Capa | A nova literatura argentina

Uma outra Babel

O escritor Carlos Henrique Schroeder reflete sobre como a atual e prolífica geração de autores argentinos tenta superar a eterna sombra de Jorge Luis Borges

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Contista e romancista, Samanta Schweblin tem dois livros lançados no Brasil: Pássaros na boca e Distância de resgate. Uma das principais vozes da nova geração de autores argentinos, já recebeu diversos prêmios, como o Casa de Las Américas (Cuba) e o Juan Rulfo (França). 

N o prólogo de O último leitor, de Ricardo Piglia, conhecemos o fotógrafo Russel, que esconde em sua casa no bairro de Flores, em Buenos Aires, uma réplica da cidade “numa escala tão reduzida que podemos vê-la de uma só vez” e “toda a cidade está ali, concentrada em si mesma, reduzida a sua essência”. 

É provável que Russel não saiba, talvez nem Piglia, mas nesse simulacro da capital argentina há um segredo: no porão de um casarão está um ponto do espaço que abarca toda a realidade do universo. Está tudo lá: você, eu, ruas, vidas, e, claro, todos os escritores argentinos, de todas as épocas, do passado e do futuro, de agora. Essa unidade na multiplicidade é um tema borgiano por excelência, e não reluz apenas em O aleph. Esta é a melhor comparação que podemos fazer sobre a literatura argentina: ela é una em sua bibliodiversidade. 

Sendo assim, podemos crer matematicamente que a literatura argentina é borgeana. Ponto. Nada escapa da sombra de Borges, nem o passado, muito menos Piglia. Eleito por nove entre cada dez críticos literários e escritores o melhor lançamento do ano passado no Brasil, Anos de formação — Os diários de Emilio Renzi é um mergulho na formação literária do alter ego de um dos mais populares e reconhecidos escritores latino-americanos. A acessibilidade de sua prosa e de seus ensaios fizeram de Piglia um dos casos raros e duradouros de equilíbrio entre crítica e público.

O livro narra sua formação como leitor e o encantamento nas primeiras experiências com a escritura. Mas também é possível sentir uma espécie de claustrofobia de estar em Buenos Aires, com a sombra de Borges em todas as esquinas (Alan Pauls, outro argentino e grande equilibrista entre público e crítica, vê os tentáculos borgeanos abraçando toda a cidade em O fator Borges). Pauls também trata dos dois Borges mais famosos: o jovem e vanguardista, e o anacrônico e quase invisível (“um escritor de outro tempo”). Mas qual o tempo da literatura? Seria justo pensar cronologicamente em algo tão cheio de camadas e janelas? Não? Sim? E como falar da literatura argentina, que bem parece o clássico de Macedonio Fernández (Museu do romance da eterna), onde a numeração de páginas é inútil?

São tantas correntes que é quase impossível segui-las sem cair num simplismo risível. Vou eleger um tema justo para tratar dessa literatura que me é tão cara e suculenta: a carne. Me desculpem os veganos e vegetarianos, mas quem nunca comeu um bife de chorizo acompanhado de um Malbec, não sabe o que é viver. “Não é a mesma coisa nadar no mar, nadar numa piscina, a mesma diferença entre viver e ler?”, pergunta-nos o Renzi do livro de Piglia. Aliás, carne e política são dois pratos argentinos por excelência, e estão no conto “El matadero” (1871), de Esteban Echeverría: tem como cenário um matadouro na Província de Buenos Aires, mas também os enfrentamentos entre unitaristas e federalistas. Ah, a política….

Mas provavelmente alguém levantará o dedo e dirá: que heresia! É Facundo (1845), de Domingo Faustino Sarmiento (que chegou a ser presidente do país), que simboliza a fundação da literatura argentina! Outro pode bradar que José Hernández e seu poema “O gaúcho Martín Fierro” (1872), verdadeiro best-seller que retratava a vida dura dos gaúchos e as injustiças de que eram vítimas é, sim, digno de um ato fundador, ou ainda Ricardo Güiraldes e seu Don Secundo Sombra (1926), outro livro sobre as lidas do campo.   

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Nascida em Entre Ríos, na Argentina, em 1973, Selva Almada é uma das revelações da literatura de seu país. No Brasil, foram publicados dois livros da autora, O vento que arrasa e Garotas mortas

Século XX
Mas logo tomaram conta da produção local. Em Sonhos da periferia — Inteligência argentina e mecenato privado, o professor da USP Sergio Miceli levanta um interessante paralelo entre as vanguardas argentinas e brasileiras. A primeira, subsidiada pelo mecenato privado, e a segunda, aparelhada pelo Estado, mas ambas com um ponto em comum: “As ligações de artistas brasileiros e argentinos com as tendências inovadoras em voga na França se assemelhavam bem mais do que as conexões desses campos de produção intelectual com seus congêneres latino-americanos”. 

