, reuni a equipe e propus um primeiro lote com 12 títulos que representassem uma coleção de bolso plural e que, principalmente, subvertesse a realidade brasileira, que era anti-livro de bolso. Isso é muito importante que se diga. Vínhamos de uma herança cultural quase aristocrática, onde o livro de bolso era considerado lixo. Era produto de terceira categoria, não era nem de segunda. Porque todas as experiências que até então tinham sido feitas eram de livros para mocinha, de faroeste, religioso, vendido em banca. Não havia no Brasil vontade — dos empresários, livreiros, editores — para que se tivéssemos um livro mais popular. Coube à L&PM, que de todas as grandes editoras brasileiras era a mais independente, a que tinha menos dinheiro e que estava fora do eixo Rio-São Paulo — principalmente por causa disso —, coube a nós o lugar na história editorial brasileira de trazer uma coleção realmente de bolso nos moldes das grandes editoras internacionais. Uma coleção plural.

A coleção representa bem o que é a editora hoje? 
Quando me perguntam qual é nossa linha editorial, digo que ela é polifônica. A Coleção Pocket é polifônica. Porque ela tem diversas vozes, e essa foi a ideia que nos guiou desde o começo, quando publicamos o volume 1 de O analista de Bagé, do Luis Fernando Verissimo. Procuramos fazer uma coleção que tivesse desde a literatura clássica, a literatura moderna, grandes filósofos, filósofos modernos, história em quadrinhos, grandes autores policiais, como Raymond Chandler, David Goodis, Dashiell Hammett, literatura brasileira moderna e clássica. Tudo com muito empenho, livros com belíssimas introduções. E a L&PM tem uma tradição de transgressão, desde o começo de sua história, em 1974, quando começamos resistindo e perseguidos pela ditadura. Quer dizer, sempre houve essa coisa da identificação com a rebeldia. A gente acabou editando Bukowski, Jack Kerouac, a geração beat. E me sinto muito bem por causa disso. Passaram-se 44 anos e de repente a gente tem a cabeça que tinham aqueles meninos de 22 anos que fizeram a editora sem um tostão. O [Paulo] Lima e eu fizemos a editora com 22 anos e sem nenhum centavo. E começamos editando Rango, do Edgar Vasques.

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Que era seu colega no tempo de faculdade... 
Era colega de aula, no colégio de aplicação da faculdade de filosofia. Foi também nosso sócio numa tentativa de fazer uma agência de publicidade, porque ele é um desenhista fantástico. Inclusive trabalha conosco, eventualmente faz capas. E nós vamos publicar uma antologia do Rango, colorida, que foi o primeiro livro da editora. Participei de uma revista na faculdade de arquitetura, sou arquiteto de formação e pintor, chamada Grilos, em 1970, onde foi publicado pela primeira vez o Rango. Então nós temos uma história muito antiga com o Edgar. E depois, quando a gente fez a editora em 1974, o primeiro livro foi o Rango, que fizemos sem nenhuma pretensão. 

O segredo de uma editora é o catálogo? 
Cada um tem a sua visão, cada editor tem um olhar. Nós, aqui na L&PM, certos ou errados, achamos que o catá - logo é importante. Por exemplo, apesar de termos o livro que é o maior best-seller dos últimos 10 anos no Brasil, Sapiens [do israelense Yuval Noah Harari], que está na lista dos mais vendidos há 68 semanas, sendo que metade desse tempo em primeiro lugar, nunca perseguimos o best-seller. Aquela coisa de entrar nesses leilões inacreditáveis... Pegamos o Sapiens porque todo mundo viu e ninguém se deu conta. A maioria dos editores brasileiros teve acesso ao livro, pois o agente ofereceu para todos. Nós lemos e achamos que deveríamos publicar. E não foi nada demais do ponto de vista de dinheiro. Foi uma negociação absolutamente de rotina em cima de um livro que a gente gostou. Porque não é o nosso foco disputar best-seller, entende? Nosso foco, o que gostamos de fazer, é esse livro que tem durabilidade, que tem extensão no tempo. É óbvio que estamos sempre atentos ao livro que vende, pois é fundamental para que o negócio ande. Mas, do ponto de vista de durabilidade e de consistência do negócio editorial, achamos que é importante ter um catálogo que não seja com livros que vivam seis meses. 

