Romance | Sara Gallardo

Eisejuaz

Tradução: Mariana Sanchez

Diz Eisejuaz:

Entreguei minhas mãos ao Senhor porque ele falou comigo uma vez. Falou outras vezes, antes, mas usando seus mensageiros. Falou por seus mensageiros no Pilcomayo, quando fui menino e andei com as mulheres catando bichos na mata. Falou por seus mensageiros na missão e o missionário me botou sete dias de castigo. Mas, lavando pratos no hotel, falou-me Ele próprio. Dezesseis anos eu tinha, recémcasado com minha mulher. A água descia pelo ralo com seu redemoinho. E o Senhor, de repente, naquele redemoinho: “Lisandro, Eisejuaz, suas mãos são minhas, me dê”. Larguei os pratos. “Senhor, o que posso fazer?”. “Antes do trecho final pedirei por elas.” “Te dou já, Senhor. São suas. Já te dou”. O Senhor foi embora. Restou o redemoinho com a espuma do sabão brilhando. O Gómez, que tem bar, era garçom ali. Viu os pratos sem secar, secou e os levou sem dizer nada. Sempre teve medo de mim. Porque eu, Este Também, Eisejuaz, arrastei sem ajuda a segunda viga do caminhão até o refeitório. A viga segunda de ipê, grande qual quatro homens, eu sozinho, quando fizeram a ampliação. A viga primeira puseram há trinta anos, cinco peões da dona Eulália que carregaram. Por isso Gomez não disse nada. Pela força que eu tenho. E se alguém diz que foram vários homens que carregaram a viga, está mentindo. Gomez nada falou. Eu saí do hotel. Passei três dias sem falar, sem olhar, sem comer.

Minha mulher:

— O que tem no seu rosto que eu não conheço?

Fui ao hotel. “Meu homem está doente. Não fala, não olha, não come”. “Leve-o ao médico”. Não fui. Não falei. Era o quarto dia.

Dona Eulália na nossa casa: “Como querem se civilizar? Ninguém vai devorar vocês no hospital. Sempre a mesma coisa. Se não forem, não vou pagar os dias faltados”. Nada não falei. Minha mulher era boa, tinha conhecimento das coisas e chorou. Tampouco naquela noite falei, nem comi.

No quinto dia eu lhe disse:

— Tem água? Traz água.

Trouxe água. Era pouca.

— Aqui a água é pouca. Aqui não tem água. Você sabe

Só tinha uma moringa d’água. Levantei-me. Joguei essa água na minha cabeça e nas mãos. E não teve mais.

— Faz comida. 

— Só tem um biscoito e duas batatas-doces. 

— É suficiente. Comemos o biscoito e as batatas-doces. 

Falei pra minha mulher:

— O Senhor falou comigo quando eu lavava os pratos. 

— E agora — disse minha mulher. 

— O que vamos fazer? 

“O que vamos fazer?”, é o que ela disse. 

Duas vezes o Senhor tinha falado comigo por seus mensageiros. 

Eu andava na mata catando bichos com as mulheres. Gafanhotos, formigas, lagartixas. Minha mãe me disse: “Você é grande, logo vai caçar com os homens antes de ter idade. Um dia será chefe”. Uma mulher, mãe de machos, ouviu e começou a gritar, bateu nela, se atracaram pelos cabelos. Minha mãe era forte e quebrou quatro dentes dela. Veio o chefe, porque ainda não tínhamos nos afastado. Ele veio e gritou alto, mas não o ouviram. Então ele ergueu a bengala e quebrou um braço da mulher que tinha batido na minha mãe: uma parte do osso saía por baixo e a outra despontava por cima. Todas as mulheres começaram a chorar e a gritar, e duas que eram velhas tentavam consertar o braço quebrado. “Ela quer te ver morto!”, gritou a mulher. “Quer que o filho dela seja chefe!” Ficou feito morta. Crac, crac, fazia o braço. Os pedaços de seus dentes quebrados na terra. O chefe me olhou. Nada disse. As mulheres choravam. Ele levantou a bengala pra bater na minha mãe e minha mãe não escapou, não pulou, não fugiu. Mas ele não bateu. Disse apenas: “Mal trocou os dentes e já quer ser chefe?”. Não falei nada. E gritou pras que choravam: “Silêncio!” Uma velha, que era mãe dele, levantou bem a voz. “Você quebra os ossos de uma mulher e não podemos chorar?”. Ele ergueu de novo a bengala. “Na sua mãe, sim, bata nela, quebre seus ossos — gritou a mãe velha —, e não naquela que quer a sua morte!”. Ele disse: “Sua cria mal trocou os dentes. Seu franguinho ainda não está emplumado”.

Então um mensageiro do Senhor passou pra falar comigo. Era uma lagartixa. Mas com uma cor igual à do sol. Segui-a, corri-a. Cheguei a uma clareira. Não a encontrei nessa clareira. Procurei e não encontrei.