A uva Malbec estava quase extinta na França e renasceu na Argentina, onde hoje estão os mais consagrados vinhos desta uva. Podemos dizer que a literatura argentina achou um respiro na França, e, então, tal qual o milagre da uva Malbec, ganhou sabor e taninos incomuns. Assim a primeira metade do século XX consagra a prosa argentina no mundo: Leopoldo Lugones publica As forças estranhas (1906) e Contos fatais (1926), sai também Contos de amor, loucura e de muerte (1917), de Horacio Quiroga, Os sete loucos (1929), de Roberto Arlt, A invenção de Morel (1940), de Adolfo Bioy Casares, e Ficções (1944) e O aleph (1949), que tornam Jorge Luis Borges uma entidade nas décadas seguintes. 

E a ascensão continua na segunda metade do século XX: Ernesto Sábato vem com Sobre heróis e tumbas (1961), Julio Cortázar ganha fama mundial por Histórias de cronópios e de famas (1962) e por O jogo da amarelinha (1963), e Museu do romance da eterna (1967), de Macedonio Hernández, é praticamente um divisor de águas (ou de vinhos). Manuel Puig estreia com La traición de Rita Hayworth (1968), e Juan José Saer sai com O limoeiro real (1974). 

É isso? Não, mesmo. Toda lista é incompleta: falha, em sua essência. Injusta. Justiça mesmo somente no espectro borgeano: todos os autores, lado a lado, sem tempo. Apenas gesto. Unidade e multiplicidade. Quantas vozes no escuro? Seria ridículo não voltar pelo menos aos anos 1960, onde estão Copi, Osvaldo Lamborghini e Néstor Sánchez, ou um pouco mais para frente, aos provocadores Fogwill, César Aira, Héctor Libertella e Alberto Laiseca, e por fim ao Sergio Chejfec, Luis Chitarroni, Antonio Di Benedetto e Daniel Guebel até chegar em Martín Kohan, Alan Pauls, Juan Becerra e Sergio Bizzio e por fim em Patrício Pron e Andrés Newman…

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O escritor Jorge Luis Borges, autor de Ficções, em 1968, no Central Park, em Nova York.

Grandes autoras
Opa, há algo de errado. Esse caminho não funciona, não mesmo. Voltemos ao porão, voltemos a Buenos Aires, voltemos. “Mas e as escritoras?” Pergunta o leitora antenada e justiceira. Calma, plis. O país vizinho foi e é um celeiro de grandes narradoras e poetas, e também o país de Beatriz Sarlo, uma das críticas literárias mais respeitadas na América Latina. E lá, no sótão borgeano, este lugar sem tempo, elas estão em paridade. E podemos muito bem clamar pelo protagonismo de Juana Manuela Gorriti. Nascida no dia 15 de junho de 1818, em Salta, no noroeste argentino, publicou contos, romances, biografias e memórias. Escreveu seu primeiro romance, La quena, aos dezoito anos de idade. Publicou cerca de 70 obras de ficção ao longo da vida. Oscilava entre Lima e Buenos Aires, tornando-se uma notável figura literária em ambas as cidades. Ficou conhecida não somente como escritora, mas também como uma heroína de guerra: durante o cerco espanhol ao porto de Callao, no Peru, e ajudou soldados feridos e participou da resistência militar. Juana faleceu em 1892, aos 78 anos de idade.

Mas sejamos realistas: se os escritores argentinos sempre foram muito bem editados por aqui, as escritoras foram subestimadas pelo mercado editorial brasileiro, para nosso azar. E somente nos últimos anos as coisas começaram a melhorar. E assim fomos perdendo universos tão díspares quanto cativantes de autoras como María Elena Walsh, Norah Lange, Nydia Lamarque, Sara Gallardo, as irmãs Silvina Ocampo e Victoria Ocampo, Delfina Bunge, Alfonsina Storni, Alejandra Pizarnik, Sylvia Molloy e muitas outras.