Qual livro da L&PM tem essa durabilidade e é bom de venda? 
O Hamlet que lançamos em 1997 já vendeu 400 mil exemplares. Esse mesmo livro foi lançado em 1993, com a tradução do Millôr Fernandes e um projeto gráfico caprichado. Mas custava caro. Vendeu 3 mil exemplares em 4 anos. Então tu vê o que o livro de bolso fez, por razões várias que a gente poderia citar: ele alçou esse livro, que passou de um título que alguns compravam para se tornar um livro popular. Pô, vendemos 400 mil exemplares do Hamlet no Brasil. Isso aí é um feito que nós nos orgulhamos. Se dá muita pouca bola, no Brasil, a isso, porque a gente tem toda uma história de agentes culturais comprometidos com, sei lá, política, grandes centros... Estar fora do eixo Rio-São Paulo já é um handicap negativo.

A imprensa tem preconceito contra o livro de bolso?
Sim, muito. Acho que uma das coisas mais sensacionais da coleção de bolso da L&PM, que tem mais de 30 milhões de livros vendidos, é que ela foi construída e financiada pelo leitor. E consagrada pelo leitor. Teve uma omissão criminosa da imprensa, que adora dizer que a indústria editorial é elitista, só que quando se faz uma coisa que não é elitista, eles ignoram. A imprensa cultural brasileira, na minha opinião, é um desastre. Sobre esse livro que falamos há pouco, o Sapiens, lançado em 2015, apenas o Jorge Pontual, na Globo News, comentou na imprensa brasileira. Nunca saiu uma resenha em lugar nenhum. Não saiu na Folha de S.Paulo, não saiu n’O Globo. A Veja só falou no livro quando a Companhia das Letras editou o Homo Deus, aí falou no Sapiens.

A L&PM nasceu em 1974, com o Rango, mas como foram os primeiros passos? 
A editora surgiu graças à ditadura, porque, na verdade, o que nós fizemos foi um desafio à ditadura da época. A gente estava dentro daquele grande movimento plural da resistência democrática, no final da década de 1960, começo de 1970. Logo após começarmos a editora, encontrei o Darcy Ribeiro em Lisboa e ele perguntou no que eu trabalhava. Isso foi na casa do Josué Guimarães, em Portugal. Respondi que tinha uma editora. “Que maravilha”, ele disse. Aí perguntei, “o que é uma maravilha?”. “A insciência da juventude” [risos]. “Você está fazendo um negócio absurdamente improvável no Brasil”, disse. Nunca esqueci isso. É genial essa frase do Darcy Ribeiro, porque assim é que são feitas as coisas. O jovem não quer saber, entendeu? Meu pai até me dizia: “Vocês estão loucos! O que vocês querem?” Aí nós fizemos o Rango. Logo fui chamado pela Polícia Federal, passei uma tarde lá me explicando. O delegado leu o livro inteiro na minha frente, 80 páginas, e dizia para mim que aquilo não era livro, era revista. E revista tinha que ter depósito na censura federal. E era verdade. Todo periódico tinha que ter esse registro. E eu dizia para ele: “Doutor, isso aqui é um livro”. “Isso aqui é uma revistinha de comunista!”, ele respondia. Aí, de repente, eu digo para ele: “Doutor, dá uma olhadinha no prefácio”. E o prefácio abre assim: “Recomendo este livro com o maior entusiasmo”. [risos] Era o Erico Verissimo escrevendo, uma entidade, que estava vivo na época. Aí o cara me olhou e disse para eu me mandar dali.

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E desse período inicial até a coleção de bolso, como foi? 
A gente trabalhava como jornalista, eu e o Lima. Os primeiros dois anos da L&PM foram na cozinha da casa em que funcionava o escritório de advocacia do meu pai. Nós mandamos botar um carpete, para não ficar com cara de cozinha, e demos uma enganada. Depois foi a vez do velho Lima, pai do Paulo, nos albergar. Ele tinha uma livraria que era muito importante aqui em Porto Alegre, a Livraria Lima, onde funcionava o Estadão — ele era chefe da sucursal. Próximo da livraria, tinha um porão em que ele guardava o estoque. E nós fomos para esse porão. E aí então bolamos um slogan: “Uma editora literalmente underground”. Aí é que começamos a publicar o Charles Bukowski, os beats e outros autores que estão marcados em nossa história. Enquanto isso, estabelecemos, no Rio de Janeiro, contato com o Millôr Fernandes. O Millôr e o Josué Guimarães são muito importantes na história da L&PM. O Scliar também, assim como o Edgar Vasques. Mas na época quem tinha um grande prestígio nacional eram o Josué e o Millôr. Quando íamos falar com um autor, dizíamos: “Nós editamos um livro do Millôr”. Depois editamos praticamente quase toda obra do Millôr, que foi nosso amigo até o último suspiro.

