Conto | Otavio Duarte

Álbum não branco

1. Lovecraft 
2. Robert S5CF-D esquece as coisas 
3. 3.213 aranhas 
4. Don‘t worry Isabelle 
5. Verão de 2002 ou de 2003 
6. Not in this life 
7. Você não é tão linda 
8. Horizonte de eventos 
9. Laika‘s solitude 
10. Só uma gota de limão 
11. Lixo na lua 
12. Blues distração 
13. Rio do esquecimento 
14. Mortos e perdidos no mundo subterrâneo 
15. Preferia mil dólares 
16. Diga sim, Maria Joana

1
Tons estranhos da luz lunar entre os galhos, subitamente retorcidos, das árvores agora escuras. Crics, cracks, lovecrafts, silvos, crepitações, quase gemidos não humanos, coisas a gerar um sentimento obscuro, profundo, de revolta, temor e asco. Folhas que farfalham, sussurram, sombras sutis a deslizar entre as ramagens, galhos a surgir contra o céu estrelado. O sutil barulho noturno de sempre silenciado; os animais disparam para todos os lados; os pássaros criam um mancha no ar, a caminho de outros lugares, os insetos saem em nuvens. Uma névoa suave cresce, se adensa, toma corpo e engolfa as árvores, a vegetação, o campo ao redor, escuridão sob a claridade da lua, fria, distante, longe de tudo. O vento, a gelar os ossos.  

2
Bar Hanmar grita NÃO! e o portal estelar estremece, os delicados cristais temporais partem-se ante o golpe da voz poderosa. Impedida a fuga, o vilão Hoz e sua amante de doze braços e dez pernas, Fizzagizz, pulam ao chão, empunham os gatilhos ao mesmo tempo, dança ensaiada, e apontam as armas exterminadoras contra o indefeso Bar Hanmar. Eles disparam os mecanismos medonhos!

— Eles acertam? Pobre Hanmar... 

— Hanmar esquiva-se, consegue sucesso? 

— Claro que sim... acho que... talvez... não tenho certeza, meu recondicionador não recompôs direito esta parte dos arquivos. Ando meio fragmentado, sabe?

3
Que bailado não dariam 
3.213 aranhas a dançar? 
Os passos tão leves 
tão práticos 
correndo pra                      lá 
e pra cá?

4
Ah 
as gaivotas, sempre elas, a pairar. 
Esta praia de Barcelona, Isabelle, é uma construção de areia e terra. 
Recifes artificiais atenuam a força das ondas. 
A natureza nunca foi perfeita. 
Não se preocupe: todos os veículos foram mobilizados. 
A imprensa inteira. 
Quando você, distraidamente, sem sequer perceber, 
deixar cair a parte superior do biquíni, 
estará exposta a todos os flashes 
desses malditos paparazzi.

5
Cara, 
nem sei dizer. Um calor, um calor... 
Eu misturo as coisas. O que mais poderia fazer? 
Nunca fui uma possibilidade. 
Não assim de constituir família. 
Ela ocupou a casa. 
Ficou o verão inteiro. 
Sozinha. 
Trinta e poucos, quarenta, quem sabe quantos anos tinha? 
Esse calor, essa lembrança, 
acho que ela não dava importância. 
Estava se lixando. 

6
Nunca. 
Jamais. 
Seu cachorro, cafajeste, sem-vergonha!

7
Olhos bonitos todas têm 
E até um corpo bom, também. 
Meninas feias se esforçam
transam bem 
e têm o que falar. 
O que faz você pensar 
que vai me deixar 
num buraco muito fundo 
o maior de todo o mundo?

8
O ar quebrou-se, eu garanto, foi alguma coisa assim
Não propriamente o ar, mas o meio que ele preenche, sabe?
Vivemos nisso, ele nos permite existir no mundo. Essa conjunção de fatores.
O que é uma dimensão? No que nos enquadramos? É um ambiente, um meio? Largura, altura, comprimento, profundidade, o tempo, a completar o espaço.
E tudo quebrou-se. Alguma coisa muito mais brilhante que a luz do sol insinuou-se no ar, no vazio.
Não havia mais um fim, porque há um fim, nosso pensamento concebe sempre um fim, enquadra sempre tudo em alguma coisa que possa ser apreendida ou intuída...
E o buraco, de repente, fechou-se. O escuro de nosso universo voltou, pesado, até que parecesse claro, outra vez. E ficamos mais pobres. Solitários de novo.

9
Laika solitária. 
Não foi para isso que nasceu. 
O mundo, uma esfera, a girar embaixo. Laika não a vê. Não sabe o que é uma esfera e nem o que o mundo é.
Laika não sabe. Laika num veículo viajante, alguma coisa errada com o ar, o peso e a pressão.
Ganidos de incompreensão.
Não há entendimento. Laika não pertence ao gênero do homo sapiens, frente à morte em espaço desconhecido, sem saber. 
Presa, sem um solo, onde pudesse firmar as patas e correr. 

10
Ah!
Só quem conhece sabe.

11
A bandeira americana, hasteada em plano rígido, vento nenhum.
Foi uma Soyus que se arrebentou na superfície lunar?
Metais terrenos, plásticos: restos humanos.

12
Minha mão direita na tua cintura.
A esquerda a receber a maravilha do contato com a tua. 
Deixa que eu conduza,
Como você quer, 
a bailar

13
A imagem sempre é de paz e quietude. 
Silêncio.
Pássaros, talvez, a trinar, a sobrevoar a paisagem imensa.
Não aqui nesta avenida onde todos os carros gritam.
Silêncio.
Viver é acontecer
Acontecer é barulho.
Contra as imaginações eternas da infância: 
O silêncio
O murmurar da corrente, os pássaros, os grilos
Música nenhuma além da natureza..

14
Uma moeda em cada olho. 
Dinheiro temporal a comprar o transporte para o eterno esquecimento no reino de Hades. Todos viremos a conhecer o baixo mundo, as surpresas do viver extintas.

(Uma pinta. Pequena, bem ao lado do aréolo esquerdo, só a reparamos quando os bicos dos seios, eretos, se levantam. E eles são o centro da atenção. Neles nos concentramos, nesse instante exato e precioso. Deles, tudo queremos. A pinta, porém, é um acréscimo a discordar. Ela pede atenção, um cuidado breve e especial só para ela, antes do fervor aos bravos picos que se elevam. Uma pinta num seio. Se procurarmos, haverá mais. Notáveis para uns, nada demais, talvez, para outros.)

15
Vencido o concurso,
a publicação do conto no jornal.
Algum leitor,
talvez aos olhos brilhantes de uma moça?

16
Diga sim, Maria Joana. 
É tão simples.
Por que sempre procurar a cor que destoa? 


Otávio Duarte nasceu em Campo Mourão, Paraná, em 1953. Jornalista e escritor, morou e trabalhou em Curitiba (PR), São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ), e voltou a residir na capital do Paraná. Autor, entre outros, do livro de contos Seis romances e uma pintura (2001) e do romance Amor absoluto (2012).  
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