Mas um quarteto mágico vem fazendo bonito na última década, e pode-se dizer que a melhor produção contemporânea argentina é delas (e todas com títulos lançados no Brasil recentemente). Mariana Enriquez, Samanta Schweblin, Selva Almada e Leila Guerriero: elas estão lá, lado a lado com Gorriti, no porão. Nos contos de As coisas que perdemos no fogo, Enriquez usa uma espécie de “terror social” para abordar temas como pobreza, violência policial e as desigualdades de gênero. Uma vítima de bullying que arranca as próprias unhas, um grupo de jovens mutantes que vive às margens de um rio envenenado, uma criança assassina ou uma menina que tem uma caveira como melhor amiga convivem muito bem em páginas e páginas recheadas de personagens perturbadores e de cenas nas quais a vida cotidiana ganha contornos de pesadelo. Os doze contos reunidos na obra mostram uma realidade palpável, que trazem à tona problemáticas latino-americanas e mundiais. O conto que dá nome ao livro é um espetáculo de horror e um grito feminista. Enriquez costuma trabalhar com as fobias de seu país. “Se você fizer um conto sobre uma menina que desaparece dentro de uma casa em um bairro, fará ressoar os centros clandestinos da ditadura”. Aclamado pela crítica em vários países, ganhou, em fevereiro de 2017, o prêmio Ciutat de Barcelona na categoria “Literatura Castelhana”.  

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Leila Guerriero é jornalista e escritora, autora de diversos livros-reportagem, como Los suicidas del fin del mundo.

Outro livro de arrepiar é O vento que arrasa, de Selva Almada, que faz, à maneira de Saer, uma leitura fantástica do real. O livro retrata a história de um pastor evangélico e de sua filha, Leni, que são obrigados a fazer uma parada na oficina mecânica do Gringo, local onde conhecem o jovem ajudante Tapioca e querem convertê-lo e levá-lo consigo. 

Uma das melhores cenas de violência física e psicológica da literatura contemporânea está neste breve e fascinante romance. Já Distância de resgate, de Samanta Schweblin, é uma narrativa tão original e impactante que confirma a autora argentina (do espetacular Pássaros na boca) como uma das vozes fundamentais da literatura latino-americana contemporânea. O breve romance de 144 páginas tem três eixos que se sobrepõem a todo instante: a estreita e conflituosa relação de mães e filhos pequenos, os terríveis efeitos dos agrotóxicos no campo e o caminho sinuoso entre a vida e a morte (sim, o livro tem pitadas de terror). “Fico pensando se poderia acontecer comigo o que aconteceu com Carla. Sempre penso no pior. Agora mesmo estou calculando quanto demoraria para sair correndo do carro e chegar até Nina, se ela corresse de repente para a piscina e se atirasse. A isso dou o nome de ‘distância de resgate’, que é como chamo a distância variável que me separa de minha filha, e passo a metade do dia fazendo esse cálculo, embora sempre arrisque mais do que deveria.” O enredo se desenvolve num ping-pong entre Amanda e David: perguntas e respostas que nos envolvem em um pacto assustador. 

Por fim chegamos em Uma história simples, livro-reportagem de fina prosa literária de Leila Guerriero, que investiga um festival de malambo (o sapateado dos “gaúchos” argentinos) praticamente desconhecido no país, mas que leva centenas de pessoas a Laborde, uma pequena localidade na província de Córdoba. “No pequeno circuito majestoso dos dançarinos folclóricos, um campeão de Laborde é um eterno semideus.” Leila narra a história em primeira pessoa, compartilhando com o leitor suas dúvidas e seu fascínio sobre os personagens. E elege o competidor Rodolfo como seu guia nessa imersão: “Ao terminar, bateu na madeira com a força de um monstro e ficou ali, olhando através das camadas de ar folhado da noite, coberto de estrelas, puro fulgor. E, sorrindo de lado, como um príncipe, como um rufião ou como um diabo — tocou a aba do chapéu. E se foi. E assim foi. Não sei se o aplaudiram. Não me lembro.” Uma magistral construção na busca da linha tênue da ficção e do real. E o mercado brasileiro finalmente acordou para elas: Sara Gallardo e Sylvia Molloy sairão nos próximos meses pela editora mineira Relicário (que acaba de lançar um combo com dois livros de Alejandra Pizarnik).

Se foram esquecidas por um tempo no Brasil, nunca foram na Argentina, e cada escritora é o símbolo de todas. E chamo Borges: “Toda linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartem; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que minha temerosa memória mal e mal abarca? Os místicos, em análogo transe, são pródigos em emblemas: para significar a divindade, um persa fala de um pássaro que, de algum modo, é todos os pássaros; Alanus de Insulis, de uma esfera cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma; Ezequiel, de um anjo de quatro faces que, ao mesmo tempo, se dirige ao Oriente e ao Ocidente, ao Norte e ao Sul.” A presença de Beatriz Viterbo ressoa para sempre, em todo o universo. Ontem, hoje, amanhã.