Ao longo dos anos, como foi seu relacionamento com os autores da L&PM? 
Foi muito fácil. Aqueles que não foram fáceis, passaram pouco tempo na editora. Me considero privilegiado. Porque convivi com algumas figuras extraordinárias. Ter convivido com Millôr Fernandes, Moacyr Scliar, Josué Guimarães, Eduardo Galeano, João Antônio, porra, era um privilégio. E a gente convivia mesmo. Naquele tempo não tinha esse troço de internet, tudo digital. Não. A gente ia lá para o Rio. Eu pegava o João Antônio na casa dele, ia para a Praça Serzedelo Correia, naqueles botecos onde ele bebia, e ficávamos ali jogando conversa fora, falando sobre mulher, futebol. Editamos vários livros do Darcy Ribeiro. Então, cara, imagina tu passar três dias com o Darcy Ribeiro. Com essas figuras. Com o Millôr foram 30 anos de convivência. Ele foi meu padrinho de casamento, em 1981. O único cara que levou a sério meu casamento, por incrível que pareça, foi um grande humorista. Chico Caruso, outro cara que foi grande amigo. Com a Martha Medeiros, por exemplo, temos 25 anos de relação. Esses dias a gente fez até um brinde aqui na editora. Nem os casamentos duraram isso, né? [risos] Então, sempre tivemos uma relação muito estreita com esses autores. Claro que no meio de tudo isso ocorre um monte de coisa que a gente releva com o tempo. Mas pelo menos essas pessoas que citei são inesquecíveis para nós. O Galeano, por exemplo, foi um cara que nos abriu muitas portas no mercado hispânico, porque era uma referência. Nos conhecemos em 1976, em Frankfurt. Ele era um homem de 30 anos, eu tinha 22 anos. 

E como foi editar o Woody Allen? 
Estou em Frankfurt, isso bem no começo, aí estava lá também um editor da Nova Fronteira que se chamava Roberto Riet Correa, que morreu com menos de 40 anos, era gaúcho e amigo nosso. Eu digo assim: “Porra, o Verissimo me falou de um cara, de um americano aí que é muito engraçado, um tal de Woody Allen”. Ele disse: “Eu conheço esse cara! Conheço o agente dele”. Então o Roberto me apresentou para um agente americano, que era ligado à editora Alfred Knopf, e eu fui lá falar com ele. Aí digo ao agente: “Tenho um amigo em Porto Alegre que me disse que o Woody Allen, esse que está fazendo os filmes, tem um livro”. Nem sabia quem era o Woody Allen. O livro se chamava Side effects. Aí o cara disse: “Tu quer esse livro?”. “Quero!”. “Então tá!”. Naquela época era o seguinte: ou tu fazia o contrato na hora ou demorava seis meses, porque era carta que ia, carta que voltava, livro que não chegava, etc. Então, o cara pegou o contrato, uns 500 dólares de adiantamento, e editamos o livro. Cheguei ao Brasil e falei com o Caulos, que era muito meu amigo, um artista gráfico conhecido, que também era amigo do Ruy Castro. Aí fui à casa do Ruy. Nunca me esqueço da primeira coisa que ele me disse: “Um dos melhores escritores brasileiros é o Moacyr Scliar”. Naquela época ninguém tinha nem ouvido falar do Scliar, e nós já editávamos a obra dele. O Ruy Castro já era um cara conhecido da imprensa, Folha de S.Paulo e tal, aí o Ruy traduziu e botamos o nome de Cuca fundida. Três meses depois Noivo neurótico, noiva nervosa [Annie Hall] ganha 8 Oscar. Aí o livro explodiu. Foi o nosso primeiro livro na lista da Veja. Chegou ao primeiro lugar de vendas em 1979. 

As veias abertas da América Latina também é um best-seller da editora, não? 
Veias abertas foi publicado no Brasil em 1971, pelo Fernando Gasparian, que tanto eu quanto o Galeano admirávamos, pois era um grande empresário e editor. Em 2005, quando o Gasparian morreu, passamos a editar também o Veias abertas

O que é pra você um bom texto? Um bom livro de ficção? 
O bom livro de ficção, para mim... em primeiro lugar: o livro que é bem escrito. Mas mesmo que seja bem escrito, se não tiver final, não é um bom livro de ficção. 

