Narrativas | Ewerton Martins

Os sarb’mos

Os sarb’mos nos perseguem. Não há onde possamos ir que já não saibam. Molestam-nos preventivamente, antecipam-nos os passos, submetem-nos como consequência do que somos causa. Não há fuga possível.

Não damos um passo sem que nos tenham previsto o movimento. Não há movimento que escape à sua simultânea antecipação. Desconheço divindade que não seja a criada por nós — mesmo assim, nos afetam.

Tudo isso acessei em um sonho. Denominam-se luz em um mundo de trevas, presumem-se — transcendências tal si cor, som, corpo — onde eu pude acessar, mas não compreendo. Demônios.

Dizem de si pelo que denominam linguagem: deuses íncubos que se supõem sempre em pé. Falsos anjos.

A cadeira

Naquele lugar a cadeira dispõe-se. O homem vislumbra a cadeira e nela se senta, face para o mundo. Recosta-se da forma que mais lhe convém para o conforto corporal. Busca saliva nos cantos da boca seca. Olha para o mundo com os olhos cansados do fim. Começa a falar.

Um infinito inteiro depois, o homem se cala. Pudera enfim dizer tudo. Pudera enfim dizer tudo.

O homem se levanta e se vira, as costas para o mundo. Caminha da forma que mais lhe convém para o conforto corporal. Busca fôlego na alma seca. Cansados os olhos, desvia o mundo. Dá-se ao andar, enfim. E dá-se ao andar. Ao cabo, tudo não fora mesmo o suficiente.

No mesmo lugar, a cadeira dispõe-se. A cadeira deslumbra a mulher.

É de sonho, é de pó

1.
Nascemos na savana. Assim que deixamos o corpo da mulher, tivemos a deslumbrante visão dos trezentos e sessenta graus que nos faziam entorno. Deslumbramo-nos então, gozo de corpo inteiro, infindável, comunhão.

2.
Enxergar toda essa angulação implicava em ver a si mesmo na totalidade, integrado — mas também em ser visto de qualquer lugar, o que punha a vida em (uma de repente inaceitável) vulnerabilidade. Houve o medo, primeira vez.

3.
Buscamos o amparo das árvores, tentativa de emoldurar a visão: a nossa visão do resto, distrair dos perigos — e a visão que o resto teria de nós, distrair os perigos. Enquadramos a realidade, mas o que fizemos dela também nos enquadrou: da savana à floresta, a frigidez civilizatória.

4.
Adolescemos aí, o que então se fez pouco: a maturidade existencial que de repente passamos a demandar, sôfregos, implicava em uma necessidade cada vez maior de segurança. Buscamos as rochas, quais nos tornamos.

5.
Fizemo-nos adultos assim que conquistamos a caverna, cujo formato da entrada definiria o método com que enquadraríamos, dali em diante, a realidade inteira (ou aquilo que, parte dela, passaríamos a entender como o “tudo”). Foi quando, brochas, começamos a pintar, emoldurados.

6.
Da parede da caverna à tela de pintura, envelhecemos; e dela à televisão, da televisão ao computador de mesa, do computador ao celular de mão, a tela, telas, tê-las: que em meu celular eu emolduro o meu olhar, um olhar já cansado, duro, a civilização, segurança, vitória: eu consegui. Mirando o meu celular, os meus dois olhos estabelecem um único grau como campo de visão — e nada mais finalmente me atinge. Finalmente.

7.
Essa trajetória — entre os trezentos e sessenta graus que nos faziam entorno e o único grau que hoje se apresenta como campo de visão — denuncia: o próximo passo em direção à maturidade (a maturidade definitiva, absoluta, terminante, final) será a cegueira, a cegueira como a contada na tragédia clássica, a cegueira inescapável, o vaticínio dos deuses: falo da vida que era de sonho; falo da vida que agora é de pó.

O seixo

O seixo só alcança a sua forma polida e calma, sem arestas, depois de despencar descontrolado rio abaixo, às pancadas, solto e grave, por décadas a fio, abandonado de tudo à própria sorte, sem saber onde nem em quem vai dar. A beleza do seixo depende da relação do tempo com o espaço.

Com um sem número de seixos nas mãos, ergue-se uma casa ou defende-se a casa construída. Mas o seixo, propriamente, só a natureza, em seu tempo próprio de queda, ele em si mesmo subtrativo, é capaz de estabelecer.

Há quem diga que não é a queda que forma o seixo, mas a água. Quem diz isso entende de água, não de seixos.


Ewerton Martins Ribeiro é autor da novela A grande marcha (2014), lançada em formato digital pela editora e-galáxia, cujo pano de fundo são as manifestações brasileiras de junho de 2013. Jornalista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutorando em estudos literários pela mesma instituição, nasceu e vive em Belo Horizonte (MG). Em agosto, em razão de uma bolsa de investigação recebida da Fundação Calouste Gulbenkian, parte para uma temporada de um ano em Portugal, onde escreverá o livro de sua tese.
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