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Morto em janeiro de 2017, Ricardo Piglia, além de um grande ficcionista, também se dedicou a entender a rica tradição literária de seu país.

Ainda inéditos no Brasil 
Para escrever esse texto, revi minhas antigas cadernetas, com anotações de livros lidos no passado, e encontrei uma de 2008, com os livros que me impressionaram naquele ano. Já se passaram dez anos e nenhum deles chegou ao Brasil. Gostei muito do terceiro romance de Pedro Mairal, Salvatierra (a Todavia acaba de lançar A uruguaia), onde o autor cria um artista mudo que se expressa através de uma obra sem limites. Uma narrativa sobre os vínculos familiares, o mundo secreto dos adultos e a palavra, numa linguagem contemporânea e poética. Cuarteto para autos viejos, de Miguel Vitagliano , reúne quatro histórias que se divergem e se complementam, e como uma partitura, mostra uma série de variações sobre uma música recorrente. O livro aborda o destino, o amor e a memória. (Porque conservar e deixar envelhecer nossos sentimentos? Por acaso guardamos os carros velhos?). Já em Lata peinada, de Ricardo Zelarayán, uma espécie de Livro do desassossego dos anos 2000, o autor reúne diversos textos curtos, numa espiral sonora e perturbadora. 

Outros dois livros, Tres hombres elegantes, de Marcelo Birmajer, e Perder, de Raquel Robles, também me entusiasmaram. O primeiro retorna com seu tradicional personagem, Javier Mossen, que graças aos seus trabalhos de roteirista e jornalista, conhece os três homens elegantes do título, e nos mostra sua galeria de personagens: um famoso escritor judeu, um cantor decadente e uma anciã e seus segredos. Já no livro de estreia de Raquel Robles, ganhador do Prêmio Clarín de Literatura, temos uma história de redenção, que narra com grande delicadeza o processo doloroso de uma mãe que perdeu seu filho de cinco anos num acidente de carro.

Esses livros, em sua maioria, publicados naquele longínquo 2008, pertenciam a pequenas editoras. Já passada uma década, a situação é a mesma: é impressionante como as pequenas editoras independentes seguem com prestígio e força. Um autor prolífico como César Aira (que já publicou mais de cem livros e de quem sou fã de carteirinha) prefere distribuir seus livros por várias editoras pequenas a ter um contrato amarrado com uma grande casa editorial (geralmente ligada a grupos internacionais). Seu último livro, El gran misterio, saiu pela Blatt & Ríos, que publica também Fabián Casas e Elvio. E. Gandolfo. Na Entropía estão Sergio Chejfec, Carlos Ríos e Romina Paula, e na Eterna Cadencia seguem Sylvia Molloy e Hernán Rosino (autor do excelente Glaxo, que saiu recentemente no Brasil).

E uma lista extensa de nomes se espalha por casas editoriais como Mansalva, Mardulce, Caleta Olivia e muitas outras. Estou reunindo minhas cadernetas para um livro ou série de artigos, para justamente pensar nessa simbiose, entre autores e pequenas editoras, que produz essa literatura tão peculiar. Mas o porão está lá. E fujo do porão borgeano ao me aproximar do armário pigliano: na primeira narrativa de Formas breves, Piglia passa seus dias entre um hotel em Buenos Aires e outro em La Plata: funções da vida acadêmica.

“Os corredores vazios, os aposentos transitórios, o clima anônimo desses lugares onde sempre se está de passagem. Viver num hotel é o melhor modo de não cair na ilusão de ter uma vida pessoal...”

Piglia, numa tarde qualquer em seu quarto de hotel em La Plata, encontra num canto do guarda-roupas, num desvão, as cartas de uma mulher, Angelita, que fugira de casa para evitar mudar de cidade. Algum tempo depois, Piglia resolve vasculhar o guarda-roupas de seu quarto de hotel em Buenos Aires. Acha duas cartas, de um homem, justamente em resposta à mulher de La Plata.

“A única explicação possível é pensar que eu estava enfiado num mundo cindido e que havia outros dois que também estavam enfiados num mundo cindido, passando de um lado para outro tal como eu e, por uma dessas estranhas combinações produzidas pelo acaso, as cartas haviam coincidido comigo”. O fato é que a literatura argentina coincidiu comigo.


Carlos Henrique Schroeder é romancista e contista, autor de As certezas e as palavras (Editora da Casa, 2010), vencedor do Prêmio Clarice Lispector da Biblioteca Nacional, e de As fantasias eletivas (Record, 2014), suas duas homenagens à literatura argentina. 
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