Então, quando chegou a hora de comer, todo mundo estava zangado. Os homens tinham voltado sem caça, a mulher do braço quebrado gritava uuui, uuui, e a minha mãe, apesar de não ter sido quem quebrou o braço, foi ameaçada. “Te mataremos”. Meu pai quis bater na minha mãe também e ela não se mexeu, não fugiu. Havia muita fumaça, fumaça em cima da mulher doente, e fumaça das fogueiras porque a lenha estava verde. E todo mundo continuava zangado, e só se comia o que eu e as mulheres catamos: gafanhotos, lagartixas. Jogávamos na brasa, se retorciam, comíamos. E eu me lembrei do mensageiro do Senhor que passou aquela tarde pra falar comigo. Era de noite já. Na mata anoitece muito cedo. Corri buscá-lo. Estava no tronco de um paricá, brilhando. Nada não disse, nem me mexi. Nem aquela lagartixa. “O Senhor vai te comprar — me falou —, você vai dar suas mãos pra ele”. Nada falei. “O senhor é único, é um só, nunca nasceu, não morre nunca”. Eu a ouvia. Brilhava. Disse: “Agora fale”. Eu disse: “Tá bom”.

Mas todos tinham saído me buscar com tanto barulho, com luzes, com medo do jaguar. Caminhei e corri e cheguei aonde estavam e se zangaram. Meu pai: o que estava fazendo? Minha mãe: também. Nada disse eu.

De manhã me levaram olhar as pegadas. Fomos até o paricá e vi as pegadas dos meus pés. E as pegadas do jaguar davam quatro voltas em torno das minhas pegadas e depois as seguiam quando caminhei e quando corri.

Eu não o havia visto. Ele não havia me tocado.

Desde esse dia não me perguntaram nada.

Sou Eisejuaz, Este Também, o do longo caminho, o comprado pelo Senhor. Paqui está aqui. Já sai o sol. Já sai o trem. O sino do trem, o sino do franciscano. O último trecho do caminho de Eisejuaz começou. O carro do reverendo sai pra Salta porque é festa dos gringos noruegueses. Os filhos põem gravata borboleta pra festa e são como cria de galinha. “Hoje é seu aniversário, Lisandro — diziam —, e depois de amanhã, festa do norueguês”. Mas Eisejuaz não pode voltar pros noruegueses. Já terminou o segundo e o terceiro trecho do seu caminho.  

O trator do missionário gringo inglês soa e vai pra serraria. Os caminhões soam, bem cedo, pelo calor bruto. Paqui falou:

— Estou com fome e frio. O que você quer comigo, índio imundo? Me mate de uma vez.

Posso tratá-lo como meu, é aquele que o Senhor me mandou. Por isso jogo-o na água do córrego. De meio-dia as mulheres do acampamento tomam banho e seus vestidos incham. Minha mulher tomava banho. Se divertia. Brincava na água com as mulheres e com os filhos das mulheres. A Maurícia toma banho. Minha mulher já morreu, mas as outras tomam banho. Paqui abre a boca debaixo d’água. Vai morrer já, já.

Eisejuaz, aquele que levou sozinho a viga do hotel, entregou suas mãos ao Senhor. O Senhor as deu ao Paqui, o paralisado, o inválido, o doente, tamanha imundície. Ao Paqui, aquela carniça. “Tá bom, Senhor. Não deixe que eu me arrependa.” Botei-o na rede, fui pra casa de Eisejuaz. A casa que não é só de Eisejuaz. Pra secá-lo, pra vesti-lo, pra alimentá-lo. 


Sara Gallardo nasceu em Buenos Aires em 1931. Escritora, cronista e jornalista, é autora dos romances Enero (1958), Pantalones azules (1963) e Los galgos, los galgos (1968). Sua vasta obra jornalística foi publicada em revistas como Confirmado e Primera Plana durante os anos 1960 e 1970, e no jornal La Nación, do qual foi correspondente na Europa. Em 1988, aos 57 anos, morreu em Buenos Aires de ataque fulminante de asma. Eisejuaz, sua obra mais radical, foi incluída na coleção Clásicos de la Biblioteca Argentina, dirigida por Ricardo Piglia. O livro será lançado no Brasil em outubro, pela editora Relicário.

Mariana Sanchez nasceu em Curitiba em 1981. É jornalista, especialista em tradução pela Universidade Gama Filho e em Cinema pela Faculdade de Artes do Paraná. Traduziu contos de Selva Almada, Lina Meruane, Samanta Schweblin, Pablo Ramos, entre outros autores latino-americanos. Como jornalista, colaborou para veículos como revista Piauí, Suplemento Pernambuco e Gazeta do Povo. Desde 2015 vive em Buenos Aires. 
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