Perfil | Glauco Flores de Sá

Todas as flores de Glauco

Intelectual gaúcho radicado em Curitiba, a partir de 1937, marcou a vida cultural da cidade. Deixou lastros no teatro, deu musculatura à tevê recém-nascida, fez poesia moderna, ainda em dias de ser lida

José Carlos Fernandes

Em maio de 1970 — às vésperas da campanha da Copa do Mundo — Curitiba tocava na mesma banda que o resto do país. A boçalidade da ditadura militar deixava seus estragos autoritários aqui e ali. O refrão ufanista e pegajoso do jingle “Pra frente Brasil” (“90 milhões em ação... todos juntos vamos”) fazia sombra a “Madalena”, sucesso na voz de Elis Regina, e a “Andança” — canção chiclete que revelou Beth Carvalho. O escapismo só não era maior porque uma notícia acertou a boca do estômago de quem frequentava o circuito cultural da cidade. O “múlti prosador” Glauco Flores de Sá Brito foi encontrado morto na pensão onde morava, na Rua Saldanha Marinho, Centro da capital, pelo amigo e compadre Aristeu Berger. Foi-se em segredo, num fim de semana de chuva. No seu quarto, um copo de vinho e sinais de que estava ali havia dias. Glauco tinha 50 anos — e só os alienados, os caretas, ou os sem instrução desconheciam de quem se tratava.

O impacto foi tamanho que se pode afirmar — sem margem de erro — que os praticantes da alta cultura na capital só enterraram Glauco de fato em 28 de agosto de 1975, quando o miniauditório anexo ao Teatro Guaíra foi batizado com o longo nome do intelectual, seguido de uma legenda maior ainda. Glauco Flores de Sá Brito foi jornalista, crítico de teatro, poeta, dramaturgo, profissional de televisão, encenador e agitador cultural. Na ocasião da inauguração, os jornais se esmeraram em fazer um obituário tardio, com mais ênfases do que os de cinco anos antes, quando da morte e do banzé que causou. A sala de teatro pequena, para cento-e-poucos lugares e sob medida para espetáculos infantis e de repertório, era saudada como uma “justa homenagem”. O próprio Sá Brito trabalhou ali, ao dirigir montagens na última fase de sua extensa carreira — extensa à revelia de ter partido tão cedo.

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Mil Glaucos
Com perdão ao clichê, Glauco provou de muitas vidas em cinco décadas. Sobre ele não se escreve um texto, mas uma série. Há o Glauco da cidade gaúcha de Montenegro, onde nasceu, lembrada em versos esparsos dos três livros de poesia que deixou (O marinheiro, de 1947; O cancioneiro amigo, de 1960; e o póstumo Azulsol). O Glauco que integra um dos mais excitantes núcleos de pensamento da cidade, a turma do Café Belas Artes, cujo auge se deu nos anos 1940, a bordo de revistas que nos salvam da inhaca de província. Há o Glauco do jornal O Dia, no qual fez carreira. O dos 182 teleteatros e 11 telenovelas feitos para TV a lenha, de 1961 a 1966, no Canal 6. 

Acrescente-se o sujeito que agitou meia dúzia de grupos cênicos a partir de 1948 até sua morte. O que tentou carreira no Rio de Janeiro e trabalhou com Sérgio Britto e Jacy Campos — um homem de TV, quem sabe seu guru. O Glauco no cabide de emprego da Assembleia Legislativa do Paraná — de onde tirava caraminguás para pagar o bonde. O poeta que encantou Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, com os quais trocou missivas. O dos muitos amigos. O dos amores escondidos — pelos quais teria chorado pelos cantos e dos quais todo mundo falava. O piadista, frasista e polemista fino.