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Então, você já respondeu o que é um livro ruim de ficção? Trato o mal ficcionista como trato o mal bar. Já fui comentarista de bar e restaurante — trabalhei para a Gazeta Mercantil. Nós tínhamos por princípio o seguinte: é covardia tu falar mal de um restaurante ou bar em Porto Alegre porque tu fecha o estabelecimento. É uma cidade limitada. Tu fala mal de um ficcionista, tu acaba com a carreira dele — se tiver esse poder, entende? Então, como editor, nunca tive esse problema de ficar recusando ou não recusando, porque sempre teve um corpo de autores da casa. E agora, então, eu chego numa grande figura, que é o Sergio Faraco. Porque o Faraco, dentro dessa grande plêiade de amigos que te falei, é fundamental, um sujeito leal, amigo e a quem esta casa deve muito. Num dos piores momentos da L&PM, que foi quando a gente começou a fazer a coleção de bolso, ele era meu subeditor, trabalhava de graça, fazia o contato com os grandes autores brasileiros, escritores que eu nem conhecia, como Lygia Fagundes Telles, por exemplo, Marina Colasanti, Nélida Piñon. O Faraco ficou fascinado pela ideia da coleção, foi o primeiro grande intelectual brasileiro a aderir à coleção de bolso. Então a L&PM Pocket deve muito ao Sergio Faraco. Tem pelo menos uns 30 livros em que ele é o editor. Ele fez antologias — Livro dos desaforos, Livro das cortesãs, Livro dos bichos, Livro dos sonetos, este último um dos primeiros títulos que publicamos na coleção. Ele editou os sonetos do Camões, também numa belíssima edição. Além dos livros dele, como autor.  

Além da coleção de bolso, qual a grande contribuição da L&PM para o mercado editorial brasileiro? 
Tenho a vaidade de dizer o seguinte: é muito difícil termos uma tradução criticada, um livro que tenha problemas, erros disso e daquilo, porque o nosso trabalho aqui é muito meticuloso. A gente tem o respeito do leitor. Porque no fundo é o que eu te disse: vamos falar quatro horas e acabar no leitor. Ele é o fim. Não teve dinheiro do exterior, sócio espanhol, sócio americano — não! O que nos garantiu a possibilidade de criar esse imenso e valioso catálogo que a L&PM tem hoje foi só o leitor. Por quê? Porque ele reconhece o livro da L&PM. Quer dizer, a gente teve que vencer as barreiras que diziam que o livro de bolso era uma porcaria de quinta categoria. Hoje, o nosso livro de bolso é aceito pelos grandes livreiros e pelo mais variado tipo de leitor. Outra coisa que nos orgulha muito: é que tu não imagina o que já ouvi de pessoas, de meninas e meninos, que chegam e dizem que o primeiro livro que leram foi da L&PM. Esses dias até me aconteceu isso. Eu estava numa livraria, na Saraiva, aí veio uma guria: “Tu é o cara da L&PM, né?” Respondi que sim e perguntei por quê? Aí ela disse: “O primeiro livro que li fora da biblioteca do meu pai e da minha mãe foi um livro da L&PM”. Aí eu digo: “Porra, que livro foi?” Ela fala: “Sem plumas, do Woody Allen”. Isso é sensacional.

Várias gerações de leitores conheceram Bukowski, os beats e outros autores malditos por causa da L&PM... 
A coisa mais importante é exatamente isso. Eu acho que o bom editor provoca o fato. Tu não fica esperando que chegue um cara e diga “tem um livro de um milhão de dólares”, um scout teu em NY te liga e diz: “Tem um troço aqui que vai vender 500 mil exemplares, vamos fazer uma oferta de um milhão de dólares e a gente leva o livro”. Se acontecer, acho isso perfeito, é um business. Agora, quem não tem um milhão de dólares para dar por esse best-seller tem que criar. My way, né? É o velho Frank. Quer dizer, então a gente tem que inventar o nosso jeito. E o nosso jeito foi esse: criando uma empatia, uma interatividade com os leitores. Foi o que disse antes: somos polifônicos. Turma da Mônica, Peanuts, Guido Crepax, sacanagem, transgressão, temos de tudo. 
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