Chamá-lo de “Oscar Wilde dos pinheirais” seria de uma preguiça tamanha. Os que o conheceram o descrevem como um sujeito discreto, avesso à afetação literária e com ojeriza à performance. Menos Wilde, mas talvez um Karl Kraus, dado a dizeres demolidores. Mesmo assim, estava longe de ser um iconoclasta radical. O escritor Wilson Bueno — da geração 70, a do desbunde — o conheceu de vista, mas o bastante para decodificá-lo. Ao prefaciar uma obra reunida de Glauco, editada post mortem pela Livraria Ghignone, o descreve como um “vulto fugidio”, “o estranho que entra apressado no bar e na tua hora mais forasteira te cumprimenta, e você o supõe tão íntimo que chega a dispensar explicações”. No melhor do estilo “sem dizer dizendo”, Bueno compara Glauco a Lúcio Cardoso, autor de Crônica da casa assassinada, também um corpo e alma entregues à penumbra.

Ao final da jornada, seu espírito parecia mais próximo ao do dramaturgo norte-americano Tennessee Williams, de quem chegou a encenar À margem da vida, em 1956, com Aristeu Berger no elenco, assim que o Teatro Guaíra se impôs como a casa que, permitam, menino órfão, não teve. Tennessee e Glauco se foram sós, vivendo na assepsia das hospedarias e em situações banais. O autor de Um bonde chamado desejo teria se engasgado com uma tampa de plástico de um colírio e não houve quem o socorresse. Com Glauco, o desamparo foi semelhante. Há registros de que havia tempos, andava afastado dos seus afazeres no Guaíra — às voltas com os achaques de um glaucoma. Triste coincidência com o próprio nome, o que lhe impedia permanecer no posto de leitor, atividade canina. Teria morrido de AVC ou de complicações de edema pulmonar.

“Não penses que te amo / Hoje menos que há séculos / Quando (em outros seres) / Nos conhecemos” (Eternamente amor)
Passadas as exéquias — que destacaram a imensa erudição e, claro, a propalada discrição [que lhe permitiu circular em CWB] — vieram à tona as situações engraçadas de sua biografia, um lado B irresistível. “Ninguém contava piada de bicha como ele. Sua especialidade”, diz o advogado e ex-secretário de Estado da Cultura Eduardo da Rocha Virmond, 89 anos. “Fomos grandes amigos”, conta, sobre o período do final dos anos 1940 em que o jovem Eduardo conseguiu um cantinho de mesa no seleto clube de intelectuais do Café Belas Artes.

O “Belas” ficava na Rua XV, ao lado da Loja Louvre, do mítico Miguel Calluf, hoje uma “Loja Marisa”. Havia mesas para árabes e judeus, em plena discussão sobre o Estado de Israel. Virmond se sentava ao lado de José Paulo Paes, Samuel Guimarães, Armando Ribeiro Pinto, Marcel Leite, Milton Sabbag, Itamar Vugman, Nireu Teixeira. E de Glauco. São célebres as passagens em que Glauco — ainda que rejeitasse o uso das plumas acadêmicas — deu ali sinais de que gastara muitos livros com sua vista castigada, servida por lentes grossas em aros pretos. Na roda, surpreendeu, certa feita, ao fazer uma preleção sobre Platão, entre goladas de uma média. Paralelo — fazia rir. Havia “a última do Glauco”. O fato de ser homossexual — condição não declarada, algo incomum para a época, mas fofocado pelos mais próximos — tornava as anedotas ainda mais temperadas. “Ele tinha uma gargalhada flaubertiana”, ilustra Eduardo Virmond.

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Glauco Flores de Sá Brito e sua afilhada Monica Berger, em Curitiba, dezembro de 1969

Parte do anedotário em torno do nome daquele gaúcho feito curitibano se deu na redação do jornal O Dia — então plantado na Praça Carlos Gomes, perto da velha Gazeta do Povo —, no qual trabalhou uma década. Os exercícios imaginativos à máquina de escrever não teriam atingido sua reputação. Manteve a fama de jornalista de estirpe, ainda que agisse como um Graham Greene. Uma de suas blagues, conta-se, se deu em 1967. Ao saber pelas agências internacionais que o general argelino Alphonse Juin morreu — e que seu cortejo teria míseros quatro cavalos — , indignou-se. Era muito pouco para figura tão ilustre do Exército francês. Reescreveu a notícia, dizendo serem 18 cavalos. De modo que em Curitiba o enterro do militar foi mais concorrido que em Paris.  

O próprio irmão mais novo de Glauco, Glênio, destacou um caso divertido do passado, em panegírico publicado por ocasião do rebatismo do miniauditório do Guaíra. Órfão de mãe aos quatro anos, Sá Brito foi encaminhado para a casa da avó Adelaide, para que o criasse. Ali, gozou dos cuidados de uma tia solteira, Gilda — que lhe teria feito as vezes de mãe. Pouco tempo depois, quando essa parenta se casou, o guri fez tamanho escândalo que acabou por acompanhá-la na noite de núpcias, dividindo a cama com o casal.

“Sou um anjo com asas de fogo” (O anjo inquieto)
Nas lembranças de Eduardo Rocha Virmond, a capacidade de Glauco em ser personagem e narrador de situações cômicas oxigenava as tertúlias no Café Belas Artes. E reforçava o enigma da pirâmide em torno dele — por não ter se casado, como os outros. Por levar uma rotina espartana, salvo a elegância do terno, sempre a postos no cabide da repartição. Nem se afinado com intelectuais que teriam mais a ver com sua natureza “tímida espalhafatosa”. Salvo o crítico de arte Walmir Ayala, gaúcho e poeta como ele, mais jovem e despachado, e com quem travaria sólida amizade no momento em que se descolou da província. E o jornalista Nelson Faria — que ficaria conhecido por trabalhos para as pioneiras revistas homoeróticas da Grafipar.

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Em 1955, nas instalações do Teatro Guaíra, Glauco Flores de Sá Brito em pé, com Alceu Stange Monteiro (de óculos) sentado à mesa e um amigo

“Ele ironizava o Tulipas Negras”, ilustra Virmond, a propósito do grupo de curitibanos homossexuais — muitos deles endinheirados — que formava uma tour de force na Curitiba da década de 1950. A confraria chegou a ser reprimida durante um carnaval pelo delegado Walfrido Pilotto, ao descobrir que os membros estavam travestidos num apartamento do Edifício Kwasinski, da Praça Osório. O flagrante, vexatório e injusto, pois a festa se dava num espaço privado, figura entre os exemplos clássicos da chamada “maldade curitibana”. Até que se prove o contrário, os Tulipas — cuja existência é citada na obra de Dalton Trevisan, mas cuja história ainda está para ser pesquisada — não contaram com a simpatia de Glauco, mas nada que o desmereça: ele estava engajado demais com a literatura para se envolver em questões sectárias. E tudo indica que não podia se indispor com Curitiba — a cidade que grudou a sua pele.

No presídio, nas redações
A trajetória de Glauco no Rio Grande do Sul foi modelar de um menino bom. Saiu das vizinhanças de Porto Alegre para estudar na capital e fez o Tiro de Guerra, uma variante do serviço militar. Ali, seus problemas de visão vieram à tona — uma miopia que lhe impunha limitações, mas o liberava para viver de arte. Em 1937, aos 18 anos, se muda para Curitiba, atraído pelo avô materno, Fernando Flores, que aqui tinha se estabelecido, nas barbas do governo Manuel Ribas. 

Era órfão, portanto livre. E inteligente. Arrumaram-lhe um emprego público — trabalhou no Presídio do Ahú, assim que chegou. Paralelo, pouco mais que um guri, aprumou-se com a literatura e o jornalismo. Sua estatura não demorou a ser percebida. Em levantamento minucioso feito pela pesquisadora Cassiana Lacerda, da UFPR, não restam dúvidas do papel do forasteiro na geração que deu ao país gente como Dalton Trevisan e José Paulo Paes. Causa certa melancolia que a poesia que produziu tenha ficado à beira do caminho. Talvez por desleixo. Walmir Ayala o descrevia como um poeta distraído, “desligado das tensões”. O que produziu foi reconhecido à época por quem entendia do riscado, mas o teatro venceu. No palco, Glauco podia ser Glauco, por supuesto. 

Recém-chegado à capital — então um cruzamento de paralelepípedos com 140 mil habitantes —, rápido se torna colaborador de revistas que fariam a história do modernismo local: A Ilustração (a qual teria chegado a dirigir), Os moços, A Ideia e O livro. A experiência lhe valeu. Meteu-se nas pelejas a que tinha direito, a exemplo da reação conservadora à obra de Dalton. Em uma década, já merecedor de que tirassem o chapéu ao vê-lo, publicou sua obra de estreia na poesia — O marinheiro. Tinha 28 anos. Àquela altura, estava pari passu com a revista Joaquim, de Dalton, cuja parceria se estenderia até 1956, quando — ainda com Ary Fontoura — abraçam a condução do Teatro Experimental Guaíra.

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Há um intervalo passado no Rio de Janeiro. E o retorno, nos anos 1960, quando vai dar um salto triplo — o de ser um homem do pensamento às voltas com a implantação da televisão no Paraná. Para quem tinha atuado na carpintaria das revistas pós-Tingui e tocado jazz com o sino da catedral, é curioso imaginá-lo às voltas com cenários improvisados, experimentação bruta e futilidades de auditório. Há indícios de que tenha visto na TV uma oportunidade de popularização da cultura — posto que adaptou para a tela clássicos da prosa brasileira, a exemplo do conto “Missa do Galo”, de Machado de Assis. Tinha a louca companhia de Valêncio Xavier, culto como ele. Seu desempenho faria engordar os olhos produtivistas de hoje em dia. Mas foi um interlúdio. De todas as línguas que Glauco falava, o teatro venceu. A Associação Paranaense de Críticos de Teatro tinha por hábito premiá-lo. Era um mito da classe.

A musicista Eugênia Petriu — que adquiriu a Galeria Cocaco em 1959, perpetuando a vocação modernista do local — lembra da figura de Sá Brito, que aparecia nas concorridas exposições da casa. “Era um homem reservado e elegante”, lembra a octogenária. Falavam-se pouco, rotina que mudou a partir do final dos anos 1960, quando o então encenador e dramaturgo se entregou de vez à fúria do Guaíra. Vinha pessoalmente à Cocaco pedir obras de arte para colocar nos cenários. 

“Escolha, quanto quiser, a causa é nobre”, dizia-lhe Eugênia. Era Glauco Flores de Sá Brito, afinal. Não havia papelada, recibo, nada. Dono de paladar refinado também para a artes visuais, escolheu, certa vez, uma tela com pintura e colagem de ninguém menos que João Osório Brzezinski, revelação inconteste. Para azar de Glauco, a peça foi danificada durante a desmontagem do cenário. A conversa triangulou, debaixo de mal-estar — Eugênia, o diretor e Brzezinski, sobre quem arcaria com o prejuízo. “Ele veio tenso. Eu fiquei muda. João, uma onça”, diverte-se. Houve final feliz. 

Em tempo
Em 1997, por iniciativa do então secretário Eduardo Rocha Virmond, a Secretaria de Estado da Cultura lançou a obra Poesia reunida, com os três livros de Glauco e textos críticos. É a melhor compilação de sua produção, alçada graças também ao acervo particular do ator e advogado Aristeu Berger. Em 2014, Glauco foi homenageado com mostra fotográfica e documental do Museu da Imagem e do Som (MIS) e Teatro Guaíra. A curadoria foi do cineasta Fernando Severo e do ator e produtor Áldice Lopes.
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